Em muitas capitais brasileiras, os sons da manhã são de motores e buzinas. Em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, eles dividem espaço com o grito das araras. Aves que costumam ser associadas ao Pantanal e ao cerrado vivem soltas nas árvores das ruas e praças, fazem ninhos perto de avenidas movimentadas e criam filhotes no meio da cidade. O fenômeno começou há pouco mais de duas décadas e transformou a arara em símbolo oficial do município.
Como as araras chegaram a Campo Grande?
Fugindo da falta de comida. Segundo o Instituto Arara Azul, em 1999 um período de seca acentuada, somado ao desmatamento e às queimadas na zona rural e em municípios vizinhos, provocou grande escassez de alimento, e bandos de araras vindos da região de Terenos chegaram à capital, em grupos de 48 e 27 aves.
Parte delas decidiu ficar. O instituto registra que os bandos eram formados por araras-canindés, de peito amarelo e costas azuis, e araras-vermelhas. Uma parte se estabeleceu em Campo Grande e, com sucesso na reprodução, as araras-canindés se tornaram comuns na cidade, enquanto outros grupos seguiram até o limite com São Paulo e Paraná.

Quantos ninhos de araras existem na cidade?
Centenas. Segundo o Instituto Arara Azul, que mantém o Projeto Aves Urbanas, a equipe acompanha anualmente mais de 350 ninhos em Campo Grande. Desde o início do monitoramento, o projeto registrou mais de 360 ninhos, mais de 700 casais reprodutores e mais de mil filhotes que voaram pelos céus da capital.
As araras urbanas viajam longe. Segundo o portal Conexão Planeta, a bióloga Neiva Guedes, que coordena o projeto, relatou que aves nascidas e anilhadas em Campo Grande foram encontradas a mais de 120 km e 200 km da capital, dois anos depois de nascerem. O instituto informa que a reprodução das canindés na cidade ocorre de agosto a dezembro.
Quais são os marcos da história das araras na cidade?
A convivência entre a capital e as aves tem algumas datas importantes. Estas são as principais.
Que surpresas os ninhos urbanos revelaram?
Araras híbridas e novos vizinhos. O Instituto Arara Azul registra que, desde 2002, também são monitorados ninhos de araras híbridas, resultado do cruzamento entre arara-canindé e arara-vermelha, um fenômeno conhecido havia anos em cativeiro, mas passou a ser observado em vida livre na cidade.
Outras aves também aproveitam os ninhos. Um estudo publicado pela equipe do projeto registrou mais de quatro espécies de aves usando os ninhos construídos pelas araras-canindés na área urbana, entre elas a coruja suindara, que passou a ocupar dois deles. A descoberta mostra como a presença das araras mudou a dinâmica de outras espécies na cidade.
Como é o clima de Campo Grande ao longo do ano?
O calor é constante, com verão chuvoso e inverno mais seco. Janeiro concentra 243 mm de chuva em média, enquanto julho registra apenas 28 mm, e as máximas chegam a 31°C em setembro e outubro.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Uma capital que aprendeu a conviver com as araras
Campo Grande mostra que a fauna silvestre pode encontrar espaço em meio ao concreto. As araras que chegaram fugindo da seca em 1999 ficaram, se reproduziram e hoje somam centenas de ninhos na cidade, a ponto de a arara-canindé virar ave símbolo do município. É uma convivência que encanta moradores e visitantes e lembra como cidades e natureza podem se adaptar uma à outra.
Você precisa caminhar pelas praças de Campo Grande no fim da tarde, ouvir o grito das araras e procurar os casais nas árvores para entender por que essa capital virou a casa das araras.




