O mirtilo ganhou fama como alimento ligado à proteção do cérebro e à melhora da memória principalmente por ser rico em antocianinas, pigmentos da família dos flavonoides. Estudos em humanos encontraram benefícios em alguns testes cognitivos, mas os resultados ainda são mistos e não permitem afirmar que a fruta previna demência ou funcione como tratamento.
Por que o mirtilo passou a ser associado à saúde do cérebro
A cor azul-arroxeada do mirtilo vem principalmente das antocianinas, compostos vegetais com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias estudadas em diferentes áreas da saúde. Pesquisadores investigam se essas substâncias podem influenciar processos relacionados ao envelhecimento cerebral, à circulação sanguínea e à comunicação entre neurônios.
Boa parte da ideia de “proteção neural”, porém, começou em estudos experimentais realizados com células e animais. Esses trabalhos ajudam a identificar possíveis mecanismos, mas não comprovam que comer mirtilo impeça a perda de memória ou proteja contra doenças neurológicas em seres humanos.

Leia também: A forma de comer melancia que pode ajudar na hidratação e aliviar a sensação de inchaço ao longo do dia
O que já foi observado nos estudos sobre memória
Ensaios clínicos realizados com mirtilos, sucos, pós liofilizados e extratos ricos em antocianinas encontraram resultados diferentes conforme a população e o teste utilizado. Entre os efeitos investigados estão memória verbal, função executiva, velocidade de processamento e capacidade de lidar com interferências durante tarefas cognitivas.
- Memória: alguns pequenos estudos encontraram melhora em determinados testes de aprendizagem e recordação após semanas ou meses de consumo de produtos derivados de mirtilo.
- Função executiva: pesquisas também registraram melhora em tarefas que exigem alternar a atenção ou controlar respostas, embora o resultado não apareça em todos os estudos.
- Velocidade de processamento: determinados ensaios com adultos mais velhos encontraram benefícios nessa área após consumo regular de mirtilo.
- Proteção cerebral: ainda não há comprovação de que o mirtilo previna Alzheimer, demência ou outras doenças neurodegenerativas.
Alguns ensaios encontraram melhora em funções cognitivas específicas
Um ensaio clínico randomizado publicado no European Journal of Nutrition avaliou adultos de 60 a 75 anos que consumiram diariamente pó de mirtilo liofilizado equivalente a aproximadamente uma xícara da fruta fresca. Depois de 90 dias, o grupo apresentou melhora em alguns aspectos da função executiva, mas não em todos os resultados avaliados.
Outro estudo com adultos mais velhos e alterações iniciais de memória encontrou melhora em testes de aprendizagem associativa e recordação de palavras após 12 semanas de consumo de suco de mirtilo. A pesquisa, porém, envolveu apenas nove participantes, por isso seus resultados foram considerados preliminares e precisavam ser confirmados em grupos maiores.
Revisões mais amplas mostram que o efeito não é garantido
Quando vários ensaios são analisados juntos, a situação fica menos simples. Uma revisão sistemática com meta-análise sobre antocianinas e cognição encontrou estudos individuais com resultados favoráveis, muitos deles envolvendo mirtilos, mas a análise conjunta não mostrou melhora significativa consistente em memória de trabalho, aprendizagem verbal ou memória imediata e tardia.
Isso significa que o mirtilo pode ter efeitos interessantes em determinados grupos e funções, mas ainda não existe uma resposta única para todas as pessoas. Idade, estado de saúde, quantidade consumida, duração da intervenção e até o tipo de produto usado nos estudos tornam difícil comparar os resultados diretamente. Separamos esse vídeo do canal da Nutricionista Patricia Leite falando mais sobre esse tema:
Um estudo recente reforçou a necessidade de cautela
Em 2026, um ensaio randomizado com adultos mais velhos avaliou o consumo diário de 20 gramas de mirtilo liofilizado durante 24 semanas. Os pesquisadores não encontraram diferenças estatisticamente significativas em biomarcadores sanguíneos relacionados à saúde cerebral, incluindo p-tau181 e neurofilamento leve, entre o grupo que recebeu mirtilo e o placebo.
O resultado é importante porque mostra que estudos positivos anteriores não devem ser traduzidos automaticamente como prova de proteção dos neurônios. A pesquisa sobre mirtilo e cérebro continua ativa, mas os dados disponíveis ainda não sustentam promessas de prevenção de doenças neurodegenerativas.
As antocianinas podem agir por mais de um caminho
Uma das hipóteses é que os flavonoides presentes no mirtilo influenciem processos relacionados ao estresse oxidativo e à inflamação, mecanismos envolvidos no envelhecimento de diferentes tecidos. Também são estudados possíveis efeitos sobre vasos sanguíneos e circulação, que poderiam indiretamente influenciar o funcionamento cerebral.
Outra linha de pesquisa investiga a relação entre metabólitos dessas substâncias e vias envolvidas na sinalização neuronal. Esses mecanismos são biologicamente plausíveis, mas identificar uma ação em laboratório é diferente de demonstrar uma melhora clínica relevante da memória ou impedir a evolução de uma doença.

Como incluir mirtilo na alimentação sem esperar um efeito medicinal
Mirtilos podem entrar normalmente em uma alimentação variada, frescos ou congelados, acompanhando frutas, iogurte, aveia e outras preparações. Não há necessidade de consumir grandes quantidades nem recorrer a extratos concentrados apenas com a expectativa de melhorar a memória, especialmente porque as doses e apresentações estudadas variam bastante.
Também não faz sentido substituir investigação médica por mudanças na alimentação quando surgem esquecimentos frequentes ou perda progressiva de capacidade cognitiva. O mirtilo fornece antocianinas e outros nutrientes interessantes, mas sua relação com memória deve ser vista como uma área promissora de pesquisa, e não como uma forma comprovada de prevenir ou tratar doenças do cérebro.




