A riqueza que ergueu os casarões coloniais de Aracati, no litoral leste do Ceará, tinha cheiro. No século XVIII, a vila às margens do Rio Jaguaribe era um dos principais centros de produção de carne seca do Nordeste, e as oficinas onde o gado era abatido e salgado ficavam no meio das ruas. O incômodo foi tanto que a Câmara da vila decidiu agir. Documentos da época mostram o lado menos conhecido do comércio que transformou Aracati em uma das vilas mais ricas da capitania.
Por que Aracati tinha fábricas de carne no meio da vila?
Porque a vila nasceu em torno delas. Segundo um diagnóstico do município publicado pelo Ministério Público do Ceará, por volta de 1740 existiam oficinas de carne em Aracati, no antigo Arraial de São José dos Barcos do Jaguaribe. O documento registra que a ocupação definitiva da região começou com essas oficinas, também chamadas de charqueadas, e que o local se tornou o principal porto de exportação de carne seca para as regiões de cana-de-açúcar.
O produto ganhou nome próprio. Um artigo publicado na revista GeoTextos, da Universidade Federal da Bahia, registra que a carne seca produzida ali também era conhecida como carne do Ceará e que a atividade contribuiu muito para a prosperidade de Aracati, transformada em vila de primeiro nível no século XVIII.

O que a Câmara decidiu em 1781?
Tirar as oficinas da rua central. Segundo o portal Lua Cheia, que reproduz documentos históricos da Câmara de Aracati, o Auto da Audiência Geral de 12 de fevereiro de 1781 exigiu a retirada das oficinas de carne da rua central para aliviar a população dos incômodos que elas provocavam. Os vereadores alegavam que as oficinas estavam “desfigurando a beleza e arruinando a saúde pública desta Vila”.
O problema também chegou ao rio. O artigo da GeoTextos registra que, ainda no século XVIII, o assoreamento do Rio Jaguaribe virou uma preocupação, e que restos das oficinas de charque eram despejados no rio. O mesmo estudo lembra o mau cheiro exalado pelas oficinas como uma das queixas da população na época.
Como funcionava uma oficina de carne?
O trabalho seguia algumas etapas, do sertão ao porto. Estes são os principais passos, de forma simplificada.
Como terminou o ciclo da carne seca?
Com as grandes secas. Segundo um trabalho apresentado no Simpósio Nacional de História da Anpuh, a seca que começou em 1790 durou quatro anos, e em 1793 a vila de Aracati perdeu o comércio de carnes secas. O estudo registra que, durante os anos mais duros da seca, ainda saíram 21 barcos carregados de carne, principalmente em 1791 e 1792.
A técnica viajou para o Sul. Segundo o jornal Diário do Nordeste, o charqueador português José Pinto Martins, instalado em Aracati, mudou-se para Pelotas, no Rio Grande do Sul, para fugir da seca de 1777, levando a técnica da salga da carne. A riqueza deixada pelo ciclo ficou nos casarões do centro histórico, que hoje fazem parte de um conjunto protegido pelo Iphan.

Como é o clima de Aracati ao longo do ano?
O calor é constante, e a chuva se concentra no primeiro semestre. Abril registra 215 mm em média, enquanto setembro tem apenas 3 mm, e as temperaturas ficam entre 24°C e 30°C.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
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Uma riqueza que tinha cheiro
Aracati mostra que a história das cidades coloniais também tem seus bastidores incômodos. A carne seca que sustentou a economia da vila no século XVIII trouxe riqueza, casarões e um porto movimentado, mas também mau cheiro, problemas de saúde e restos jogados no rio. Em 1781, a Câmara decidiu tirar as oficinas da rua principal, em um episódio que mostra como o conflito entre economia e qualidade de vida é bem antigo.
Você precisa caminhar pela Rua Grande de Aracati, observar os casarões do século XVIII e imaginar as oficinas de carne que funcionavam ali perto para entender a história que se esconde por trás das fachadas.




