A 300 km de Campo Grande, na Serra da Bodoquena, sudoeste do Mato Grosso do Sul, Bonito acumula uma coleção de recordes que quase nenhum outro destino do planeta reúne. Foi eleita 18 vezes o melhor destino de ecoturismo do Brasil pela revista Viagem e Turismo e, em 2023, tornou-se o primeiro destino de ecoturismo do mundo a receber a certificação de carbono neutro, concedida pela Green Initiative e registrada pelo Visit Brasil, portal oficial da Embratur. Guarda a maior cachoeira do estado, um lago subterrâneo tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) desde 1978 e mais de 40 passeios ecoturísticos distribuídos em um raio de 50 km, com rios cuja água transparente atinge visibilidade de até 60 metros.
De vila em 1948 a Capital do Ecoturismo
A cidade foi fundada em 15 de agosto de 1948 e, por décadas, viveu apenas da pecuária de corte típica do Cerrado sul-mato-grossense. A virada começou nos anos 1990, quando a Prefeitura Municipal e proprietários rurais criaram um modelo raro de turismo: acesso controlado com número limitado de visitantes por dia em cada atrativo, agendamento obrigatório e certificação de guias. O sistema virou referência internacional, foi copiado por mais de 40 países e transformou Bonito em uma cidade de aproximadamente 25 mil habitantes que recebe centenas de milhares de turistas por ano sem sobrecarregar o ecossistema.
A conquista do título internacional de carbono neutro, em 2023, foi o coroamento desse modelo. Segundo dados oficiais do Visit Brasil, portal da Embratur, Bonito foi o primeiro destino de ecoturismo do mundo a receber a certificação, concedida pela Green Initiative. A Fundação de Turismo do Mato Grosso do Sul registrou também o prêmio de Turismo Responsável na World Travel Market (WTM) de Londres, um dos mais importantes do setor no mundo, e o selo internacional Safe Travels, do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC).

Gruta do Lago Azul: descoberta em 1924 por um índio Terena e tombada pelo IPHAN em 1978
O cartão-postal da cidade tem 80 metros de profundidade e 120 metros de largura, e fica a 21 km do centro urbano. A Gruta do Lago Azul foi descoberta em 1924 por um índio da etnia Terena, que habitava a região da Serra da Bodoquena. Em 1978, o IPHAN tombou o conjunto formado pela Gruta do Lago Azul e pela Gruta de Nossa Senhora Aparecida, ambas monumentos naturais no município de Bonito, com base no Decreto-Lei nº 25, de 11 de novembro de 1937. A gruta foi inscrita em três dos quatro livros do Tombo: etnográfico, paisagístico e arqueológico, caso raro no patrimônio brasileiro.
O nome vem do espelho de águas cristalinas do lago subterrâneo, batizado assim pela cor azul intensa que se forma quando os raios solares atravessam uma abertura de 40 metros no teto da caverna. Entre setembro e fevereiro, a luz atinge diretamente o lago a cerca de 150 metros da superfície e cria o cenário mais fotografado do Mato Grosso do Sul. Em 1992, uma expedição franco-brasileira encontrou no fundo do lago fósseis de preguiças-gigantes, tatus-gigantes e tigres-dente-de-sabre de mais de 12 mil anos. O crustáceo Potiicoara brasiliensis, primeira espécie endêmica das cavernas da Serra da Bodoquena, foi descoberto ali em 1990.
Rios com visibilidade de 60 metros e flutuação em águas cristalinas
A grande marca de Bonito são os rios de águas cristalinas alimentados por nascentes da Serra da Bodoquena. Segundo dados oficiais divulgados pela Fundação de Turismo do MS, alguns desses rios atingem visibilidade submersa de até 60 metros, resultado natural do processo de filtragem geológica pelas rochas calcárias que compõem a região. A prática mais emblemática é a flutuação, atividade em que o visitante percorre o rio com máscara, snorkel, colete e roupa de neoprene, observando cardumes de peixes coloridos em um cenário que se compara a um aquário natural em escala real.
- Rio Sucuri: flutuação por cerca de 1.800 metros de águas cristalinas com cardumes de piraputangas e jardins subaquáticos entre plantas nativas.
- Rio da Prata: trilha em mata seguida de flutuação com visibilidade superior a 40 metros, um dos rios mais cristalinos do mundo segundo o TripAdvisor.
- Abismo Anhumas: rapel de 72 metros até um lago subterrâneo, com flutuação e mergulho sobre cones de calcário submersos. Limite de 20 pessoas por dia.
- Balneário Municipal: a 7 km do centro, com piscinas naturais, tirolesa e infraestrutura para crianças e famílias.
- Nascente Azul: complexo com flutuação em nascente cristalina, cachoeiras, tirolesa e trilha ecológica na mata nativa.
Boca da Onça: a maior cachoeira do MS e o maior rapel de plataforma suspensa do Brasil
Fora do circuito das flutuações, Bonito reúne outros três atrativos que carregam recordes brasileiros. A Cachoeira Boca da Onça é a maior queda d’água do Mato Grosso do Sul, com 156 metros de altura, e abriga o maior rapel de plataforma suspensa do Brasil, com descida de 90 metros. Fica dentro de uma reserva privada de Mata Atlântica integrada à Serra da Bodoquena, com trilha de acesso de aproximadamente uma hora até a base da queda.
- Cachoeira Boca da Onça: maior queda d’água do MS com 156 metros, rapel de 90 metros em plataforma suspensa, o maior do país.
- Buraco das Araras: dolina a céu aberto no município vizinho de Jardim, a 55 km, com paredões de 100 metros onde nidificam até 60 casais de araras-canindé.
- Parque das Cachoeiras: complexo com sete quedas em trilhas leves, ideal para famílias com crianças a partir de cinco anos.
- Estância Mimosa: fazenda ecoturística com trilhas em mata ciliar preservada e sequência de cachoeiras para banho ao longo do dia.

O que se come na Capital do Ecoturismo?
A gastronomia mistura raízes pantaneiras e influências dos migrantes paulistas, mineiros e gaúchos que se instalaram na cidade nas últimas décadas. Peixes de água doce, carnes e sabores do Cerrado formam a base dos cardápios.
- Piraputanga assada: peixe símbolo dos rios de Bonito, servido inteiro com farofa de banana, arroz e pirão.
- Sopa paraguaia: torta salgada de milho e queijo, herança direta da influência guarani vinda do vizinho Paraguai.
- Chipa: pão de queijo à moda paraguaia, feito com polvilho e amido de mandioca, presente em padarias e feiras.
- Arroz carreteiro pantaneiro: arroz cozido com carne seca desfiada, temperos regionais e toque de bacon, prato símbolo do interior sul-mato-grossense.
- Doces do Cerrado: compotas de bocaiuva, cagaita, jatobá e pequi fecham a refeição, tradição das quitandas rurais.
Como é o clima e como chegar
Bonito tem clima tropical quente, a 350 metros de altitude, com verões chuvosos e invernos secos e amenos. Segundo o Climatempo, a temperatura dos rios oscila entre 20°C e 24°C o ano inteiro. O inverno seco garante a melhor transparência das águas para flutuação, enquanto o verão chuvoso enche cachoeiras e paisagens fluviais.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
O Aeroporto Regional de Bonito opera voos regionais sazonais. A rota mais comum é chegar ao Aeroporto Internacional de Campo Grande e seguir por transfer ou ônibus regional pelas rodovias BR-060 e BR-267, cerca de cinco horas de viagem. A cidade integra o roteiro do sudoeste sul-mato-grossense com Jardim, Bodoquena e o Pantanal Sul. Todos os passeios exigem reserva antecipada por causa do controle rígido de visitantes.
A Capital do Ecoturismo do Brasil
Bonito entrega o que quase nenhum destino brasileiro reúne. A primeira certificação de carbono neutro concedida a um destino de ecoturismo do mundo, 18 títulos de melhor destino de ecoturismo do Brasil, um lago subterrâneo tombado pelo IPHAN em 1978 com fósseis de tigre-dente-de-sabre no fundo e a maior cachoeira do Mato Grosso do Sul. Tudo isso em raio de 50 km, sob controle rigoroso de visitantes para preservar a paisagem que virou marca do país.
Você precisa conhecer Bonito num fim de semana de inverno, fazer a flutuação no Rio Sucuri pela manhã e reservar uma tarde para a descida na Gruta do Lago Azul para entender por que a Capital do Ecoturismo virou o principal destino de natureza do Brasil.




