Cidade histórica brasileira costuma ficar restrita ao litoral. A Cidade de Goiás, também chamada de Goiás Velho, faz diferente. Fundada no início do século XVIII durante o ciclo do ouro, foi capital do estado por quase duzentos anos, preservou mais de 90% do casario barroco-colonial original e é o primeiro núcleo urbano brasileiro reconhecido a oeste da linha do Tratado de Tordesilhas.
Por que Goiás foi reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO?
Pela preservação excepcional do conjunto colonial. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Conjunto Arquitetônico, Paisagístico e Urbanístico do Centro Histórico de Goiás foi tombado em 1978 e reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 16 de dezembro de 2001. Foi o primeiro núcleo urbano oficialmente reconhecido a oeste da linha de demarcação do Tratado de Tordesilhas, que definiu originalmente as fronteiras da colônia portuguesa na América do Sul.
Segundo o IPHAN, o extraordinário conjunto conserva mais de 90% de sua arquitetura barroco-colonial original, tornando-se um mostruário raro do Brasil oitocentista. A cidade também foi elevada a Monumento Nacional por lei federal em 1981, o que somou uma camada extra de proteção ao acervo histórico.

Como o ouro fundou uma cidade e o esgotamento a preservou?
Por um ciclo econômico completo. As origens da cidade estão ligadas às bandeiras que partiram principalmente de São Paulo em busca de ouro no interior brasileiro. A região foi percorrida por Dias Pais entre 1673 e 1681 e por Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, em 1683, quando o ouro foi encontrado.
O povoado nasceu como Vila Boa de Goyaz em 1727 e prosperou durante o ciclo do ouro no século XVIII. Quando as minas se esgotaram, entrou num longo período de estagnação, situação agravada quando perdeu o estatuto de capital em 1937, com a transferência para Goiânia. Foi justamente esse isolamento econômico que preservou o casario colonial: sem crescimento, sem demolições. É o paradoxo que explica por que a cidade guarda um dos acervos coloniais mais autênticos do interior do Brasil.
Quais atrações estruturam o roteiro histórico?
O centro histórico é compacto e pode ser percorrido a pé. Segundo o Ministério do Turismo, os principais pontos são:
- Casa de Cora Coralina: construída por volta de 1782 pelo português Antônio de Souza Telles, foi residência da poeta Cora Coralina e hoje abriga museu com objetos pessoais, manuscritos e móveis originais.
- Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte: templo do século XVIII diante do Largo da Matriz, abriga o Museu de Arte Sacra.
- Catedral de Sant’Ana: sede da Diocese de Goiás, um dos marcos religiosos do centro.
- Palácio Conde dos Arcos: antigo palácio dos governadores da capitania, com mobiliário e ambientes preservados do período colonial.
- Museu das Bandeiras: instalado na antiga Casa de Câmara e Cadeia, guarda acervo sobre o período das bandeiras.
- Igreja de São Francisco de Paula: erguida em outeiro que simboliza o Monte das Oliveiras nas encenações da Semana Santa.
- Santuário de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos: importante templo da religiosidade afro-goiana.
- Ponte do Rio Vermelho: passagem histórica próxima à Casa de Cora Coralina, um dos cartões-postais da cidade.

O que é a Procissão do Fogaréu, o principal evento anual?
A mais famosa tradição religiosa do Centro-Oeste. Segundo a Secretaria de Estado da Cultura de Goiás, a Procissão do Fogaréu tem origem em cerimônias do século XVIII realizadas em Sevilha, na Espanha. Em Goiás, os registros indicam que começou por volta de 1745, foi interrompida no início do século XX e retomada em 1965 por iniciativa da Organização Vilaboense de Artes e Tradições (OVAT).
A procissão acontece na madrugada da Quinta-feira Santa, com as luzes públicas apagadas. Os farricocos, homens encapuzados vestidos com túnicas coloridas, percorrem as ruas de pedra carregando tochas em uma encenação da perseguição a Cristo. Segundo o Goiás Turismo, portal oficial da Secretaria de Estado do Turismo, é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do estado desde 2023.
Onde a poesia de Cora Coralina se mistura à cidade?
Em quase todos os cantos do centro. Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, conhecida como Cora Coralina, nasceu em Goiás em 1889 e passou a maior parte da vida na cidade. Publicou o primeiro livro aos 75 anos, em 1965, e virou uma das vozes literárias mais reconhecidas do Brasil.
A antiga Casa Velha da Ponte, onde ela nasceu e morou, foi tombada pelo IPHAN e transformada em museu. Os poemas escritos ali descrevem os becos, o Rio Vermelho, as sinás donas e a vida cotidiana da antiga capital. É um dos principais pontos do turismo literário do estado e a explicação para o apelido carinhoso da cidade de Goiás Velho.
O que provar na cozinha goiana tradicional?
A gastronomia local combina influências portuguesas, indígenas e da cozinha de tropeiros. Alguns pratos essenciais:
- Empadão goiano: massa recheada com frango, guariroba, linguiça, queijo e azeitona, prato oficial do estado.
- Pequi: fruto do cerrado com sabor marcante, servido em arroz, galinhada e diversos pratos regionais.
- Galinhada com pequi: preparo tradicional com arroz, frango caipira e o fruto amarelo.
- Guariroba: coração da palmeira nativa do cerrado, amargo e usado em recheios e refogados.
- Doces caseiros: goiabada cascão, ambrosia e doces em compota fabricados nas doçarias do centro histórico.
- Bar do Bode e restaurantes do centro: paradas tradicionais que servem a comida vilaboense em ambiente colonial.

Como chegar à antiga capital goiana?
A cidade fica a cerca de 140 km de Goiânia, a atual capital, com acesso pela BR-070. De Brasília, o trajeto é de aproximadamente 320 km pela BR-060 em conexão com a BR-070. O tempo de viagem em ambos os casos gira entre duas e quatro horas.
Os aeroportos mais próximos com voos comerciais são o Aeroporto Internacional de Goiânia (Santa Genoveva) e o Aeroporto Internacional de Brasília (Presidente Juscelino Kubitschek). O acesso final é sempre feito de carro. No entorno, a Serra Dourada oferece cachoeiras e trilhas para quem quer estender o roteiro com natureza do cerrado goiano.
A antiga capital que continua sendo o coração histórico do estado
A Cidade de Goiás oferece o que raramente se encontra em outros municípios brasileiros: um conjunto colonial preservado em mais de 90%, uma procissão religiosa reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial, a casa e a memória de Cora Coralina como âncora literária e o título de único núcleo urbano brasileiro fundado a oeste da linha do Tratado de Tordesilhas com reconhecimento internacional.
Você precisa reservar pelo menos três dias em Goiás Velho, atravessar as ruas de pedra depois do pôr do sol, quando os lampiões acendem, e provar o empadão goiano com pequi em algum casarão do centro histórico.




