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Uma guerra por terras e pela construção de uma ferrovia deixou milhares de mortos no Sul do Brasil: como aconteceu a Guerra do Contestado entre 1912 e 1916

Por Daniely Cardoso
06/11/2026
Em Curiosidades
O conflito também envolveu desigualdade social, coronelismo e resistência à expansão de grandes empreendimentos econômicos.  // Imagem ilustrativa gerada por IA para representar a situação descrita no texto; pessoas, locais e elementos visuais não correspondem necessariamente aos reais

O conflito também envolveu desigualdade social, coronelismo e resistência à expansão de grandes empreendimentos econômicos. // Imagem ilustrativa gerada por IA para representar a situação descrita no texto; pessoas, locais e elementos visuais não correspondem necessariamente aos reais

Entre 1912 e 1916, uma região disputada por Paraná e Santa Catarina foi cenário de um dos conflitos mais violentos da história brasileira. Conhecida como Guerra do Contestado, a luta envolveu milhares de sertanejos, disputas por terras, construção de uma ferrovia e repressão militar, deixando milhares de mortos, entre combatentes e civis.

Por que começou a Guerra do Contestado no Sul do Brasil?

A Guerra do Contestado ocorreu em uma área de limites territoriais indefinidos entre Paraná e Santa Catarina. A região era habitada por comunidades caboclas que viviam da agricultura, da criação de animais e da exploração de recursos naturais. O avanço de grandes propriedades e empresas privadas ameaçou a permanência dessas famílias, provocando conflitos pela posse da terra.

Segundo o Atlas Histórico do Brasil, da Fundação Getulio Vargas, o movimento reuniu trabalhadores desempregados, pequenos agricultores e moradores expulsos de suas terras. A disputa territorial entre os dois estados agravou a instabilidade, mas não explica sozinha a revolta. O conflito também envolveu desigualdade social, coronelismo e resistência à expansão de grandes empreendimentos econômicos.

O avanço de grandes propriedades e empresas privadas ameaçou a permanência dessas famílias, provocando conflitos pela posse da terra. // Imagem ilustrativa gerada por IA para representar a situação descrita no texto; pessoas, locais e elementos visuais não correspondem necessariamente aos reais

A construção da ferrovia expulsou famílias de suas terras

Um dos principais fatores da revolta foi a construção da Estrada de Ferro São Paulo–Rio Grande, empreendimento associado à Brazil Railway Company, ligada ao empresário norte-americano Percival Farquhar. A ferrovia deveria facilitar o transporte e a integração econômica do Sul, mas sua implantação envolveu concessões de terras e mudanças profundas na ocupação da região.

De acordo com o Senado Federal, a expansão ferroviária e madeireira contribuiu para a expulsão de famílias que ocupavam aquelas terras havia gerações. Além disso, após a conclusão de trechos da obra, trabalhadores ficaram desempregados. A combinação de perda de moradia e falta de trabalho aumentou a insatisfação com empresas e autoridades locais.

Quem foi o monge José Maria e como a revolta ganhou força?

A religião teve um papel importante na mobilização dos sertanejos. O movimento ganhou força em torno de José Maria, um curandeiro e líder religioso conhecido como monge, que reunia seguidores em busca de proteção, justiça e melhores condições de vida. Sua influência cresceu entre moradores que desconfiavam das autoridades e enfrentavam dificuldades econômicas.

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Em outubro de 1912, um confronto na localidade de Irani, situada na área disputada, terminou com a morte de José Maria e do comandante policial paranaense João Gualberto Gomes de Sá. A morte do líder não encerrou o movimento. Seus seguidores passaram a acreditar em seu retorno e organizaram comunidades religiosas, conhecidas como redutos, que se tornaram centros de resistência armada.

Como os combates transformaram a região em um campo de guerra?

Nos anos seguintes, os sertanejos organizaram redutos e enfrentaram forças policiais e militares. O governo considerava o movimento uma ameaça à ordem republicana, enquanto os revoltosos denunciavam abusos de autoridades, coronéis e empresas. A partir de 1914, a repressão ganhou intensidade com operações do Exército brasileiro, incluindo cercos, ataques e destruição de comunidades.

Os principais acontecimentos ajudam a compreender a evolução do conflito:

  • 1912: confronto de Irani marca o início da guerra e provoca a morte de José Maria.
  • 1913: seguidores do monge reorganizam o movimento e fortalecem comunidades religiosas.
  • 1914: tropas atacam redutos, incluindo Taquaruçu, e o governo federal amplia a intervenção militar.
  • 1915: operações militares enfraquecem os principais núcleos de resistência.
  • 1916: a prisão de Adeodato Ramos e o acordo de limites entre Paraná e Santa Catarina marcam o encerramento oficial do conflito.

Separamos esse vídeo do Buenas Ideias falando mais sobre esse tema:

Quantas pessoas morreram durante a Guerra do Contestado?

O número exato de mortos permanece incerto, pois os registros da época são incompletos e os cálculos históricos apresentam diferenças. Uma pesquisa publicada pela Universidade Federal de Minas Gerais menciona aproximadamente 6 mil mortos, enquanto levantamentos apresentados pelo Senado Federal apontam estimativas de pelo menos 10 mil vítimas. Não existe consenso sobre um total definitivo.

As mortes não ocorreram apenas nos confrontos entre os sertanejos e os soldados. A fome, as doenças, os deslocamentos forçados e a destruição dos redutos também atingiram a população civil. Mulheres, crianças e idosos estiveram entre as vítimas. O episódio revelou o impacto da violência militar sobre comunidades rurais e as consequências sociais da disputa pelo controle das terras.

O que aconteceu depois da guerra e por que sua história importa?

Em 1916, um acordo estabeleceu novos limites territoriais entre Paraná e Santa Catarina, encerrando uma disputa política que havia contribuído para agravar a crise. Entretanto, a definição das fronteiras não significou a recuperação das terras ou das condições de vida de todas as famílias atingidas. A publicação do Arquivo Nacional sobre o Contestado apresenta a luta pela terra, a resistência ao coronelismo e os deslocamentos provocados pela ferrovia como elementos centrais do conflito.

Para compreender a Guerra do Contestado, é necessário olhar além da disputa entre dois estados. O episódio mostra como projetos de modernização, quando associados à expulsão de moradores e à concentração de terras, podem produzir conflitos sociais profundos. A memória dos sertanejos permanece ligada às discussões sobre direitos territoriais, desigualdade e participação das populações locais nas decisões que transformam suas regiões.

Tags: geografiahistóriapolíticasociedade
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