A American Solar Grazing Association contabilizou 129.261 acres de usinas fotovoltaicas pastejados por rebanhos nos Estados Unidos até outubro de 2024, espalhados por 506 parques em 30 estados e com 113.050 cabeças em serviço. Só o Texas responde por 68.626 acres nessa conta, cerca de 53% do total americano e mais que o triplo dos 21.750 acres da Califórnia, o segundo colocado do mesmo levantamento.
É por causa dessa aritmética que ovelhas pastando embaixo de painel solar deixaram de ser cena pitoresca e viraram cláusula de contrato de manutenção. O mato entre as fileiras de módulos precisa ser cortado várias vezes por ano, e o corte mecânico numa área desse tamanho custa caro, exige máquina pequena e ainda arrisca lançar pedra no vidro.
Um experimento de campo da Universidade Estadual do Oregon, publicado em 2021, mediu ao mesmo tempo o pasto e os cordeiros em duas primaveras seguidas. O resultado bagunçou a intuição de quem imagina que menos sol embaixo dos painéis significa animal mais magro.
Por que ovelhas pastando embaixo de painel solar viraram um contrato de serviço no Texas?
A ovelha resolve um problema de geometria: alcança a faixa estreita sob os módulos, onde a roçadeira não entra, e não tem o hábito de subir nas estruturas nem de roer cabos, ao contrário da cabra. No Texas, o censo da associação americana registrou 55 usinas com pastejo e 36.237 animais trabalhando nelas. O estado concentra a maior expansão solar do país e tem tradição de criação ovina, o que aproximou dois setores que disputavam a mesma terra.
O que muda de mãos aqui não é o pasto, é a conta da roçadeira. E, numa corrida cheia de passivos imprevistos, como as pás de turbina eólica que nenhum ferro-velho aceita receber, o pastejo é solução rara por não deixar nenhum.
Quanto do rebanho o censo americano não enxerga?

Convém tratar os 129.261 acres como piso, não como total. O levantamento da associação de pastejo solar dos Estados Unidos é voluntário e autodeclarado: quem opera a usina ou cria o rebanho responde a um questionário, e a própria entidade admite que checar as respostas e cruzar duplicidades foi uma dificuldade. Nada obriga uma fazenda a se declarar. Em 2021, a mesma associação estimava 15.000 acres pastejados no país. Já o mapa InSPIRE, do NREL, o laboratório nacional de energias renováveis americano, apontava pouco mais de 53.000 acres às vésperas do censo. Parte do salto até os 129.261 é crescimento real da prática, parte é contagem melhor.
O que o experimento do Oregon colocou lado a lado?
O estudo saiu na revista científica Frontiers in Sustainable Food Systems, volume 5, artigo 659175, assinado por Andrew, Higgins, Smallman, Graham e Ates. Os pesquisadores dividiram a área em piquetes de pastagem aberta e piquetes montados sob uma usina fotovoltaica, com cordeiros Polypay recém-desmamados em cada situação, e refizeram a comparação nas primaveras de 2019 e de 2020. Mediram a forragem produzida, o comportamento dos animais ao longo do dia e o ganho de peso individual.
Sob módulos fixos a sombra não é uniforme: há faixas escuras o dia inteiro e faixas que pegam sol em alguma hora, e essa alternância explica boa parte do que veio depois. Rebanho solto aguenta mais do que se imagina, como mostra o caso do gado largado numa ilha gelada ao sul da Nova Zelândia, resgatado décadas depois sem manejo nenhum.
Se a forragem cai 38%, por que o cordeiro não perde peso?
A pastagem sob os painéis produziu 38% menos massa de forragem que a de céu aberto, e a queda se concentrou nas faixas de sombra permanente, logo abaixo das fileiras de módulos.
Mesmo assim, na primavera de 2019 os cordeiros da área sombreada ganharam 120 gramas por cabeça por dia, contra 119 gramas dos que pastaram no sol aberto. Na primavera de 2020 o par foi de 89 contra 92 gramas. Em nenhum dos dois anos a diferença teve significado estatístico. Na conta financeira, sem somar um centavo da eletricidade gerada, a receita média das duas temporadas ficou em US$ 1.029 por hectare na área solar e US$ 1.046 na área aberta.
A explicação não é que a ovelha comeu menos e se contentou. A forragem crescida na sombra chegou ao animal com mais proteína e menos fibra endurecida pelo sol, de modo que cada bocado rendeu mais. Está no artigo completo do grupo do Oregon, que também registrou os cordeiros pastando ao meio-dia sob os módulos, em vez de parar no calor.
- Volume de pasto: 38% menor sob os painéis, concentrado nas faixas de sombra fixa.
- Ganho diário: 120 gramas por cabeça sob os módulos contra 119 a céu aberto em 2019, e 89 contra 92 em 2020.
- Peso vivo por área: 1,5 contra 1,3 quilo por hectare por dia em 2019, e 4,6 contra 5,0 em 2020, sem diferença estatística nos dois anos.
- Receita por hectare: praticamente empatada na média dos dois anos, antes de contabilizar a energia vendida.
Qual projeto brasileiro testa a mesma ideia em Minas Gerais?
O Brasil tem uma frente de pesquisa organizada sobre isso desde 2023, quando a Cemig aprovou, dentro do programa de pesquisa e desenvolvimento regulado pela Aneel, um projeto agrivoltaico em parceria com a Epamig e o CPQD.
São R$ 10,5 milhões e 30 meses de trabalho, em dois campos experimentais da empresa de pesquisa agropecuária mineira: Jaíba, no norte do estado, e Prudente de Morais, na região central. A proposta é testar arranjos de módulos e cultivos que preservem a produção agrícola embaixo da usina. O anúncio conjunto das três instituições apresenta a iniciativa como a primeira do país a juntar geração elétrica e alimento na mesma área.
Há outras peças no tabuleiro. Em 14 de outubro de 2025, o Laboratório Fotovoltaica da Universidade Federal de Santa Catarina inaugurou um sistema agrifotovoltaico no Sapiens Parque, em Florianópolis, com a Epagri na parte agronômica. E o estudo “Sistemas Agrivoltaicos no Brasil”, da cooperação alemã GIZ no âmbito da Parceria Energética Brasil-Alemanha junto ao Ministério de Minas e Energia, mapeia potencial e viabilidade da combinação no país, pastagem sob módulos incluída.
O que convém lembrar sobre ovelhas embaixo de painel solar?
Quem for avaliar um contrato de pastejo em usina precisa olhar quatro itens antes de falar em preço: a altura livre entre o solo e a borda inferior dos módulos, que define se o animal circula sem esbarrar na estrutura; a proteção de cabos e caixas de junção ao alcance do rebanho; o ponto de água dentro da área cercada; e quem responde pelo animal em caso de acidente elétrico. Exija que o número de cabeças venha da lotação da forragem local, não da área total da usina. E leia o dado americano pelo que ele é: censo voluntário, útil para tendência, frágil para total.
Sobre o desempenho animal, o resultado do Oregon vale para o que foi medido: duas primaveras, cordeiros desmamados de uma raça específica, clima temperado. E os dois anos não desenharam a mesma curva, porque em 2019 o lado solar saiu na frente na produção por área e em 2020 ficou atrás. O que se repetiu foi o empate no ganho por cabeça. Observe, quando saírem os resultados de Minas Gerais e de Santa Catarina, se a qualidade da forragem sombreada se sustenta nas gramíneas tropicais, que respondem à sombra de outro jeito.
O material acima é informativo e junta o censo da associação americana de pastejo solar, o artigo de 2021 da Frontiers in Sustainable Food Systems e comunicados públicos da Cemig, do CPQD, da UFSC e do Ministério de Minas e Energia. Soltar animais dentro de uma usina exige projeto assinado por profissional habilitado e acompanhamento veterinário, e isso nenhum artigo resolve no lugar de quem cria.




