No centro geográfico do Rio Grande do Sul, Santa Maria concentra sobreposições raras no interior brasileiro: é a cidade onde surgiu a paleontologia da América do Sul, onde uma companhia ferroviária belga ergueu uma vila operária inteira no início do século XX, onde nasceu a aviação militar do país e onde funciona a primeira universidade federal criada no interior do Brasil. Está a 290 km de Porto Alegre, no coração do estado.
Por que Santa Maria é chamada de Coração do Rio Grande?
Pela localização geográfica exata. A cidade fica no centro do estado, funcionando como entroncamento rodoviário e ferroviário entre o litoral, a fronteira com a Argentina e o Uruguai e o norte gaúcho. Foi essa posição que fez o município se tornar, no fim do século XIX, o ponto de cruzamento de todas as linhas férreas do estado.
A origem urbana remonta a 1797, quando uma comissão demarcatória luso-espanhola estabeleceu um acampamento militar na atual Praça Saldanha Marinho. O povoado cresceu ao redor de uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição e virou município em 1858. Segundo o portal oficial da Prefeitura Municipal de Santa Maria, a chegada da ferrovia no fim do século XIX transformou a cidade em capital regional e trouxe imigrantes belgas, alemães, italianos e poloneses que moldaram a identidade atual.

Como uma cidade catarinense abriga o primeiro fóssil das Américas?
Porque suas rochas guardam registros do início da era dos dinossauros. Em 1902, pesquisadores coletaram na cidade o primeiro fóssil de réptil terrestre descrito na América do Sul, um Rincossauro. O achado marcou o nascimento da paleontologia brasileira e transformou a região em um dos principais destinos científicos do país. As rochas locais preservam fósseis com mais de 230 milhões de anos, do período Triássico, quando surgiram os primeiros dinossauros do planeta.
Na região foi descoberto o Estauricossauro, primeiro dinossauro brasileiro identificado, pelo paleontólogo Llewellyn Ivor Price, natural da cidade. A área é o núcleo do Geoparque Paleorrota. Segundo o Ministério do Turismo, o Paleorrota se estende por aproximadamente 80 mil km², sendo apresentado como o maior geoparque do mundo. Reúne mais de 20 sítios paleontológicos abertos à visitação em Santa Maria e municípios vizinhos, e é gerido pelo Instituto Paleorrota.
O que é a Vila Belga, patrimônio ferroviário de 1905?
Uma vila operária inteira construída por uma companhia belga. Segundo a Prefeitura Municipal de Santa Maria, a Vila Belga começou a ser construída em 1905, idealizada pelo engenheiro belga Gustave Vauthier, diretor da Compagnie Auxiliaire des Chemins de Fer au Brésil, arrendatária da Viação Férrea do Sul do Brasil. O objetivo era oferecer moradia aos empregados intermediários da rede ferroviária.
O conjunto reúne 84 residências geminadas em estilo belle époque, seguindo padrões arquitetônicos das vilas operárias belgas e francesas da época. As edificações preservam paredes externas em alvenaria de tijolo, divisões internas em madeira, aberturas amplas e ornamentos originais. Foi tombada como patrimônio histórico municipal pela Lei 2.983 de 1988, recebeu tombamento estadual pelo IPHAE em 2020 e, em 2022, foi reconhecida como patrimônio internacional pelo governo da Bélgica, único conjunto arquitetônico do gênero fora da Europa.
Como a cidade se tornou o berço da aviação militar brasileira?
Pela criação da primeira escola do país. Em 1913, o Exército Brasileiro instalou em Santa Maria a primeira Escola de Aviação Militar, o que faz do município o marco inicial da aviação militar no Brasil. Até hoje a cidade é considerada uma das principais praças militares do país, com forte presença do Exército e da Aeronáutica.
Essa tradição atraiu para a cidade o Colégio Militar de Santa Maria, referência de ensino no Sul, e complexos militares que fazem do município um dos maiores efetivos das Forças Armadas fora das capitais. A vocação militar convive com a universitária: a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), criada em 1960, foi a primeira universidade federal criada no interior do Brasil e hoje é referência nacional em ensino e pesquisa, com cerca de 30 mil alunos.

Como está a cidade no ranking nacional de qualidade de vida?
Entre as cidades gaúchas mais bem colocadas no maior levantamento independente do país. Segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), responsável pelo IPS Brasil 2026, Santa Maria aparece entre os municípios com destaque no Rio Grande do Sul entre os 5.570 municípios brasileiros avaliados. O ranking considera 57 indicadores sociais e ambientais agrupados em três dimensões: Necessidades Humanas Básicas, Fundamentos do Bem-Estar e Oportunidades.
O bom desempenho nas dimensões de educação, acesso ao ensino superior e serviços urbanos se explica pela concentração acadêmica. Além da UFSM, o município abriga a Universidade Franciscana (UFN), fundada em 1954, o campus da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), o Instituto Federal Farroupilha (IFFar) e o Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS). É uma das maiores populações estudantis do interior gaúcho.
Quais atrações estruturam o roteiro cultural?
A cidade concentra igrejas, teatros e museus centenários. Os principais pontos são:
- Basílica Nossa Senhora Medianeira: inaugurada em 1985, homenageia a padroeira do Rio Grande do Sul, com a Romaria Estadual da Medianeira no segundo domingo de novembro, que reúne milhares de fiéis.
- Catedral Diocesana: inaugurada em 1909, com arquitetura eclética que mescla elementos barrocos e neoclássicos, abriga afrescos do italiano Aldo Locatelli.
- Theatro Treze de Maio: templo cultural inaugurado em 1890, em estilo neoclássico, restaurado nos anos 1990.
- Planetário UFSM: inaugurado em 14 de dezembro de 1971, foi o primeiro planetário do Rio Grande do Sul e o primeiro em campus universitário brasileiro.
- Museu Educativo Gama D’Eça: acervo paleontológico, arqueológico e histórico com 6 mil peças, vinculado à UFSM.
- Parque Itaimbé: principal área verde do centro urbano, com feiras, eventos culturais e apresentações musicais.
- Parque da Medianeira: entorno do santuário, com trilhas e infraestrutura para os romeiros.
O que provar na gastronomia gaúcha da região central?
A cozinha combina o tradicional churrasco pampeano com a herança dos imigrantes italianos, alemães, poloneses e árabes. Alguns pratos e produtos essenciais:
- Churrasco tradicional: cortes nobres da carne bovina servidos em churrascarias e assadores particulares.
- Costela fogo de chão: preparo demorado herdado dos peões campeiros gaúchos.
- Massas italianas: em restaurantes da colônia italiana, principalmente em bairros como Camobi e Pinhal Grande.
- Chimarrão: bebida diária dos gaúchos, servida em quase todos os cantos da cidade.
- Vinhos gaúchos: safras da região da Serra Gaúcha, disponíveis nos restaurantes tradicionais.
- Doces coloniais: cucas, geleias e conservas produzidas nas colônias rurais próximas.
Como chegar a Santa Maria?
A cidade fica a cerca de 290 km de Porto Alegre, com acesso pela BR-158, pela BR-287 e pela BR-392. É um dos maiores entroncamentos rodoviários do Rio Grande do Sul, com ligação direta para Uruguaiana, Rio Grande, Cruz Alta e a fronteira com a Argentina.
Para quem chega de avião, o Aeroporto Regional de Santa Maria opera voos comerciais com Porto Alegre e São Paulo. A alternativa com maior variedade de voos é o Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre. A cidade é servida por linhas rodoviárias interestaduais que a conectam a todos os grandes centros do Sul e do Sudeste.
A cidade que junta fósseis, ferrovia e universidade
Santa Maria oferece a combinação rara no interior brasileiro: uma vila operária belga preservada há mais de um século, o núcleo científico da paleontologia sul-americana, o berço da aviação militar do país, a primeira universidade federal do interior e a padroeira do Rio Grande do Sul reunida a poucos quilômetros do centro. É a cidade que provou como interior gaúcho pode ser, ao mesmo tempo, patrimônio internacional, laboratório científico e capital estudantil.
Você precisa reservar pelo menos três dias em Santa Maria, dividir o tempo entre uma caminhada pela Vila Belga ao entardecer, uma visita aos sítios paleontológicos com um guia da UFSM e uma parada na Basílica da Medianeira, terminando com um churrasco tradicional em algum restaurante da região central.




