Quase toda cidade tem uma história estranha contada de geração em geração, mas poucas decidem transformá-la em política pública. Varginha, no Sul de Minas Gerais, fez exatamente isso com o caso que a tornou conhecida no mundo inteiro, o relato de uma criatura vista por três meninas em janeiro de 1996. Três décadas depois, o episódio virou patrimônio por decreto, ganhou um memorial com planetário e levou a Prefeitura a comprar o terreno onde tudo começou.
Por que um caso de OVNI virou patrimônio de Varginha?
Porque a cidade passou a reconhecer o episódio como parte da própria identidade. Segundo o dossiê de registro da Fundação Cultural de Varginha, uma equipe de pesquisa trabalhou no município entre janeiro e abril de 2023, e o conselho municipal de patrimônio aprovou o registro em reunião de 18 de maio. A decisão foi homologada pelo Decreto Municipal nº 1.628, de 5 de junho de 2023.
O nome do bem registrado ajuda a entender o que foi protegido: “O Caso do E.T. e a identidade varginhense”. O patrimônio imaterial não serve para provar que algo aconteceu, e sim para preservar histórias, símbolos e manifestações que uma comunidade considera seus. No caso de Varginha, o que ficou protegido foi a forma como os moradores passaram a se reconhecer, e a ser reconhecidos, a partir do episódio.

O que a Prefeitura fez com o terreno baldio do caso?
Comprou o lote para transformá-lo em atração turística. De acordo com a Prefeitura de Varginha, a Secretaria Municipal de Turismo e Comércio adquiriu o terreno do bairro Jardim Andere, onde três meninas relataram ter visto a criatura em 1996, com o objetivo de integrá-lo ao roteiro ufológico da cidade.
A proposta é manter o cenário o mais parecido possível com o original, com melhorias e estrutura para receber visitantes. Na mesma comunicação, a Prefeitura descreve a cidade como a “capital brasileira da ufologia”, título que ela própria adotou para promover o turismo temático. Um lote vazio de bairro, que por anos não tinha nenhum atrativo aparente, passou a ser tratado como um dos pontos centrais da história local.
Como uma caixa d’água virou disco voador?
Por decisão de projeto, ainda no começo dos anos 2000. Segundo o Portal do Turismo de Varginha, a Nave do ET é um reservatório de água suspenso construído pela Copasa, a companhia de saneamento de Minas, na Praça Marechal Floriano. O projeto é de 2001, e as obras começaram em 2003.
A estrutura tem uma coluna cilíndrica que sustenta uma peça em forma de nave espacial, semelhante às representações clássicas de OVNIs. O mesmo portal conta que as estátuas do ETzinho, espalhadas pela cidade, nasceram de um desenho do cartunista e ilustrador Paulo Antônio de Carvalho. Aos poucos, a imagem da criatura saiu do noticiário e passou a fazer parte do mobiliário urbano.
O que visitar no roteiro do ET em Varginha?
As atrações ligadas ao caso estão espalhadas pela área urbana e podem ser visitadas em um único dia. O Portal do Turismo e a Prefeitura destacam os principais pontos.
Por que o Memorial do ET também fala de astronomia?
Porque o espaço foi pensado para ir além da curiosidade. Segundo o Portal do Turismo de Varginha, o Memorial do ET tem um planetário que exibe filmes educativos e culturais, e recebe desde crianças da rede municipal de ensino até ufólogos. O prédio também abriga a Secretaria de Turismo e Comércio e leva o nome do radialista José Galvão Conde.
A combinação entre mistério e ciência ajuda a explicar o sucesso do lugar. Em entrevistas à imprensa, a secretária de Turismo, Rosana Carvalho, afirmou que o livro de registro do memorial soma mais de 100 mil visitantes, de todos os estados brasileiros e de pelo menos 38 países. Grupos escolares precisam agendar a visita com antecedência pela Secretaria de Turismo.

Como é o clima de Varginha ao longo do ano?
O clima tem verões chuvosos e invernos secos e amenos. Janeiro concentra 255 mm de chuva em média, enquanto julho registra apenas 15 mm, com mínima de 12°C.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Uma cidade que escolheu abraçar a própria lenda
Varginha poderia ter tentado esquecer o episódio que a colocou nos noticiários do mundo, mas preferiu transformá-lo em identidade. O relato de 1996 virou patrimônio imaterial por decreto, inspirou uma caixa d’água em forma de nave e ganhou um memorial que mistura mistério e astronomia. Agora, com o terreno do Jardim Andere nas mãos da Prefeitura, a história que começou em um lote vazio ganha endereço oficial no roteiro turístico.
Você precisa subir até o Memorial do ET no fim da tarde, olhar a cidade do alto e depois passar pela Nave da Praça Marechal Floriano para entender como Varginha transformou um mistério em parte do próprio jeito de ser.




