A hortelã cultivada no quintal costuma entrar na cozinha pelo aroma fresco, mas uma espécie específica também aparece entre os fitoterápicos usados no Brasil para alguns desconfortos digestivos. A explicação envolve a Mentha x piperita, conhecida como hortelã-pimenta, e substâncias presentes em suas folhas e no óleo essencial.
Nem toda hortelã do quintal é a mesma planta usada como fitoterápico
O nome popular “hortelã” é aplicado a diferentes espécies do gênero Mentha, o que pode causar confusão. A planta citada pelo Ministério da Saúde entre os fitoterápicos é especificamente a Mentha x piperita L., enquanto uma muda cultivada em casa pode pertencer a outra espécie ou variedade.
Essa identificação faz diferença porque documentos farmacêuticos estabelecem qual planta e qual parte vegetal estão relacionadas ao uso tradicional. A Farmacopeia Brasileira, por exemplo, possui uma monografia específica para a folha de hortelã-pimenta e define características usadas para reconhecer e controlar a qualidade desse material vegetal.

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Por que a hortelã-pimenta aparece ligada à digestão
Na lista de plantas medicinais e fitoterápicos disponibilizada pelo Ministério da Saúde, a hortelã corresponde à Mentha x piperita e é indicada como auxiliar no alívio de sintomas dispépticos, entre eles a flatulência. Dispepsia é um termo usado para desconfortos na parte superior do aparelho digestivo, podendo envolver sensação de estômago cheio, empachamento e outros sintomas.
A Agência Europeia de Medicamentos também reconhece preparações das folhas de hortelã-pimenta para o alívio de problemas relacionados à digestão, como indigestão e gases. Nesse caso, a conclusão é baseada principalmente no longo histórico de uso tradicional, e não significa que qualquer chá caseiro tenha eficácia comprovada para todo tipo de dor abdominal.
Mentol e óleo essencial ajudam a explicar o interesse pela planta
As folhas da hortelã-pimenta contêm óleo essencial rico em compostos aromáticos, entre eles o mentol, responsável por grande parte da sensação refrescante característica da planta. Componentes desse óleo têm sido estudados por sua ação sobre a musculatura do sistema gastrointestinal, o que ajuda a explicar o interesse em sintomas relacionados a espasmos e desconforto abdominal.
As evidências mais estudadas, porém, não são necessariamente sobre uma xícara de chá feita com folhas do quintal. O Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos informa que há pesquisas sugerindo benefício de óleo de hortelã-pimenta em cápsulas entéricas para alguns sintomas da síndrome do intestino irritável, enquanto há muito menos estudos sobre as folhas propriamente ditas. Separamos esse vídeo do canal Cardio DF falando mais sobre essa planta:
Chá de hortelã e cápsula de óleo não são equivalentes
Uma infusão preparada com folhas libera apenas parte dos componentes da planta na água e não apresenta necessariamente uma quantidade padronizada das substâncias ativas. Já o óleo essencial concentrado e os medicamentos fitoterápicos industrializados podem fornecer quantidades muito diferentes, além de utilizar apresentações desenvolvidas para liberar o conteúdo em determinada região do aparelho digestivo.
Por isso, resultados obtidos em estudos com cápsulas de óleo de hortelã-pimenta não devem ser automaticamente transferidos para o chá caseiro. O próprio NCCIH aponta que as pesquisas mais favoráveis para síndrome do intestino irritável envolvem principalmente cápsulas com revestimento entérico, enquanto as evidências disponíveis para a folha de hortelã são bem mais limitadas.
Hortelã também pode piorar alguns desconfortos
O fato de a planta ser associada à digestão não significa que ela seja adequada para qualquer sintoma gastrointestinal. Preparações de hortelã-pimenta, especialmente o óleo, podem provocar ou agravar azia e refluxo em algumas pessoas, justamente porque seus componentes também podem interferir no funcionamento da musculatura próxima à passagem entre esôfago e estômago.
Além disso, dor abdominal recorrente não deve ser tratada automaticamente como “má digestão”. Sintomas persistentes, perda de peso sem explicação, sangue nas fezes, vômitos frequentes ou dor intensa podem indicar situações que precisam de avaliação médica, e usar plantas para mascarar o desconforto pode atrasar a identificação da causa.

Quem cultiva hortelã em casa deve primeiro saber qual espécie possui
Para uso culinário ocasional, folhas de hortelã podem continuar fazendo parte de bebidas e alimentos de acordo com o costume de cada pessoa. Mas quem pretende utilizá-las com uma finalidade específica relacionada à saúde precisa evitar a ideia de que todas as hortelãs são intercambiáveis ou que aumentar a quantidade torna o preparo mais eficaz.
O ponto prático é separar três situações: temperar alimentos, preparar uma infusão tradicional e utilizar um fitoterápico padronizado são coisas diferentes. Se houver sintomas digestivos frequentes ou intenção de usar hortelã-pimenta regularmente como tratamento, a espécie, a forma de preparo e possíveis contraindicações devem ser avaliadas com um profissional de saúde, principalmente quando já existe refluxo ou uso contínuo de medicamentos.




