Quase todo relevo tem um formato que lembra alguma coisa, e às vezes é ele que dá nome ao lugar. No sul do Maranhão, a região entre Carolina, Estreito e Riachão ganhou o nome de Chapada das Mesas justamente por causa dos morros de topo plano que parecem mesas gigantes no meio do cerrado. Por trás dessa paisagem estão rochas de milhões de anos, cavernas pouco comuns e gravuras deixadas por povos que viveram ali muito antes da colonização portuguesa.
Por que os morros da Chapada das Mesas têm o topo reto?
Porque são restos de um terreno muito mais alto, desgastado pela água e pelo vento ao longo de milhões de anos. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), a paisagem é formada por mesas e mesetas de rochas da Bacia Sedimentar do Parnaíba, depositadas em camadas entre as eras Paleozoica e Mesozoica, e conta com feições como cascatas, grutas e morros testemunhos, nome dado aos morros isolados que restaram depois que o terreno ao redor foi erodido.
O topo plano tem explicação simples. As camadas de rocha foram depositadas quase na horizontal, e a parte de cima, mais resistente, protegeu o morro enquanto as laterais eram corroídas. O resultado são paredões verticais e cumes retos, que lembram tampos de mesa vistos de longe. O próprio SGB incluiu a região, com o nome de Vale das Águas, em seu levantamento de áreas com potencial para virar geoparque.

Por que as cavernas da chapada são raras?
Porque foram escavadas em arenito, e não em calcário, como costuma acontecer. O SGB destaca que a região tem como característica particular o desenvolvimento de cavernas, abrigos e dolinas, afundamentos circulares no solo, formados em arenito, associados principalmente às formações Sambaíba e Mosquito. Esse tipo de relevo, chamado de cárstico, é muito mais comum em rochas de calcário, que se dissolvem com mais facilidade na água.
A rocha ajuda a entender esse comportamento. O Zoneamento Ecológico-Econômico do Maranhão descreve a Formação Sambaíba como arenitos de cor avermelhada a esbranquiçada, que se desfazem com facilidade e são muito suscetíveis à erosão. Abaixo da superfície, a mesma formação abriga o aquífero Sambaíba, apontado no documento como o melhor do estado, o que ajuda a explicar a fartura de água nas nascentes e cachoeiras da região.
O que dizem as gravuras do Morro das Figuras?
Elas registram a presença de povos antigos na chapada, e ainda guardam muitas perguntas. Uma dissertação da Universidade Federal de Sergipe (UFS) documentou as gravuras rupestres do Parque Nacional da Chapada das Mesas com escâner digital em 3D e lembra que esses desenhos na rocha foram registrados no Maranhão em meados do século XVII pelo religioso francês Yves d’Évreux, a partir do relato de um pajé indígena.
Apesar de serem os vestígios pré-coloniais mais notáveis do centro-sul do estado, as gravuras ainda foram pouco estudadas, segundo a mesma pesquisa. O Morro das Figuras foi protegido por tombamento estadual em 1993, e a descrição desse tombamento associa os grafismos à ocupação da chapada por grupos humanos há mais de 10 mil anos. Para quem visita, o lugar transforma uma trilha comum em uma aula a céu aberto sobre os primeiros moradores da região.
O que visitar na Chapada das Mesas?
A região reúne dezenas de quedas d’água, mirantes e piscinas naturais, dentro e fora do parque nacional. A Secretaria de Turismo do Maranhão contabiliza 89 cachoeiras catalogadas, 22 rios que correm o ano todo e mais de 400 nascentes.
Por que vários atrativos ficam fora do parque nacional?
Porque a chapada é bem maior que a área protegida. O Parque Nacional da Chapada das Mesas foi criado em 12 de dezembro de 2005 e protege cerca de 160 mil hectares de cerrado nos municípios de Carolina, Estreito e Riachão, sob gestão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Dentro dele, as cachoeiras de São Romão e da Prata são as atrações mais procuradas, enquanto pontos como o Portal da Chapada e o Poço Azul ficam em áreas do entorno.
Essa divisão muda a forma de visitar. Alguns atrativos estão em propriedades particulares, com regras e cobranças próprias, e outros exigem trajetos longos por estradas de terra. A Secretaria de Turismo do Maranhão reforça a valorização dos guias locais, que conhecem os caminhos e as particularidades de cada lugar, e mantém o aplicativo Guias da Chapada, com informações sobre as regras do turismo na região.

Como é o clima da Chapada das Mesas ao longo do ano?
O ano se divide entre uma estação de chuvas e uma estação seca bem marcada. Segundo médias do Climatempo para Carolina, a chuva quase desaparece no meio do ano, com média de 7 mm em junho e apenas 2 mm em julho, período de céu aberto, bom para trilhas e mirantes.
Na temporada de chuvas, a paisagem muda de cara. A Secretaria de Turismo do Maranhão observa que esse período tem atraído um novo perfil de visitantes, porque o aumento do volume de água nas cachoeiras cria cenários espetaculares, ideais para contemplação. Em contrapartida, as estradas de terra podem ficar mais difíceis, o que torna ainda mais importante a companhia de um guia local.
Uma paisagem que guarda milhões de anos em cada morro
A Chapada das Mesas é um lugar em que o tempo fica visível. Os morros de topo reto mostram o que restou de um terreno muito mais alto, as cavernas em arenito revelam um tipo de relevo pouco comum, e as gravuras nas rochas lembram que a região foi habitada muito antes de qualquer turista chegar. Entre cachoeiras, nascentes e piscinas naturais, o cerrado maranhense oferece uma viagem que é, ao mesmo tempo, aventura e aula de história natural.
Você precisa subir até o Portal da Chapada, olhar para as mesas de pedra no horizonte e depois procurar as gravuras do Morro das Figuras para entender por que essa parte do Maranhão merece muito mais do que uma visita rápida.



