Na Região Metropolitana de Porto Alegre, a apenas 25 km da capital gaúcha, uma cidade quase esquecida no imaginário turístico do sul guarda o berço político do Rio Grande do Sul. Viamão foi a primeira capital do estado entre 1763 e 1773, tem a segunda igreja mais antiga gaúcha e ainda abriga um farol de 1860, o único cervo-do-pantanal do estado e um templo budista tibetano.
A capital que ninguém lembra que foi capital
A história começa em plena disputa colonial. Em 14 de setembro de 1741, o estancieiro Francisco Carvalho da Cunha recebeu autorização para erguer, na Estância Grande, uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Essa data ficou como fundação oficial de Viamão, um dos primeiros núcleos de povoamento do território que viria a formar o Rio Grande do Sul.
O momento decisivo veio em 1763, quando tropas espanholas invadiram a Vila do Rio Grande, à época capital da capitania. A sede administrativa foi transferida para Viamão, que se tornou a primeira capital do Rio Grande do Sul e assim permaneceu por dez anos, até 1773, quando o governo migrou para o Porto dos Casais, atual Porto Alegre. Décadas depois, em 1836, Bento Gonçalves montou acampamento entre o centro da cidade e a Vila de Itapuã durante o cerco a Porto Alegre na Revolução Farroupilha.

A igreja tombada no primeiro lote do IPHAN
O maior patrimônio arquitetônico da cidade tem quase 260 anos. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, inaugurada em 1770 em estilo barroco rococó português, é considerada a segunda mais antiga do Rio Grande do Sul e abriga a paróquia mais antiga da Arquidiocese de Porto Alegre.
As paredes grossas construídas com pedra e conchas remetem a uma fortaleza, refletindo o contexto de disputas entre Portugal e Espanha na antiga fronteira sul. O reconhecimento oficial veio cedo. Em julho de 1938, o templo foi incluído no primeiro conjunto de bens tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Brasil, ao lado de nomes como as igrejas de Ouro Preto e o centro histórico de Salvador.
O que fazer em Viamão?
A extensão territorial surpreende. Com quase 1.500 km², Viamão espalha suas atrações por praias de água doce, morros, banhados e áreas rurais. Um carro é essencial para cobrir as distâncias.
- Parque Estadual de Itapuã: 5.566 hectares protegem a última amostra dos ecossistemas originais da Região Metropolitana, com morros, praias, dunas e lagoas.
- Farol de Itapuã: construído em 1860, marca o limite entre o Lago Guaíba e a Laguna dos Patos. Fica dentro do parque.
- Praia das Pombas: a 1,5 km do centro de visitantes, com cerca de 850 metros de orla arborizada.
- Praia da Pedreira: mais reservada, a 3,5 km do centro de visitantes.
- Lagoa Negra: 1.750 hectares que funcionam como ponto de parada de aves migratórias.
- Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição: templo de 1770 tombado pelo IPHAN em 1938.
- Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos: único local do RS com o cervo-do-pantanal, torre panorâmica de 16 metros.
- Templo Budista Caminho do Meio: centro de budismo tibetano com meditação aberta ao público nos morros da cidade.
- Autódromo Internacional de Tarumã: inaugurado em 1970, foi o primeiro autódromo do Sul do Brasil.
O Parque de Itapuã e a última reserva metropolitana
O maior orgulho ambiental gaúcho da região metropolitana está encravado em Viamão. Criado em 1973, o Parque Estadual de Itapuã ocupa 5.566 hectares em zona de transição entre os biomas Mata Atlântica e Pampa. É a última amostra preservada dos ecossistemas originais da RMPA.
A trajetória do parque é marcada por perdas e recomeços. Foi fechado em 1991 após incêndios consecutivos e ficou mais de dez anos em recuperação, reabrindo apenas em 2002. A fauna atual inclui o bugio-ruivo, símbolo oficial da unidade, além da lontra, jaguatirica, gato-maracajá e a onça-parda, que retornou à área nos últimos anos. Mais informações sobre visitação estão no site oficial da Prefeitura de Viamão.

O único cervo-do-pantanal do Rio Grande do Sul
Um dos animais mais raros do Sul do Brasil resiste em uma reserva pouco conhecida. O Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos, em Viamão, é o único local do Rio Grande do Sul que abriga populações remanescentes do cervo-do-pantanal, ameaçado de extinção em toda a região sul.
A reserva conta com uma torre panorâmica de 16 metros que permite observar aves e mamíferos ameaçados sem interferir no ambiente. As visitas devem ser agendadas com antecedência. O banhado também é importante ponto de parada para aves migratórias que descem para o extremo sul do continente durante o outono e a primavera.
O templo budista tibetano no meio dos morros gaúchos
Uma das curiosidades menos previsíveis de Viamão fica nos morros da zona rural. O Templo Budista Caminho do Meio, centro de tradição budista tibetana, funciona com meditação aberta ao público, biblioteca especializada, jardins contemplativos e retiros espirituais que atraem visitantes de várias regiões do país.
A arquitetura segue os padrões dos monastérios tibetanos, com cores vivas, bandeiras de oração e o silêncio característico dos centros de retiro budistas. É uma combinação inusitada com a paisagem gaúcha de campos abertos, coxilhas suaves e restos de mata nativa que compõem o entorno rural do município.

Como é o clima em Viamão durante o ano?
O clima subtropical úmido do sul gaúcho divide o ano entre verões quentes e invernos frios, com chuvas bem distribuídas. A umidade é alta durante o ano todo por causa da proximidade do Guaíba e da Laguna dos Patos.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar em Viamão?
Viamão fica a 25 km do centro de Porto Alegre. O acesso mais rápido é pela Avenida Edgar Pires de Castro, na Zona Sul da capital, ou pela ERS-118 vindo de outras cidades da Região Metropolitana. Para o Parque de Itapuã, são cerca de 57 km desde Porto Alegre pela estrada do distrito. O Aeroporto Internacional Salgado Filho fica a cerca de 30 km. Mais informações estão no site da Prefeitura de Viamão.
Leia também: A cidade gaúcha de 3 mil habitantes com uma praça de mais de 200 esculturas em ciprestes feitas a mão.
Vá conhecer a primeira capital gaúcha
Viamão é o raro caso de cidade que combina, em um mesmo território, a memória política do Rio Grande do Sul, uma igreja tombada no primeiro lote do IPHAN, um farol do século XIX e o único cervo-do-pantanal do estado. Poucos lugares brasileiros reúnem tanta história e biodiversidade a tão poucos km de uma capital.
Você precisa passar um fim de semana em Viamão e visitar o Parque de Itapuã para entender por que a antiga capital gaúcha continua guardando alguns dos maiores tesouros históricos e naturais do estado.




