Poucas cidades brasileiras conseguem sediar a maior festa junina do país e ainda receber, décadas antes, o primeiro computador de grande porte do Norte e Nordeste. Em Campina Grande, no Agreste paraibano, o forró de junho divide agenda com laboratórios universitários que exportam software para gigantes internacionais. A cidade paga a conta de uma tradição de meses cantados com uma economia moldada por pesquisa e tecnologia.
Por que o São João de Campina Grande é considerado o maior do mundo?
A festa começou em 1983, quando o então prefeito Ronaldo Cunha Lima improvisou uma palhoça no Parque do Povo para receber os campinenses que voltavam à cidade para os festejos juninos. Três anos depois, o evento foi profissionalizado e o Parque do Povo passou a ser construído como arena permanente. Segundo a Agência Brasil, o evento se estende hoje por 38 dias, atrai mais de 3,5 milhões de pessoas e movimenta cerca de R$ 740 milhões. Em 2022, recebeu do RankBrasil o título de maior festa junina do país.
O Mapa Cultural da Paraíba descreve o Parque do Povo como um dos mais importantes espaços culturais do Nordeste. Em 2024, o espaço foi expandido e passou a incorporar o vizinho Parque Evaldo Cruz, com quase 40 mil m² depois da obra. A capacidade diária é de 76 mil pessoas, com o parque fechado ao atingir lotação máxima nos dias mais movimentados.

Como Campina Grande virou o Vale do Silício do Nordeste?
A vocação tecnológica começou em 1968, quando a antiga Escola Politécnica recebeu um IBM 1130, o primeiro computador de grande porte instalado no Norte e Nordeste e um dos cinco existentes no país. Daquela base saíram gerações de engenheiros e cientistas da computação que hoje sustentam o setor local. Em 2001, a revista americana Newsweek apontou Campina Grande como um dos centros tecnológicos de destaque do mundo, único da América Latina na seleção.
A Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) foi criada pela Lei 10.419, de 9 de abril de 2002, quando se desmembrou da Universidade Federal da Paraíba. Suas raízes remontam à Escola Politécnica local, de 1952. Ao lado dela funciona a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), além do Instituto Federal da Paraíba (IFPB). Os laboratórios ligados às universidades alimentam empresas de software e centros de pesquisa privados que atendem clientes em outros estados e países.
Como é morar na Rainha da Borborema?
A cidade tem cerca de 400 mil habitantes, é a segunda maior da Paraíba e fica a 550 metros de altitude no Planalto da Borborema, o que garante noites frescas mesmo no verão e uma amplitude térmica que a diferencia do litoral paraibano. Bairros como Catolé, Alto Branco e Bodocongó concentram parte do crescimento residencial ligado à expansão universitária e ao setor de tecnologia. O comércio é forte e a cidade funciona como polo regional para dezenas de municípios do Agreste.
A altitude também explica parte do apelido: a cidade nasceu do encontro de rotas de tropeiros que subiam o planalto vindo do litoral, e virou centro comercial do algodão na primeira metade do século XX. O ciclo do ouro branco passou, mas deixou uma infraestrutura urbana consolidada e uma identidade que resiste no comércio e na feira central da cidade.

O que fazer em Campina Grande fora do período do São João?
A agenda cultural funciona o ano inteiro e mistura o legado do algodão, o parque tecnológico e a herança nordestina. Segundo a Prefeitura de Campina Grande, mesmo fora do mês de junho o Parque do Povo mantém a estrutura acessível para visitação.
- Parque do Povo: quartel-general do forró, com pirâmide central e vista da estrutura mesmo fora da festa.
- Museu do Algodão: instalado na antiga estação ferroviária, conta a história do ciclo que fez a cidade crescer na primeira metade do século XX.
- Açude Velho: espelho d’água no centro da cidade, cercado por calçadão, monumentos e o conjunto escultórico Os Tropeiros.
- Sítio São João: réplica de vilarejo sertanejo antigo com igrejas, bodegas e casas de taipa, aberto para visitação o ano todo.
- Feira Central: um dos maiores conjuntos de feira livre do Nordeste, com artesanato, cordel, redes, ervas e comida de rua.
- Museu de Arte Popular da Paraíba: acervo dedicado à produção de artesãos e artistas populares do estado.
O que comer em Campina Grande?
A cozinha campinense mistura raízes sertanejas com a fartura litorânea da Paraíba, servida em restaurantes tradicionais no entorno do Açude Velho e em barracas da Feira Central.
- Carne de sol com queijo coalho: prato bandeira do Agreste, servido em cubos com mandioca e cebola crua.
- Buchada de bode: iguaria do sertão paraibano preparada com miúdos temperados e enrolados no bucho do animal.
- Sarapatel: prato de vísceras cozidas com temperos fortes, servido em restaurantes de tradição familiar.
- Comidas juninas: canjica, pamonha, bolo de macaxeira, mungunzá e milho verde de todas as formas.
Como é o clima de Campina Grande ao longo do ano?
A altitude do Planalto da Borborema deixa a cidade alguns graus mais fresca que o litoral paraibano, com noites amenas o ano inteiro e ventilação constante. As chuvas se concentram entre março e julho.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Campina Grande?
A cidade fica a 130 km de João Pessoa, capital paraibana, com acesso pela BR-230 em cerca de duas horas de carro. O Aeroporto Presidente João Suassuna recebe voos regionais de Recife, Guarulhos e outras capitais brasileiras. Ônibus regulares saem da rodoviária de João Pessoa e do Aeroporto Presidente Castro Pinto, na Grande João Pessoa, com trajetos diretos até a rodoviária de Campina Grande.
Uma cidade que dança em junho e programa o ano inteiro
Campina Grande consegue algo raro no interior brasileiro: manter uma economia diversificada baseada em universidades, tecnologia e serviços, e ainda receber 3,5 milhões de visitantes durante um único mês de festa. O São João é o gancho, mas o resto do ano se sustenta em código, pesquisa e uma vida universitária que renova o perfil da cidade a cada semestre.
Você precisa subir o Planalto da Borborema, dançar forró no Parque do Povo e entender por que essa cidade paraibana virou referência de duas coisas tão diferentes: a maior festa junina do país e um dos polos de tecnologia mais ativos do Nordeste.



