No fim dos anos 1970, o geólogo James Quinlan e o hidrólogo Joe Ray passaram temporadas inteiras rodando pelo sul do Kentucky com galões de corante fluorescente no porta-malas. O ritual: achar um riacho que sumia num sumidouro, despejar a tinta e esperar dias, às vezes semanas, para descobrir em qual nascente a cor reaparecia. Em 1981, o resultado de centenas dessas viagens virou um mapa, e o mapa mostrou algo que ninguém queria ver.
A água que abastece a Mammoth Cave, a maior caverna do mundo, não nasce dentro do parque nacional que a protege. O jeito mais barato de mapear por onde a água corre embaixo da terra, o corante, revelou que a maior parte da bacia subterrânea fica em fazendas, cidades e rodovias do lado de fora da cerca. Foi a partir desse dado que o parque passou a negociar com vizinhos que nunca pisaram numa gruta.
O Brasil, que guarda a maior caverna da América do Sul no sertão da Bahia, herdou o mesmo problema e tentou responder a ele com um decreto de 1990.
Por que despejar corante em um sumidouro diz mais do que cavar?
Em terreno calcário, o carste, a chuva não escorre em rios visíveis: ela some por buracos e segue por condutos que ninguém consegue percorrer inteiros.
O método é o traçamento com corante, o dye tracing. A página de hidrologia do Parque Nacional de Mammoth Cave resume o princípio: corantes fluorescentes inofensivos vão para dentro de um curso de água pouco antes de ele desaparecer no solo e, depois, são detectados em nascentes e em pontos da caverna. O conjunto dessas ligações desenha as bacias de água subterrânea. Segundo o serviço de parques dos Estados Unidos, foram centenas de traçamentos na região para chegar aos limites atuais.
Quanto da bacia da maior caverna do mundo fica fora do parque?

O dado que mudou a gestão do parque vem de um relatório de 2001 do Serviço Geológico dos Estados Unidos.
Nas atas do Grupo de Interesse em Carste do USGS, o hidrólogo Joe Meiman, do próprio parque, resume o que o levantamento de Quinlan e Ray mostrou: “aproximadamente 60% da área de recarga do aquífero se estende além dos limites do Parque Nacional de Mammoth Cave”. Só a bacia da nascente Turnhole, a maior que alimenta o parque, cobre 244 km², segundo o mesmo relatório. Para comparar, o parque inteiro tem 52.007 acres, cerca de 210 km², de acordo com a Wikipédia em inglês, que também registra mais de 426 milhas, ou 686 km, de galerias mapeadas em 2025. Uma única bacia é maior do que todo o território protegido.
De onde vem a água que enche a caverna quando chove forte?
A intuição diz que proteger uma caverna é comprar o terreno acima dela e fechar o portão. Em carste, isso protege o teto, não a água.
O relatório do USGS mostra o efeito. A bacia do Echo River, quase toda dentro do parque na estação seca e lar do camarão-das-cavernas do Kentucky, espécie ameaçada, recebe água de quase 100 km² de terras de fora sempre que o rio subterrâneo Logsdon sobe mais de três metros acima do nível normal. Entre 1984 e 1988, isso aconteceu 38 vezes, conforme os registros reconstituídos por Meiman. Um mapa de baixo da terra vale mais que a escritura de cima, e essa conta chega para quem finge não saber.
Como funciona a proteção depois que o mapa apareceu?
- Esgoto regional: o mapa de 1981 justificou a criação de uma estação de tratamento para as cidades vizinhas.
- Rodovia I-65: foram negociadas estruturas de filtragem da água de chuva e de contenção de vazamentos ao longo da interestadual que corta a bacia.
- Lixões em dolinas: houve limpeza de depósitos de lixo em sumidouros da bacia da nascente Pike.
- Traçamentos novos: mais de 20 injeções de corante desde maio de 1999, porque um trecho de 3 km de divisor de bacias em Cave City, área urbana em expansão, estava definido por só três traçamentos.
A resposta foi sair da cerca e negociar com a região. O ecologista Rick Olson, do parque, listou os frutos disso no mesmo volume do USGS. A página do parque lembra que, dentro dos limites, centenas de milhares de carros por ano ainda pingam fluidos em estacionamentos que drenam para a caverna.
Onde o Brasil vive a mesma história com suas cavernas?
A maior caverna da América do Sul é a Toca da Boa Vista, em Campo Formoso, no sertão da Bahia, com cerca de 114 km de galerias mapeadas, segundo a Wikipédia em inglês, que a coloca como a mais extensa do Brasil. Ela fica a cerca de 550 km de Salvador, em área de caatinga, e sua vizinha, a Toca da Barriguda, está a menos de 700 m, de acordo com a Wikipédia em português. Nenhuma das duas está dentro de um parque nacional.
O Brasil respondeu ao dilema de Mammoth Cave antes de ter um mapa parecido. O Decreto 99.556, de 1990, com redação alterada pelo Decreto 6.640, de 2008, define caverna incluindo seu ambiente e seu conteúdo mineral e hídrico, e o artigo 2º original manda que o uso da cavidade e de sua área de influência siga condições que preservem o equilíbrio ecológico. O parágrafo único diz que essa área “há de ser definida por estudos técnicos específicos”, caso a caso, como consta no texto publicado no portal do Planalto. É o traçamento com corante escrito em linguagem jurídica: a proteção não termina na boca da gruta.
Quem cuida do inventário é o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas, o Cecav, ligado ao ICMBio. A página oficial do centro informava 30.225 cavernas cadastradas até 24 de novembro de 2025 no Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas, o Canie, criado pela Resolução Conama 347, de 2004. A Sociedade Brasileira de Espeleologia, sediada em Campinas, mantém em paralelo o Cadastro Nacional de Cavernas. A Chapada Diamantina, região baiana que já atraiu garimpeiros franceses atrás de diamante, mostra o mesmo tipo de paisagem.
Qual parque brasileiro nasceu para proteger o que está embaixo?
O exemplo mais próximo de Mammoth Cave em solo nacional fica no norte de Minas Gerais.
O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, em Januária, foi criado por decreto sem número de 21 de setembro de 1999 e tem 56.448,32 hectares, segundo a ficha oficial do ICMBio. O rio que dá nome ao parque nasce longe dos seus limites e chega carregando o que recolheu pelo caminho, como no Kentucky, e a ficha lista um peixe de caverna, o cambeva, entre as espécies ameaçadas que ele protege. Outro pedaço desse carste está na cidade mineira de altitude com pinturas rupestres e uma gruta cercada de lendas.
O que convém lembrar sobre a maior caverna do mundo e o corante?
O percentual diz o resto: no Kentucky, cerca de 60% da água que entra na maior caverna do mundo vem de fora do parque, segundo o USGS. Ao ler sobre a proteção de qualquer gruta brasileira, procure se existe estudo da área de influência, exigido pelo Decreto 99.556/1990, e não apenas o polígono do parque. Em região de carste, observe os sumidouros: é por eles que lixo, esgoto e agrotóxico chegam ao rio subterrâneo em dias, não em décadas. Para saber se uma caverna está cadastrada, comece pelo Canie do ICMBio.
O conteúdo acima é informativo e reúne o relatório 01-4011 do USGS, a página de hidrologia do Parque Nacional de Mammoth Cave, o texto do Decreto 99.556/1990 no Planalto, as fichas públicas do ICMBio e verbetes da Wikipédia para extensões e datas; medidas de cavernas mudam a cada expedição, e vale conferir a versão mais recente antes de citar um número.




