Nem toda cidade transforma o subsolo em cartão-postal. Em Ametista do Sul, no noroeste do Rio Grande do Sul, décadas de garimpo abriram um labirinto de galerias a 60 metros de profundidade, e boa parte delas foi reaproveitada para receber turistas. Hoje o visitante come dentro de uma mina, prova vinho envelhecido em antigas galerias e reza numa igreja onde os cristais violetas cobrem as paredes.
Como uma cidade de garimpeiros virou destino turístico?
A mineração começou de forma quase acidental na década de 1930, quando agricultores da região do Médio e Alto Uruguai encontravam cristais roxos entre as raízes das lavouras. Foi só depois da Segunda Guerra Mundial que o valor comercial das pedras se firmou, e a partir dos anos 1970 a extração passou a ser a principal fonte de renda da região. Segundo a Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul, o município se consolidou como capital mundial da pedra ametista, com dezenas de garimpos ativos em uma cidade que também soube usar as minas desativadas como atrativo turístico.
A mudança de rota transformou a economia local. Onde antes só se extraía pedra bruta, hoje se combina turismo, gastronomia e vitivinicultura em espaços subterrâneos. As galerias em desuso ganharam iluminação, painéis explicativos e passeios guiados por antigos mineradores que conhecem cada trecho do subsolo.

Por que a Igreja São Gabriel virou o cartão-postal da cidade?
O templo tem paredes internas e altar revestidos com mais de 40 toneladas de ametista, doadas por garimpeiros e famílias locais ao longo dos anos. Segundo a Secretaria de Turismo do RS, o destaque interno é a pia batismal esculpida a partir de um único geodo gigantesco, uma peça que mistura arquitetura religiosa e patrimônio mineral.
Ao lado da igreja fica a Torre Panorâmica, com cerca de 60 metros de altura e cúpula em forma de pedra lapidada de tom violeta. O acesso ao mirante é feito por elevador envidraçado, com ingresso à parte, e oferece vista de 360 graus sobre a cidade e a região das jazidas. É o único ponto alto do centro urbano de onde se pode enxergar a extensão do garimpo.
O que fazer no subsolo de Ametista do Sul?
As galerias desativadas ganharam nova função e concentram a maioria dos passeios. Segundo a Secretaria de Turismo do RS, os atrativos combinam experiências educativas e gastronômicas dentro das antigas minas.
- Ametista Parque Museu: complexo com passeio motorizado por minas desativadas, museu com mais de 2.000 exemplares de minerais, restaurante e vinícola subterrâneos. Abre todos os dias das 8h às 17h.
- Belvedere Mina: empreendimento com garimpo em atividade, hotel e restaurante temático dentro de uma mina preservada, além de piscina subterrânea aquecida.
- Centro de Mineralogia: espaço com amostras catalogadas por origem, composição química e uso industrial, incluindo peças raras vindas do exterior.
- Vinícola Ametista: uma das maiores caves subterrâneas de envelhecimento de vinhos do país, instalada em galerias antes usadas para extração.
- Trilhas dos Garimpos: roteiros em mata nativa com mirantes voltados para as minas em operação, com condutor local.
- Mina Beer: microcervejaria construída dentro de uma mina desativada, ambiente exótico com produção de rótulos artesanais.
Quais são as pedras mais impressionantes expostas na cidade?
O museu do Ametista Parque Museu concentra as peças mais valiosas já extraídas na região. Segundo a Secretaria de Turismo do RS, o acervo inclui a ametista mais valiosa encontrada até hoje na cidade, com 2,5 toneladas, e o maior meteorito descoberto no Rio Grande do Sul, com 131 kg. Uma selenita de 2.016 kg também está entre os destaques.
As peças ficam em ambiente subterrâneo, o que ajuda a preservar a temperatura estável e amplia o efeito visual dos cristais. O passeio inclui parada em pontos onde as pedras estão fixadas na rocha original, com um momento de escuridão total para os visitantes entenderem como os garimpeiros trabalham no dia a dia.

Onde comer em Ametista do Sul?
A gastronomia local mistura tradição italiana e alemã, herança da colonização do noroeste gaúcho, com serviço em ambientes que exploram o cenário das minas.
- Restaurante Garimpo: buffet servido dentro de uma mina desativada, com mesas de madeira e pedras integradas à decoração.
- Massas coloniais: nhoque, capeleti e massas caseiras herdadas dos imigrantes italianos, servidas em cantinas da região.
- Galeto: prato típico do sul gaúcho, servido em rodízio nos restaurantes do interior.
- Vinhos maturados em mina: rótulos envelhecidos em galerias subterrâneas, disponíveis para degustação nas vinícolas locais.
Como é o clima de Ametista do Sul ao longo do ano?
O clima é subtropical úmido, com quatro estações bem marcadas e amplitude térmica alta entre inverno e verão. As chuvas se distribuem durante o ano todo, com picos no inverno.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Ametista do Sul?
A cidade fica a cerca de 440 km de Porto Alegre e a aproximadamente 90 km de Chapecó, em Santa Catarina. O acesso partindo da capital gaúcha se faz pela BR-386, com trecho final por rodovias estaduais. O aeroporto regional mais próximo é o de Chapecó, seguido do Aeroporto Regional Lauro Kortz, em Passo Fundo. Não há voos diretos para o município, o que faz a maioria dos visitantes chegar de carro ou em ônibus regulares vindos de Frederico Westphalen.
A cidade onde o turismo desce 60 metros de profundidade
Ametista do Sul reinventou o próprio garimpo. As galerias que antes só produziam pedra bruta hoje recebem visitantes para almoçar, tomar vinho, dormir e até rezar sob paredes cravejadas de cristais violetas. Poucas cidades brasileiras conseguiram transformar tanto o trabalho debaixo da terra em experiência de superfície.
Você precisa descer até uma das minas antigas, subir ao mirante da Torre Panorâmica e entender por que essa cidade de 7 mil habitantes no norte gaúcho ficou conhecida no mundo inteiro pela cor da sua pedra.




