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Há mais de 30 anos, a China começou a plantar árvores no deserto de Kubuqi, na Mongólia Interior, e hoje um terço da área virou vegetação; o projeto é citado pela ONU como o maior caso de recuperação de deserto do mundo, com números que impressionam e críticas que poucos contam

Por João Victor
06/09/2026
Em Curiosidades
A linha entre a floresta plantada e as dunas de Kubuqi

A linha entre a floresta plantada e as dunas de Kubuqi. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Cerca de 18.600 km² de areia, um terço deles coberto por vegetação depois de três décadas de plantio. É o retrato do deserto de Kubuqi, na Mongólia Interior, nas páginas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA): a área total consta do perfil do prêmio Campeões da Terra de 2017 e a fração reverdecida, “around one third of the desert has been greened”, de reportagem do órgão de setembro de 2019.

A história de como a China plantou floresta no deserto começa em 1988, quando um empresário local chamado Wang Wenbiao assumiu uma salina em Hangjin Banner e descobriu que a areia engolia a estrada por onde o sal saía. A empresa que ele fundou, a Elion Resources Group, passou a fixar dunas com arbustos e árvores para proteger o negócio. Três décadas depois, o resultado virou relatório do PNUMA, prêmio internacional e vitrine diplomática.

Há uma parte que fica fora dos vídeos de drone: ecólogos chineses publicam há mais de 15 anos, em periódicos internacionais, advertências sobre o custo de plantar árvores onde chove pouco. E o Brasil, com desertificação em curso no semiárido, tem motivos para ler os dois lados.

Quanto do deserto de Kubuqi virou verde em 30 anos?

A conta mais repetida é a de um terço, cerca de 6.000 km², área próxima à do Distrito Federal.

Os 6.000 km² restaurados são o número da própria Elion e batem com o um terço da reportagem do PNUMA de 2019. O órgão também estimou, em pesquisa citada no perfil do prêmio Campeões da Terra, um valor líquido de US$ 1,8 bilhão em 50 anos, somando serviços ambientais. Em 2015, o PNUMA publicou o documento Review of the Kubuqi Ecological Restoration Project: A Desert Green Economy Pilot Initiative.

Por que a China plantou floresta no deserto de Kubuqi e não parou na salina?

Muda de alcaçuz plantada na areia com irrigação
Muda de alcaçuz plantada na areia com irrigação. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Porque a areia custava dinheiro antes de render prestígio.

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A revista Time, em reportagem de 2017, descreve o problema inicial: o sal da fábrica de Wang dava uma volta de 350 km para chegar ao comprador, quando a distância em linha reta era de 65 km, porque as dunas cobriam qualquer estrada. A estrada só resistiu quando as margens ganharam vegetação, e daí o modelo se ampliou: alcaçuz, planta medicinal com mercado, gado nas áreas recuperadas, turismo e uma usina solar de 1.000 megawatts cujos painéis reduzem o vento rente ao solo. Logística de sal acabou classificada pelo PNUMA como riqueza ecológica, com o fundador premiado em 2017.

O que dizem os ecólogos sobre plantar árvores onde chove pouco?

Que a árvore errada pode piorar o solo que devia salvar. O pesquisador Shixiong Cao, da Universidade Florestal de Pequim, assinou em 2008, na Environmental Science & Technology, um artigo de título direto: Why large-scale afforestation efforts in China have failed to solve the desertification problem. Dois anos depois, com cinco coautores, publicou na revista Ambio um balanço de meio século de reflorestamento em regiões áridas e semiáridas da China. O resumo do estudo diz que, “quando as árvores não são adaptadas ao ambiente local, a política não melhora o ambiente e pode, ao contrário, aumentar a degradação ambiental”. A razão é física: onde chove menos do que evapora, a umidade superficial do solo não sustenta floresta, e a vegetação estável ali é arbusto e estepe. Muitos plantios bem-sucedidos em pequena escala, registram os autores, morreram ou degradaram com o tempo. Em 2011, o grupo levou a crítica à Earth-Science Reviews, volume 104, em Excessive reliance on afforestation in China’s arid and semi-arid regions, pedindo que a política troque a meta de plantar floresta pela de restaurar o ecossistema que cabe no clima, inclusive pastagem.

Isso não anula Kubuqi, mas coloca a pergunta certa: o que foi plantado, com quanta água e por quanto tempo aguenta sem irrigação. Reverdecer com dinheiro de empresa e apoio de governo é façanha; sustentar o verde sem drenar o aquífero é outra prova, e essa ainda está em andamento.

Qual número da ONU está certo: um terço ou dois terços?

Os dois aparecem em páginas oficiais do mesmo órgão.

O perfil de Wang Wenbiao no site do prêmio Campeões da Terra afirma que cerca de dois terços do deserto foram reverdecidos, enquanto a reportagem do PNUMA de setembro de 2019 fala em cerca de um terço. São 6.000 km² de diferença. Parte da explicação está no que se conta como verde: duna fixada por arbusto rasteiro, cobertura vegetal contínua ou simples área de atuação da empresa. Como o PNUMA não publicou medição própria por satélite, este texto adota o número menor, o mesmo que a Elion usa ao falar em 6.000 km². O rótulo de maior recuperação de deserto do mundo vem de comunicação institucional, não de ranking científico com metodologia pública.

O que o semiárido brasileiro tem a ver com um deserto chinês?

O Brasil não tem deserto de areia como Kubuqi, mas tem terra perdendo a capacidade de produzir em escala maior do que se imagina.

O Instituto Nacional do Semiárido (Insa), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, mantém uma publicação sobre os núcleos de desertificação do semiárido, assinada por Aldrin Perez-Marin e outros quatro pesquisadores. Segundo o documento, as áreas suscetíveis à desertificação (ASD) somam 1.340.863 km² e abrangem 1.488 municípios de nove estados do Nordeste, mais o norte de Minas Gerais e do Espírito Santo. O Semiárido oficial tem 969.589,4 km² e cerca de 22 milhões de habitantes. Pelo mesmo estudo, 200 mil km² já estão degradados de forma grave ou muito grave, e a área atingida em algum grau chega a cerca de 600 mil km², perto de um terço do Nordeste. A Paraíba é o estado proporcionalmente mais afetado, com 71% da área comprometida.

  • Gilbués (PI): 6.131 km² afetados, com voçorocas que engolem estradas, e cerca de 20 mil habitantes, segundo o Insa.
  • Irauçuba (CE): 4.099 km², em solos rasos onde a erosão tira a camada fértil sem abrir voçorocas.
  • Seridó (RN/PB): 2.987 km² e 260 mil habitantes, com corte de vegetação para lenha e cerâmica apontado como fator.
  • Cabrobó (PE): 4.960 km² e 24 mil habitantes na depressão sertaneja, à beira do São Francisco.

A lição chinesa que serve à Caatinga é a dos críticos: espécie nativa, chuva compatível e décadas de manutenção. Para ver um deserto brasileiro que não é desertificação, basta olhar as dunas maranhenses que enchem de água na chuva, ecossistema natural. Já no Ceará, o contraste entre Irauçuba e a serra úmida cercada por 32 mil hectares de mata mostra os dois extremos no mesmo estado.

O que convém lembrar sobre a floresta plantada no deserto de Kubuqi?

A base é essa: 18.600 km² de deserto, cerca de 6.000 km² com vegetação em 30 anos, US$ 1,8 bilhão em 50 anos pelo PNUMA. Exija saber o que se conta como verde antes de aceitar um percentual, porque o próprio PNUMA publica um terço numa página e dois terços em outra. Observe espécie e fonte de água: pela síntese de Cao e colegas na Ambio, onde chove menos do que evapora a floresta só se mantém irrigada, e arbusto e capim podem ser a resposta certa. No semiárido brasileiro, use os números do Insa, 1.340.863 km² suscetíveis e 200 mil km² já em degradação grave, como régua para qualquer promessa, e desconfie de projeto que fale em árvore sem falar em chuva.

Este apanhado é informativo e cruza páginas públicas do PNUMA, uma reportagem da Time, artigos de Cao e colaboradores e o documento do Insa; os percentuais sobre Kubuqi variam conforme a fonte e o critério de cobertura vegetal, e os dados brasileiros seguem a delimitação da publicação citada, sujeita a atualização.

Tags: desertificaçãoDeserto de Kubuqimeio ambientePNUMA
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