O menino se escondia debaixo do balcão da venda do pai para ouvir e registrar os causos contados pelos tropeiros. Anos depois, tornou-se médico, diplomata e um dos maiores escritores do Brasil, mas levou consigo as lembranças da pequena cidade cercada por serras onde nasceu. Cordisburgo, no interior de Minas Gerais, continua com cerca de 7 mil habitantes e preserva justamente o ambiente tranquilo que combina literatura, natureza subterrânea e a memória de João Guimarães Rosa.
O que existe nos 650 metros de galerias da Gruta do Maquiné?
Cordisburgo abriga mais de 60 grutas conhecidas, mas nenhuma ganhou tanta fama quanto a Gruta do Maquiné. A cavidade começou a ser explorada em 1825 por um fazendeiro da região conhecido como “Seu Maquiné”. Em 1834, o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund iniciou escavações no local e encontrou fósseis de preguiça-gigante e tigre-dente-de-sabre, enviando mais de 12 mil peças para Copenhague. A descoberta ajudou a transformar a região em um dos marcos da paleontologia brasileira.
São sete salões distribuídos por cerca de 650 metros de galerias, onde estalactites, estalagmites e cortinas de calcário formadas pela ação da água ao longo de milhões de anos compõem o cenário subterrâneo. Aberta à visitação desde 1908, a Gruta do Maquiné foi a primeira caverna brasileira a receber iluminação artificial, em 1967. Atualmente, faz parte do Monumento Natural Estadual Peter Lund, sob gestão do Instituto Estadual de Florestas (IEF).

Como a infância em Cordisburgo virou matéria-prima para a obra de Guimarães Rosa?
João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, em 1908, e passou ali os primeiros nove anos de vida. A casa onde cresceu, enquanto seu pai, Florduardo, mantinha uma venda no cômodo da frente, transformou-se no Museu Casa Guimarães Rosa em 1974. Os ambientes fazem referência à trajetória literária do autor e preservam manuscritos, fotografias e a máquina de escrever utilizada por ele.
A literatura também permanece viva por meio do Grupo de Contadores de Estórias Miguilim, que apresenta trechos de obras como Grande Sertão: Veredas e Sagarana. Criado na década de 1990 por Calina Guimarães, prima do escritor, o grupo reúne adolescentes preparados para a narração oral e mantém a tradição das histórias de Rosa próxima das novas gerações.
Quais lugares ajudam a descobrir o lado menos conhecido de Cordisburgo?
Apesar do tamanho reduzido, Cordisburgo guarda atrações que podem ser visitadas em poucas horas e complementam o roteiro dedicado à literatura e às formações subterrâneas. Caminhar pelo município revela monumentos, réplicas de animais pré-históricos e construções que ajudam a contar a história local.
- Portal Grande Sertão: monumento de bronze instalado na Praça Miguilim, com seis vaqueiros montados a cavalo, Guimarães Rosa e um cachorro. A obra é assinada pelo artista Leo Santana, também responsável pela estátua de Drummond em Copacabana.
- Zoológico de Pedras Peter Wilhelm Lund: praça que reúne réplicas de concreto de animais pré-históricos encontrados na região, incluindo preguiça-gigante e mastodonte.
- Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus: situada no ponto mais elevado da cidade, conserva a pia batismal onde Guimarães Rosa recebeu o batismo e proporciona uma vista panorâmica de Cordisburgo.
- Casa Elefante: construção criada pelo escultor Stamar na entrada do município, conhecida por seu formato incomum e considerada uma das casas mais curiosas do país.
Por que Guimarães Rosa dizia que o real está no meio do caminho?
Uma das frases mais conhecidas da literatura brasileira resume uma das ideias centrais de João Guimarães Rosa. A citação aparece em Grande Sertão: Veredas, na voz do personagem Riobaldo, e transforma a própria vida em uma espécie de travessia.
A ideia central é que o real não está apenas no ponto de partida nem na linha de chegada. Ele se revela durante o percurso, nas experiências e transformações que acontecem entre um momento e outro. Para Riobaldo, viver é atravessar caminhos, enfrentar mudanças e descobrir sentidos enquanto a jornada acontece.
Quando uma cidade pequena transforma a viagem em travessia
Cordisburgo reúne o silêncio do interior mineiro com um patrimônio que mistura literatura, paleontologia e fé. Em poucas horas, é possível ouvir adolescentes recitando textos de Guimarães Rosa, visitar a casa onde o escritor passou a infância e, depois, caminhar entre as formações milenares da Gruta do Maquiné.
É justamente essa combinação que torna a cidade especial. Em Cordisburgo, a viagem não se resume ao destino final: ela acontece nas ruas tranquilas, nas histórias dos Miguilins e nas paisagens subterrâneas que ajudam a entender o universo que cercou o escritor desde a infância.




