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Início Curiosidades

Em 1981, cientistas despejaram corante fluorescente em sumidouros do Kentucky para mapear por onde a água corria embaixo da terra, e descobriram que a maior caverna do mundo bebe de uma área muito maior do que o parque que a protege; o Brasil tem a maior da América do Sul e o mesmo problema

Por João Victor
06/09/2026
Em Curiosidades
Cientistas despejam corante no sumidouro de Kentucky

Cientistas despejam corante no sumidouro de Kentucky. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

No fim dos anos 1970, o geólogo James Quinlan e o hidrólogo Joe Ray passaram temporadas inteiras rodando pelo sul do Kentucky com galões de corante fluorescente no porta-malas. O ritual: achar um riacho que sumia num sumidouro, despejar a tinta e esperar dias, às vezes semanas, para descobrir em qual nascente a cor reaparecia. Em 1981, o resultado de centenas dessas viagens virou um mapa, e o mapa mostrou algo que ninguém queria ver.

A água que abastece a Mammoth Cave, a maior caverna do mundo, não nasce dentro do parque nacional que a protege. O jeito mais barato de mapear por onde a água corre embaixo da terra, o corante, revelou que a maior parte da bacia subterrânea fica em fazendas, cidades e rodovias do lado de fora da cerca. Foi a partir desse dado que o parque passou a negociar com vizinhos que nunca pisaram numa gruta.

O Brasil, que guarda a maior caverna da América do Sul no sertão da Bahia, herdou o mesmo problema e tentou responder a ele com um decreto de 1990.

Por que despejar corante em um sumidouro diz mais do que cavar?

Em terreno calcário, o carste, a chuva não escorre em rios visíveis: ela some por buracos e segue por condutos que ninguém consegue percorrer inteiros.

O método é o traçamento com corante, o dye tracing. A página de hidrologia do Parque Nacional de Mammoth Cave resume o princípio: corantes fluorescentes inofensivos vão para dentro de um curso de água pouco antes de ele desaparecer no solo e, depois, são detectados em nascentes e em pontos da caverna. O conjunto dessas ligações desenha as bacias de água subterrânea. Segundo o serviço de parques dos Estados Unidos, foram centenas de traçamentos na região para chegar aos limites atuais.

Quanto da bacia da maior caverna do mundo fica fora do parque?

Rio subterrâneo tingido de verde na caverna Mammoth
Rio subterrâneo tingido de verde na caverna Mammoth. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

O dado que mudou a gestão do parque vem de um relatório de 2001 do Serviço Geológico dos Estados Unidos.

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Nas atas do Grupo de Interesse em Carste do USGS, o hidrólogo Joe Meiman, do próprio parque, resume o que o levantamento de Quinlan e Ray mostrou: “aproximadamente 60% da área de recarga do aquífero se estende além dos limites do Parque Nacional de Mammoth Cave”. Só a bacia da nascente Turnhole, a maior que alimenta o parque, cobre 244 km², segundo o mesmo relatório. Para comparar, o parque inteiro tem 52.007 acres, cerca de 210 km², de acordo com a Wikipédia em inglês, que também registra mais de 426 milhas, ou 686 km, de galerias mapeadas em 2025. Uma única bacia é maior do que todo o território protegido.

De onde vem a água que enche a caverna quando chove forte?

A intuição diz que proteger uma caverna é comprar o terreno acima dela e fechar o portão. Em carste, isso protege o teto, não a água.

O relatório do USGS mostra o efeito. A bacia do Echo River, quase toda dentro do parque na estação seca e lar do camarão-das-cavernas do Kentucky, espécie ameaçada, recebe água de quase 100 km² de terras de fora sempre que o rio subterrâneo Logsdon sobe mais de três metros acima do nível normal. Entre 1984 e 1988, isso aconteceu 38 vezes, conforme os registros reconstituídos por Meiman. Um mapa de baixo da terra vale mais que a escritura de cima, e essa conta chega para quem finge não saber.

Como funciona a proteção depois que o mapa apareceu?

  • Esgoto regional: o mapa de 1981 justificou a criação de uma estação de tratamento para as cidades vizinhas.
  • Rodovia I-65: foram negociadas estruturas de filtragem da água de chuva e de contenção de vazamentos ao longo da interestadual que corta a bacia.
  • Lixões em dolinas: houve limpeza de depósitos de lixo em sumidouros da bacia da nascente Pike.
  • Traçamentos novos: mais de 20 injeções de corante desde maio de 1999, porque um trecho de 3 km de divisor de bacias em Cave City, área urbana em expansão, estava definido por só três traçamentos.

A resposta foi sair da cerca e negociar com a região. O ecologista Rick Olson, do parque, listou os frutos disso no mesmo volume do USGS. A página do parque lembra que, dentro dos limites, centenas de milhares de carros por ano ainda pingam fluidos em estacionamentos que drenam para a caverna.

Onde o Brasil vive a mesma história com suas cavernas?

A maior caverna da América do Sul é a Toca da Boa Vista, em Campo Formoso, no sertão da Bahia, com cerca de 114 km de galerias mapeadas, segundo a Wikipédia em inglês, que a coloca como a mais extensa do Brasil. Ela fica a cerca de 550 km de Salvador, em área de caatinga, e sua vizinha, a Toca da Barriguda, está a menos de 700 m, de acordo com a Wikipédia em português. Nenhuma das duas está dentro de um parque nacional.

O Brasil respondeu ao dilema de Mammoth Cave antes de ter um mapa parecido. O Decreto 99.556, de 1990, com redação alterada pelo Decreto 6.640, de 2008, define caverna incluindo seu ambiente e seu conteúdo mineral e hídrico, e o artigo 2º original manda que o uso da cavidade e de sua área de influência siga condições que preservem o equilíbrio ecológico. O parágrafo único diz que essa área “há de ser definida por estudos técnicos específicos”, caso a caso, como consta no texto publicado no portal do Planalto. É o traçamento com corante escrito em linguagem jurídica: a proteção não termina na boca da gruta.

Quem cuida do inventário é o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas, o Cecav, ligado ao ICMBio. A página oficial do centro informava 30.225 cavernas cadastradas até 24 de novembro de 2025 no Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas, o Canie, criado pela Resolução Conama 347, de 2004. A Sociedade Brasileira de Espeleologia, sediada em Campinas, mantém em paralelo o Cadastro Nacional de Cavernas. A Chapada Diamantina, região baiana que já atraiu garimpeiros franceses atrás de diamante, mostra o mesmo tipo de paisagem.

Qual parque brasileiro nasceu para proteger o que está embaixo?

O exemplo mais próximo de Mammoth Cave em solo nacional fica no norte de Minas Gerais.

O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, em Januária, foi criado por decreto sem número de 21 de setembro de 1999 e tem 56.448,32 hectares, segundo a ficha oficial do ICMBio. O rio que dá nome ao parque nasce longe dos seus limites e chega carregando o que recolheu pelo caminho, como no Kentucky, e a ficha lista um peixe de caverna, o cambeva, entre as espécies ameaçadas que ele protege. Outro pedaço desse carste está na cidade mineira de altitude com pinturas rupestres e uma gruta cercada de lendas.

O que convém lembrar sobre a maior caverna do mundo e o corante?

O percentual diz o resto: no Kentucky, cerca de 60% da água que entra na maior caverna do mundo vem de fora do parque, segundo o USGS. Ao ler sobre a proteção de qualquer gruta brasileira, procure se existe estudo da área de influência, exigido pelo Decreto 99.556/1990, e não apenas o polígono do parque. Em região de carste, observe os sumidouros: é por eles que lixo, esgoto e agrotóxico chegam ao rio subterrâneo em dias, não em décadas. Para saber se uma caverna está cadastrada, comece pelo Canie do ICMBio.

O conteúdo acima é informativo e reúne o relatório 01-4011 do USGS, a página de hidrologia do Parque Nacional de Mammoth Cave, o texto do Decreto 99.556/1990 no Planalto, as fichas públicas do ICMBio e verbetes da Wikipédia para extensões e datas; medidas de cavernas mudam a cada expedição, e vale conferir a versão mais recente antes de citar um número.

Tags: cavernasCuriosidadesICMBioMammoth Cave
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