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Início Cidades

Casas antigas, ruínas do século XVII e foguetes subindo ao espaço transformam essa cidade em um cenário quase inacreditável

Por Maura Pereira
18/07/2026
Em Cidades, Turismo
A vila histórica paradoxa onde o passado em ruínas encontra uma base espacial ativa com foguetes no Brasil

Imagem ilustrativa I Alcântara-MA revive glórias coloniais em ruas de pedra e arquitetura barroca, inspirando viagens no tempo no coração do Maranhão.

Alcântara, no litoral do Maranhão, reúne em um mesmo território ruínas coloniais, comunidades quilombolas e um dos centros espaciais mais importantes do mundo. Separada de São Luís pela Baía de São Marcos, a cidade preserva um patrimônio histórico que reflete o período de maior prosperidade econômica da antiga capitania maranhense.

Como Alcântara se tornou uma das cidades mais ricas do Maranhão colonial?

A ocupação portuguesa de Alcântara começou em 1648, sobre a antiga aldeia tupinambá de Tapuitapera. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, a produção de açúcar, sal e, principalmente, algodão impulsionou a economia local, colocando a cidade entre os principais centros produtores do Maranhão durante o período colonial.

A riqueza acumulada permitiu o surgimento de uma influente elite rural, que enviava seus filhos para estudar em Coimbra e trouxe de volta costumes e referências arquitetônicas europeias. Desse período permanecem casarões, igrejas, fontes históricas e o tradicional Pelourinho, construído com pedra de lioz trazida de Portugal, elementos que ainda testemunham o auge econômico vivido por Alcântara no século XIX.

A vila histórica no Brasil onde foguetes decolam ao lado de ruínas esquecidas do século XVII
Alcântara-MA abriga centro histórico tombado IPHAN desde 1948, com ruínas de igrejas, palacetes e Forte de Santa Maria às margens da baía. // Créditos: Wikipédia

A aposta dos dois barões para hospedar Dom Pedro II

O episódio mais saboroso da história alcantarense envolve uma disputa de vaidades. No século 19, correu o boato de que Dom Pedro II visitaria a cidade em uma viagem oficial. Dois homens ricos decidiram cada um construir um palácio para hospedar o imperador, na esperança de ganhar título de nobreza ainda mais elevado.

  • Barão de Mearim: do partido conservador, ergueu o que ficou conhecido como Palácio Negro, em frente ao largo da Igreja do Carmo. As ruínas ainda guardam sacadas de pedra lioz tombadas no chão.
  • Barão de Pindaré-Mirim: do partido liberal, iniciou em paralelo um segundo palácio, com importação de materiais e ostentação calculada para impressionar a corte imperial.
  • Dom Pedro II: cancelou a viagem segundo a tradição local, justamente para não tomar partido entre liberais e conservadores. Nenhum dos dois palácios foi concluído.

O vídeo do canal DEVA NO AR apresenta uma jornada detalhada por Alcântara, no Maranhão, uma cidade histórica fundada em 1648 que parece ter “parado no tempo”. Conhecida como a cidade das ruínas, Alcântara é um Patrimônio Histórico Nacional que guarda as marcas da era colonial brasileira.

Por que a igreja mais famosa de Alcântara nunca ganhou um telhado?

O principal cartão-postal de Alcântara são as Ruínas da Igreja Matriz de São Matias, localizadas na Praça da Matriz. A construção, iniciada no século XVII, jamais foi concluída. As paredes de pedra e cal permaneceram de pé, mas a cobertura nunca chegou a ser instalada, transformando o céu maranhense no teto permanente de um dos cenários históricos mais emblemáticos do Brasil.

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Ao redor da praça, outros monumentos reforçam a importância histórica da cidade. O Pelourinho de Alcântara, considerado um dos mais preservados do país, ainda exibe o brasão da Coroa Portuguesa esculpido em pedra. Em frente às ruínas está a Igreja e Convento de Nossa Senhora do Carmo, fundada em 1665, que preserva elementos do período colonial, como retábulo em estilo rococó, painéis de azulejos portugueses e fachada construída em pedra de lioz trazida de Portugal.

Em Alcântara-MA, explore praias calmas, trilhas ecológicas e museus gratuitos no casario colorido e acolhedor da baía de São Marcos. // Créditos: Wikipédia

A cidade inteira virou monumento nacional em 1948

Quando o ciclo do algodão acabou e a abolição da escravatura desestruturou a economia local, os ricos partiram. Os casarões ficaram. O isolamento geográfico, longe das rotas modernas de transporte, fez com que a cidade simplesmente parasse no tempo. O abandono virou método de preservação.

Em 22 de dezembro de 1948, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou o conjunto arquitetônico inteiro pelo Decreto nº 26.077, transformando Alcântara em Cidade Monumento Nacional. A área protegida abrange aproximadamente 400 imóveis, segundo o IPHAN. O perímetro foi delimitado oficialmente em 1997, pela Lei nº 244, que regulamenta ocupação e uso do solo dentro do sítio histórico.

No Nordeste brasileiro, foguetes são testados em uma cidade fantasma que hoje vive entre ruínas e a alta tecnologia
Alcântara-MA revive glórias coloniais em ruas de pedra e arquitetura barroca, inspirando viagens no tempo no coração do Maranhão. // Créditos: Wikipédia

A latitude que economiza 30% de combustível por foguete

Enquanto o centro histórico petrificou, outra parte do município entrou na era espacial. O Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) foi inaugurado em 1983 e começou a operar em 1989, administrado pela Força Aérea Brasileira (FAB) e integrado à Agência Espacial Brasileira (AEB). Sua localização tem um dado técnico que explica todo o resto: a base opera a 2°18′ de latitude sul, posição mais próxima da linha do Equador entre todas as bases das Américas.

A proximidade do Equador aproveita a velocidade de rotação da Terra para impulsionar foguetes com menos combustível. A tabela abaixo compara o CLA com outras bases de lançamento ao redor do mundo:

🚀 Kourou LOC: 5°N
País: Guiana Francesa
Operação: ESA
Sede do Centro Espacial de Kourou, administrado pela Agência Espacial Europeia.
🚀 Alcântara LOC: 2°S
País: Brasil
Operação: FAB e AEB
Sede do Centro de Lançamento de Alcântara, com posição geográfica privilegiada.
🚀 Canaveral LOC: 28°N
País: Estados Unidos
Operação: NASA e SpaceX
Abriga o complexo histórico de lançamentos de Cabo Canaveral.
🚀 Baikonur LOC: 46°N
País: Cazaquistão
Operação: Roscosmos
Instalações operacionais do pioneiro Cosmódromo de Baikonur.
💡 Dica do especialista: A vantagem geográfica é o maior trunfo logístico aqui. Bases próximas à Linha do Equador (como Alcântara e Kourou) recebem um impulso extra da velocidade de rotação da Terra, reduzindo drasticamente o consumo de combustível. Já infraestruturas em latitudes altas, como Baikonur, exigem veículos lançadores com propulsão superior.

Em março de 2023, o CLA registrou seu 500º lançamento com a Operação Astrolábio, parceria com a sul-coreana Innospace que marcou o primeiro voo de veículo comercial estrangeiro em solo brasileiro.

O acidente que paralisou o programa espacial brasileiro

Em 22 de agosto de 2003, três dias antes do lançamento previsto, o Veículo Lançador de Satélites VLS-1 V03 sofreu uma ignição prematura no primeiro estágio enquanto ainda estava na plataforma. O incêndio gerou uma sequência de explosões que destruiu o foguete e a torre de lançamento. Vinte e uma pessoas morreram, a maioria engenheiros e técnicos brasileiros que detinham o conhecimento central do programa.

O acidente é considerado a maior tragédia da história aeroespacial do Brasil. A perda de boa parte do corpo técnico atrasou o desenvolvimento do VLS por mais de uma década, até o programa ser oficialmente extinto em 2016. A reconstrução da plataforma demorou anos e o Centro só voltou a operar com regularidade na década de 2020, agora com foco em parcerias comerciais internacionais.

Leia também: Com ruas de pedra e igrejas detalhadas em ouro, essa cidade de Minas Gerais parece ter parado no tempo em que nasceu.

A vila histórica paradoxa onde o passado em ruínas encontra uma base espacial ativa com foguetes no Brasil
Alcântara-MA revive glórias coloniais em ruas de pedra e arquitetura barroca, inspirando viagens no tempo no coração do Maranhão // Créditos: Wikipédia

Quatro séculos diferentes no mesmo município

O território de Alcântara concentra camadas históricas que normalmente não dividem o mesmo CEP. Do tupinambá ao foguete sul-coreano, o município empilha quatro séculos em um pedaço de península maranhense. Os principais marcos contam essa convivência:

  • Aldeia de Tapuitapera: ocupação tupinambá anterior à chegada portuguesa, base do que viria a ser a vila colonial em 1648.
  • Casarões e igrejas barrocas: erguidos entre os séculos 17 e 19 com lucros do açúcar, do sal e do algodão exportado para a Europa.
  • Mais de 150 comunidades quilombolas: certificadas pela Fundação Cultural Palmares, formam a maior concentração quilombola do Brasil.
  • Acordo histórico de 2024: a Advocacia-Geral da União (AGU) mediou a titulação de cerca de 78 mil hectares como território quilombola após 40 anos de impasse.
  • Centro de Lançamento de Alcântara: base ativa que lança foguetes para empresas estrangeiras a poucos km dos casarões em ruínas.

Vale conhecer a cidade brasileira mais paradoxal que existe

Poucos lugares no mundo conseguem reunir, no mesmo CEP, ruínas coloniais sem teto, pelourinho do século 17, comunidades quilombolas centenárias e uma base de lançamento de foguetes em operação. Alcântara é o tipo de destino que entrega quatro séculos diferentes de história em uma travessia de catamarã.

Você precisa atravessar a Baía de São Marcos e conhecer Alcântara com tempo para entender por que essa península do Maranhão é o lugar mais fora da curva que o Brasil tem.

Tags: alcântaraMaranhão
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