Cidade colonial costuma ser lembrada por um capítulo só. Ilhéus tem três. Fundada em 1534 como Capitania de São Jorge dos Ilhéus, viveu o auge do ciclo do cacau nos séculos XIX e XX, virou cenário dos romances de Jorge Amado e concentra hoje o litoral mais extenso de qualquer município da Bahia, com cerca de 90 km de praias emolduradas pela Mata Atlântica.
Por que a cidade tem quase 500 anos de história?
Porque nasceu com a primeira leva de capitanias hereditárias do Brasil. Segundo o histórico oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Capitania de São Jorge dos Ilhéus foi doada por Dom João III ao fidalgo português Jorge de Figueiredo Correia em 26 de junho de 1534, por carta régia assinada em Évora.
O donatário nunca esteve em suas terras. Mandou o capitão-mor espanhol Francisco Romero, que chegou em 1535, atracou primeiro na ilha de Tinharé e transferiu a sede para a foz do Rio Cachoeira, onde fundou a Vila de São Jorge dos Ilhéus em 1536. O historiador Gabriel Soares registrou que ali foi plantada, pela primeira vez no Brasil, a cana-de-açúcar. É o berço de uma das primeiras vilas da história colonial brasileira.

Como o cacau transformou Ilhéus?
Reescrevendo a economia e a paisagem urbana. As primeiras sementes chegaram ao Sul da Bahia em 1752, mas foi no fim do século XIX que a lavoura assumiu o comando local. Os coronéis do cacau ergueram casarões, palacetes e boulevards no centro histórico e transformaram a cidade em um dos principais polos econômicos do estado nas primeiras décadas do século XX.
Foi esse universo que o escritor Jorge Amado, nascido na região em 1912, retratou em romances como Gabriela, Cravo e Canela, Terras do Sem Fim, São Jorge dos Ilhéus e Tocaia Grande. As disputas de terra, o coronelismo, os cabarés e os bares do centro se tornaram cenário literário reconhecido internacionalmente, o que rendeu à cidade o apelido de capital do cacau.
Quais atrações estruturam o roteiro literário e histórico?
O centro histórico pode ser percorrido a pé, com os principais pontos concentrados em torno da Praça Dom Eduardo. Segundo o Portal de Turismo da Prefeitura Municipal de Ilhéus, os principais pontos são:
- Catedral de São Sebastião: templo neoclássico com vitrais coloridos, cartão-postal do centro, inaugurado em 1967 no lugar da capela original.
- Bar Vesúvio: fundado em 1919, foi imortalizado em Gabriela, Cravo e Canela e é tombado como patrimônio histórico municipal.
- Centro Cultural Bataclan: antigo cabaré da era do cacau, funcionou entre 1926 e 1938 e hoje abriga restaurante e loja de chocolates, com fachada original preservada.
- Casa de Cultura Jorge Amado: casarão neoclássico onde o escritor morou na infância, com objetos pessoais, fotografias e edições antigas.
- Palácio Paranaguá: sede da Prefeitura, construção histórica no coração do centro.
- Mirante do Canhão: vista panorâmica da Baía do Pontal e do centro histórico.
- Museu Regional do Cacau: acervo dedicado à história da lavoura que fez a cidade.
- Teatro Municipal: inaugurado nos anos 1930, patrimônio arquitetônico da era áurea do cacau.

Quais praias completam a visita?
Ilhéus tem o litoral mais extenso da Bahia, com cerca de 90 km de faixa costeira que combina praias urbanas movimentadas e trechos ecológicos preservados. Alguns destinos essenciais:
- Praia dos Milionários: uma das mais movimentadas, com barracas de praia estruturadas e forte cena gastronômica.
- Praia do Sul: extensão urbana com quiosques e boa infraestrutura, próxima ao centro.
- Praia de Cururupe: encontro do rio com o mar, cercada de manguezais preservados.
- Praia do Cristo: em frente à Baía do Pontal, com estátua do Cristo Redentor local.
- Praia da Batuba: mais afastada, com águas cristalinas e ambiente rústico, ponto de surfe.
- Lagoa Encantada: área ecológica com cachoeiras acessadas de barco, no interior do município.
Como é a Rota do Chocolate no interior cacaueiro?
É o roteiro rural que aproveita a herança agrícola da região. As fazendas históricas mantêm as estruturas originais de produção do século XIX e abrem visitação com trilhas pela lavoura, degustação, oficinas de fabricação artesanal de chocolate e almoços regionais.
A experiência mostra o processo completo, do fruto colhido na árvore ao chocolate embalado, passando pelas etapas de fermentação, secagem e torra da amêndoa. Muitas propriedades ficam entre Ilhéus e Itacaré, o que permite combinar a rota com uma esticada até o litoral norte cacaueiro. Segundo o portal oficial da Prefeitura, o roteiro é uma das principais experiências turísticas da região sul da Bahia.
O que provar na cozinha ilheuense?
A gastronomia combina o padrão baiano tradicional com influências afro-indígenas e o chocolate local. Alguns pratos e paradas essenciais:
- Moqueca de peixe: preparada com leite de coco, azeite de dendê e coentro, servida em restaurantes da orla.
- Acarajé: bolinho de massa de feijão-fradinho frito em dendê, recheado com camarão seco e vatapá.
- Quibe do Vesúvio: pedida clássica do bar centenário, mencionada nos romances de Jorge Amado.
- Chocolate artesanal: barras, bombons e ovos produzidos com cacau da região.
- Peixe frito com pirão: prato tradicional das barracas da Praia dos Milionários.
- Cocada de cacau: doce típico regional, com o fruto que fez a cidade.

Como chegar a Ilhéus?
A cidade é servida pelo Aeroporto Jorge Amado, com voos diretos de São Paulo, Brasília e outras capitais brasileiras. Do aeroporto ao centro histórico são cerca de 4 km.
Por rodovia, o acesso principal é a BR-101, que liga a cidade a Salvador, a aproximadamente 460 km ao norte, e a Porto Seguro, ao sul. A BA-262 conecta Ilhéus a Itabuna, cidade vizinha do polo cacaueiro. Muitos visitantes combinam Ilhéus com Itacaré, a cerca de 65 km ao norte, ampliando o roteiro para as praias mais preservadas do litoral sul baiano.
A capital do cacau que virou romance
Ilhéus oferece o que raramente se encontra num único destino brasileiro: quase quinhentos anos de história colonial, o litoral mais extenso da Bahia e um universo literário reconhecido internacionalmente que se materializa nos bares, nas casas e nas fazendas do centro histórico. É a cidade onde o cacau virou economia, cabaré, estátua e página impressa.
Você precisa reservar pelo menos cinco dias para conhecer Ilhéus, dividir o tempo entre o centro histórico, as fazendas de cacau do interior e as praias ecológicas do litoral sul.




