A albatroz Wisdom recebeu uma anilha no Atol de Midway, no meio do Pacífico Norte, em 1956, e continua voltando à mesma ilha. Quem a anilhou foi o cientista Chandler Robbins, do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), que estimou nela pelo menos 5 anos de idade na época, segundo o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA (USFWS). Em abril de 2026, o órgão falava em uma idade aproximada de 75 anos.
A volta mais recente aconteceu na temporada 2025/26. A ONG Friends of Midway Atoll (FOMA) noticiou a chegada dela em 20 de novembro de 2025, e o parceiro, identificado pela anilha EX25, apareceu dias depois. Não houve ovo desta vez, mas o USFWS confirmou que Wisdom seguiu visitando o refúgio de Midway ao longo de 2026: de 1956 a 2026, são 70 anos de retorno ao mesmo pedaço de areia.
Ela é considerada a ave selvagem anilhada mais velha que se conhece. Em 2026, a novidade na colônia veio da geração seguinte, de uma cria dela que escapou de um tsunami.

Quem anilhou a albatroz Wisdom em 1956
Os biólogos identificaram Wisdom em 1956 logo depois que ela botou um ovo, informou o USFWS em 2022. Como já se reproduzia, era adulta, e Robbins calculou que tinha no mínimo 5 anos.
De lá para cá, ela teria posto entre 50 e 60 ovos, dos quais cerca de 30 filhotes chegaram a voar, segundo estimativa do USFWS publicada em abril de 2026. O antigo parceiro, Akeakamai, sumiu da colônia, relatou o órgão em 2022, e nas últimas temporadas ela aparece ao lado de EX25.
A distância percorrida também entrou na conta. Em 2013, o USFWS estimou que ela voava cerca de 50 mil milhas por ano e que, desde a anilhagem, já somava entre 2 e 3 milhões de milhas, algo entre 3,2 e 4,8 milhões de quilômetros.
Um ano sem ovo, depois de um filhote perdido
Na temporada 2024/25, Wisdom botou um ovo em 26 de novembro de 2024, com EX25. O filhote nasceu por volta de 30 de janeiro de 2025 e, segundo a FOMA, morreu antes de voar.
Em 2025/26, ela voltou e reencontrou o parceiro, mas o USFWS confirmou que não houve postura. As visitas continuaram mesmo assim.
A colônia, por sua vez, teve um ano cheio. A contagem do USFWS chegou a 589.623 ninhos de albatroz-de-laysan em Midway, a quarta maior já documentada.
A cria de 2011 que escapou do tsunami
Em março de 2011, um tsunami atingiu Midway. Entre as aves que sobreviveram estava a cria de Wisdom daquele ano, anilhada como N333, que a FOMA acredita ser macho.
N333 chocou um ovo fotografado em 6 de dezembro de 2025. O filhote nasceu, apareceu em vídeo em 13 de fevereiro de 2026 e recebeu a anilha HH33 em junho, o que fez de Wisdom avó mais uma vez, conforme o relato da FOMA sobre a linhagem da albatroz.
No mesmo texto, de 14 de junho de 2026, a ONG anotou que Wisdom não era vista havia algum tempo, o esperado fora da época de reprodução.
A temporada dos 70 anos começa em novembro
A temporada 2026/27 em Midway começa por volta de novembro, e até 27 de outubro de 2026 não havia registro da volta de Wisdom. Quando os albatrozes chegarem, os biólogos vão procurar na colônia a anilha Z333, a dela.
A trajetória dela mostrou que uma albatroz pode se reproduzir com idade estimada acima de 70 anos, como no ovo de 2024. Ferramentas novas, como os radares que flagram aves mudando o calendário de migração, ampliaram o monitoramento. Nenhuma delas, porém, substitui uma única anilha lida por sete décadas.
Lixo no ninho, anzol no mar e a regra brasileira de 2015
Os albatrozes de Midway dividem a ilha com o lixo que o oceano traz. O USFWS calcula que cerca de 23 toneladas de detritos chegam ao atol por ano e relata filhotes que morrem com o estômago cheio de resíduos.
No mar, o perigo é a captura acidental na pesca de espinhel, que fisga albatrozes e petréis atraídos pela isca.
O albatroz-de-laysan não ocorre no Brasil, mas o país adotou em 2015 uma regra para proteger as espécies do Atlântico Sul. A Instrução Normativa Interministerial nº 7/2014, dos ministérios da Pesca e do Meio Ambiente, passou a exigir a partir de 1º de maio de 2015 linha espanta-pássaros, lançamento noturno e peso nas linhas no espinhel pelágico ao sul do paralelo 20°S, segundo o Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis (ACAP).
Por aqui, a ONG Projeto Albatroz se dedica à conservação dessas aves. E casos como o da espécie rara que reapareceu depois de décadas em uma reserva brasileira lembram que só quem acompanha por muito tempo consegue notar quem volta.




