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Início Curiosidades

Com poucos centímetros, a pulga-do-mar da Califórnia move até 50 quilos de areia por metro de praia em um dia

Por João Victor
28/09/2026
Em Curiosidades
Pulga-do-mar translúcida sobre a areia molhada à noite

Pulga-do-mar translúcida sobre a areia molhada à noite. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Em uma noite de verão numa praia colada ao campus da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, crustáceos do tamanho de uma unha escavaram tanta areia que, de manhã, parte das molduras de metal deixadas pelos pesquisadores tinha desaparecido sob os montinhos. A conta feita a partir dali chegou a até 50 quilos de areia por metro de praia em um dia, segundo a divulgação oficial da UC Santa Barbara, publicada em 16 de setembro de 2026.

Os autores desse movimento são os talitrídeos do gênero Megalorchestia, anfípodes que os americanos chamam de sand hoppers e que por aqui ganham apelidos genéricos como pulga-do-mar ou pulga-da-praia. O trabalho, liderado pelo geógrafo Tim Baxter com David Hubbard, Kyle Emery, Jenny Dugan, Winter Adams, Sebastian Alvarez e Ian Walker, saiu no Journal of Geophysical Research: Earth Surface com um título que não esconde a surpresa: os bichos são “mega construtores de montes”.

Hubbard, cientista marinho da universidade, resumiu o achado assim, na tradução da fala divulgada pela UCSB: “Eles têm uma das maiores taxas de bioturbação de qualquer coisa no planeta”. Bioturbação é o nome técnico para o revolvimento de sedimento feito por seres vivos, das minhocas no quintal aos caranguejos no mangue.

Uma noite de molduras enterradas em Isla Vista

O experimento foi simples de propósito. Depois da maré alta, quando as ondas tinham alisado a areia e a água começava a recuar, a equipe demarcou 21 parcelas com molduras metálicas retangulares na faixa preferida dos animais em Isla Vista Beach, uma praia estreita ao pé de falésias.

Esses crustáceos passam o dia enterrados de 10 a 30 centímetros de profundidade ou escondidos sob algas trazidas pelo mar, e saem depois que escurece para comer restos de kelp, a alga gigante da costa californiana. Cada saída deixa um monte de areia na porta da toca. O que surpreendeu foi a soma desses montes numa única noite.

“Quando voltamos de manhã, não conseguíamos nem ver algumas das molduras”, contou Hubbard à UCSB. A equipe tinha fincado bandeirinhas ao lado de cada parcela por precaução, e foi por elas que achou o material. A areia escavada foi recolhida e pesada. Baxter, hoje pesquisador na Universidade de Oxford, disse à universidade que o grupo não esperava um resultado daquele tamanho.

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Por que a pulga-do-mar cava tanto

Praia ao amanhecer com algas e pequenos buracos na areia
Praia ao amanhecer com algas e pequenos buracos na areia. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

A explicação está na umidade. Areia encharcada desmorona a toca na hora; areia seca e fofa acima da linha da maré também não segura a estrutura. Os animais procuram a faixa intermediária, e como essa faixa se desloca com as marés, o vento e as ondas, eles não reaproveitam a toca da véspera. Cavam uma nova todo dia, sempre em areia recém-remexida, segundo a descrição do artigo divulgada pela UCSB.

O resumo do estudo, registrado na base Crossref, traz os números por área: densidades acima de 1.000 indivíduos por metro quadrado em praias da Califórnia e escavação de até 10,38 quilos de areia seca por metro quadrado por dia. Combinando essa taxa com uma série de oito anos de biomassa das populações, os autores estimaram cerca de 2,79 milhões de quilos por hectare por ano, o que classificam como a maior taxa anual de escavação já calculada para um animal terrestre ou costeiro quando se considera a dinâmica da população no longo prazo.

O efeito vai além da pilha de areia. Ao enterrar algas e carcaças, os anfípodes levam nutrientes para camadas mais profundas, onde outros organismos podem aproveitá-los. As galerias arejam o sedimento e oxigenam processos microbianos. E, segundo Baxter na divulgação da UCSB, a areia afofada fica mais disponível para ser levada pelo vento e pela água, o que pode influenciar a formação de dunas costeiras.

Extrapolando o resultado para 25 quilômetros do litoral do sul da Califórnia, os pesquisadores concluíram que o volume movido por esses crustáceos é comparável à carga diária de sedimentos de alguns grandes rios da região, de acordo com a UCSB.

O que o número de 50 quilos não autoriza

Os 50 quilos por metro de praia são um teto, medido em uma noite de verão, em uma praia, com animais em plena atividade. Não é uma média garantida para todos os dias do ano nem para qualquer litoral. A densidade dos talitrídeos varia com a estação, com a quantidade de alga que chega à areia e com o grau de perturbação da praia.

Também não há um tamanho exato a atribuir aos animais medidos. A UCSB os descreve apenas como crustáceos de cerca de um centímetro, e o gênero reúne várias espécies: a foto da divulgação mostra a Megalorchestia corniculata, uma das seis principais espécies de sand hoppers da Califórnia, enquanto a ficha de invertebrados da Walla Walla University registra até 2,8 centímetros para a Megalorchestia californiana. O resumo do artigo fala só em Megalorchestia spp., sem separar a contribuição de cada espécie.

Um animal de um centímetro que faz o trabalho de um rio merece mais atenção do que a que costuma receber da engenharia costeira.

A parente brasileira que some da praia urbanizada

No Brasil, o talitrídeo mais estudado nas praias oceânicas é a Atlantorchestoidea brasiliensis, antes chamada Pseudorchestoidea brasiliensis. Um estudo de Veloso e colegas publicado na revista Ciencias Marinas em 2012, feito na praia de Grumari, zona oeste do Rio de Janeiro, registra que a espécie aparece em praias expostas do Uruguai e do Brasil e que, junto com a tatuíra (Emerita brasiliensis) e o isópode Excirolana brasiliensis, responde por 95% da abundância da macrofauna nas faixas mais altas dessas praias. O foco ali foi a alimentação: o que a espécie consome em praias que recebem pouca alga.

Ninguém mediu, até agora, quanto de areia a espécie brasileira revolve. Não dá para transpor os 50 quilos californianos para o litoral daqui.

O que existe é um sinal de alerta. No Brazilian Journal of Oceanography, em 2010, a mesma linha de pesquisa comparou dois trechos da praia do Peró, em Cabo Frio, um urbanizado e outro preservado. Os testes estatísticos indicaram ausência da Atlantorchestoidea brasiliensis na área urbana, e os autores concluíram que a espécie é extremamente sensível à urbanização das praias, a ponto de servir como indicador desse impacto. O mesmo trabalho contou banhistas: no trecho urbanizado, o pico foi de 550 pessoas por metro em janeiro.

O padrão lembra outros efeitos da ocupação da orla, como a iluminação que desorienta filhotes de tartaruga a caminho do mar. Limpeza mecânica, pisoteio e retirada das algas mexem exatamente com a comida e o abrigo desses anfípodes.

A reportagem da UC Santa Barbara sobre os escavadores de Isla Vista traz fotos e o mapa das parcelas. E quem caminhar numa faixa de areia extensa e pouco ocupada, como as que a CB Radar já mostrou ao falar da praia contínua de 254 km no Rio Grande do Sul, pode reparar nos furinhos e montículos logo acima da linha da maré. É esse tipo de marca que os talitrídeos deixam ao abrir tocas novas durante a noite.

Tags: anfípodesCalifórniaPraiaspulga-do-mar
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