A 290 km de Porto Alegre, uma cidade do Rio Grande do Sul transformou os livros em paisagem urbana. Passo Fundo é a única do país a receber por lei federal o título de Capital Nacional da Literatura, e a herança está literalmente escrita nas ruas: letras gigantes de metal, túneis com trechos de poemas e largos públicos onde a leitura virou monumento.
Uma lei federal para dizer que ali se lê
O reconhecimento veio pelo caminho mais formal possível. A Lei nº 11.264 foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2 de janeiro de 2006, depois de aprovada pelo Senado Federal em 14 de dezembro de 2005.
O debate no plenário rendeu. Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) lembrou Jorge Amado, Tasso Jereissati (PSDB-CE) evocou José de Alencar, Marcelo Crivella (PRB-RJ) citou Machado de Assis. O projeto passou mesmo assim, defendido pelo senador gaúcho Sérgio Zambiasi. Em 2007, a cidade recebeu também o título estadual pela Lei nº 12.838, consolidando um reconhecimento raro no país.

A Jornada Nacional de Literatura, gérmen do título
Nada disso veio do nada. A vocação começou em 1981, quando a Universidade de Passo Fundo (UPF) e a Prefeitura criaram a Jornada Nacional de Literatura, evento bienal que cresceu até virar referência da América Latina.
Em 2005, na 11ª edição, o encontro reuniu mais de 27 mil pessoas no município, número que costuma fazer inveja a feiras literárias de capitais bem maiores. Ao longo dos anos, escritores de renome mundial passaram pelos debates com o público. Após dificuldades de financiamento, a Jornada teve sua última grande edição em 2015, mas a rede de bibliotecas, leitores e projetos criada em torno dela continua sustentando o título até hoje.
Os livros que saíram das estantes e tomaram as ruas
A literatura em Passo Fundo é urbana no sentido literal. Quem caminha pelo centro esbarra o tempo todo com marcos, esculturas e trechos de obras exibidos ao ar livre.
- Marco da Capital Nacional da Literatura: fica na Praça Armando Sbeghen, às margens do rio que dá nome à cidade.
- Túneis da Literatura: instalações no canteiro central da Avenida Brasil com trechos de obras trocados a cada 15 dias, ladeadas por letras gigantes de metal.
- Largos da Literatura: quatro praças espalhadas pela cidade, entre elas a Marechal Floriano e a Capitão Jovino, têm letras gigantes como mobiliário urbano e quiosques de leitura com livros gratuitos.
- Árvore das Letras: monumento que integra o roteiro literário no centro histórico.
- Biblioteca Pública Arno Viuniski: fundada em 1940, mantém acervo de mais de 40 mil volumes e é uma das mais antigas do interior gaúcho.
O nome que veio dos tropeiros e o rio que corta a cidade
A origem é mais prosaica que a fama literária sugere. Os indígenas chamavam a região de Goyo-En, expressão que significa “muita água” ou “rio fundo”, em referência ao curso d’água que atravessa o município.
O nome atual nasceu da rota dos tropeiros que cruzavam a região entre São Paulo e os campos gaúchos, aproveitando um passo raso no rio para atravessar com o gado. O município foi oficialmente fundado em 28 de janeiro de 1857, e a ferrovia chegou no início do século XX, consolidando a cidade como entreposto comercial do Planalto Médio. O território original abrigava o que hoje são 107 municípios do estado.
A Operação Farroupilha e o dia em que a capital do RS se mudou para lá
Poucos brasileiros sabem que, por dois dias em 1964, Passo Fundo abrigou o governo do Rio Grande do Sul. Entre 1º e 3 de abril daquele ano, no auge das movimentações que culminaram no golpe militar, a sede do governo estadual foi transferida para o quartel do 2º Batalhão Policial da Brigada Militar, no interior gaúcho.
A manobra foi apelidada de Operação Farroupilha. O então governador Ildo Meneghetti queria distanciar o poder estadual das manifestações articuladas em Porto Alegre em apoio ao presidente deposto João Goulart. Por 48 horas, a Capital Nacional da Literatura foi também a capital política do estado.

Teixeirinha, o Gaúcho de Passo Fundo
Se a literatura oficializou a cidade em papel, a música consagrou seu personagem-símbolo. Passo Fundo é terra adotiva de Vitor Mateus Teixeira, o Teixeirinha, cantor e compositor gaúcho que fez da música “Gaúcho de Passo Fundo” o hino oficial do município.
Sua figura ganhou espaço público na Praça do Teixeirinha, homenageada com escultura feita de sucatas e metais pelo artista plástico Paulo Siqueira. A tradição musical anda de mãos dadas com a gastronomia gaúcha de raiz, do churrasco no fogo de chão às cantinas de família, e com o chimarrão que corre nas conversas de praça o dia inteiro.
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Percorra Passo Fundo pelas letras
Poucas cidades brasileiras carregam um título oficial tão simbólico quanto o de Passo Fundo. A Capital Nacional da Literatura mostrou que política pública, universidade e comunidade juntos conseguem transformar um evento bienal em identidade permanente.
Você precisa caminhar pela Avenida Brasil e conhecer Passo Fundo para entender por que uma cidade do interior gaúcho virou a única no país reconhecida por lei como capital dos livros.




