Deserto e abundância de água costumam ser coisas opostas. No leste do Tocantins, as duas dividem o mesmo território: areia alaranjada empilhada pelo vento e, a poucos quilômetros dali, nascentes que jorram com força suficiente para manter uma pessoa boiando. O Jalapão reúne as duas paisagens dentro de uma única unidade de conservação.
Como as dunas de 40 metros se formaram no meio do Cerrado?
A areia vem da rocha que fica logo atrás delas. O material se desprende da Serra do Espírito Santo, é carregado pelo vento e se acumula na base do paredão, formando o campo de dunas que se tornou o cartão-postal da região. Segundo o Governo do Tocantins, essas areias finas e alaranjadas chegam a 40 metros de altura.
Tudo isso está protegido dentro do Parque Estadual do Jalapão, criado em 12 de janeiro de 2001 e concentrado no município de Mateiros. São mais de 158 mil hectares sob gestão do Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), o que faz dele a maior unidade de conservação de proteção integral do estado. Comparação inevitável vale com o deserto de areia branca do Maranhão, de área semelhante e paisagem oposta.

Por que é impossível afundar nos fervedouros?
Porque a água empurra o corpo de baixo para cima. Conforme o portal oficial Jalapão Tocantins, do governo estadual, os fervedouros são nascentes com alta pressão da água que sobe do lençol freático, o que permite flutuar sem medo de afundar.
O mecanismo depende do solo. A água subterrânea atravessa uma camada de areia fina e irrompe na superfície com fluxo constante, criando uma piscina rasa de fundo movediço em que o corpo simplesmente não desce. Cada fervedouro tem tamanho, formato e cor próprios, e a diferença de pressão entre um e outro muda bastante a sensação de flutuação. É um fenômeno raro o bastante para não ter equivalente popular em outra língua.
Quantas pessoas visitam o Parque Estadual do Jalapão por ano?
Foram 50.302 visitantes em 2025, contra 43.131 no ano anterior, segundo a Agência Tocantins. O número surpreende para um destino sem aeroporto próprio, alcançado por estradas de terra e com acesso que exige veículo 4×4.
O controle é rígido justamente por isso. O parque é unidade de proteção integral, categoria que só admite uso indireto dos recursos, como o turismo ambiental, e os dois atrativos monitorados dentro da área são as dunas e a Serra do Espírito Santo. As regras de entrada e saída, o manejo da visitação e a exigência de guia de turismo ou condutor ambiental local foram fixadas por instrução normativa do Naturatins.
O que mais entra no roteiro além das dunas e dos fervedouros?
A região reúne cachoeiras, serras e comunidades tradicionais espalhadas por estradas longas, o que costuma render três dias de viagem no mínimo. Confira abaixo os pontos que organizam o percurso:
- Serra do Espírito Santo: trilha de cerca de 8 km entre ida e volta até o mirante que abre a vista sobre o campo de dunas.
- Cachoeira da Velha: queda em formato de ferradura no Rio Novo, a maior do roteiro e ponto de prática de rafting.
- Cachoeira do Formiga: poço de água esverdeada em Mateiros, com fundo de areia clara visível da superfície.
- Comunidade Mumbuca: povoado quilombola onde o artesanato de capim dourado é produzido e vendido pelas próprias famílias.
- Pedra Furada: formação de arenito esculpida pelo vento, em Ponte Alta do Tocantins.

Como é o clima no Jalapão ao longo do ano?
Em Mateiros, sede do município que abriga o parque, a temperatura varia pouco e a chuva faz todo o contraste. Em janeiro caem em média 256 mm, enquanto julho e agosto registram média zero, veja abaixo como o calendário se divide:
Médias climatológicas de 30 anos publicadas pelo Climatempo. As condições variam de um ano para o outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale checar a previsão atualizada antes de viajar.
O deserto que guarda água em vez de esconder
Poucos lugares no Brasil conseguem colocar lado a lado uma duna de 40 metros e uma nascente que sustenta o corpo na superfície. O que segura essa combinação é o mesmo solo arenoso: ele empilha areia na superfície e deixa a água subterrânea encontrar caminho para irromper alguns quilômetros adiante.
Você precisa encarar as estradas de terra do Jalapão e ver de perto um pedaço de Cerrado que ainda funciona como funcionava antes de qualquer estrada existir.



