Rota Romântica costuma remeter direto a Gramado e Canela. Antes de chegar lá, na entrada da Encosta da Serra gaúcha, o pequeno município de Ivoti guarda em uma só cidade o maior aglomerado de casas em estilo enxaimel do país, uma ponte tombada pelo IPHAN desde 1986 e a maior colônia japonesa do Rio Grande do Sul, tudo a menos de uma hora de Porto Alegre.
Como o Núcleo de Casas Enxaimel virou o maior do país?
Segundo a Prefeitura Municipal de Ivoti, o Núcleo é o maior aglomerado de casas na técnica construtiva enxaimel no Brasil, conforme levantamento da extinta Fundação Nacional Pró-Memória, órgão que antecedeu a atual estrutura do IPHAN. As sete edificações foram construídas entre 1826 e 1950 no bairro Feitoria Nova, restauradas na década de 1990 e reabertas ao público como museu, casa do artesão e departamentos culturais.
A técnica veio direto do Hunsrück, região da Alemanha de onde saíram os primeiros colonos em 1826. As paredes são erguidas com vigas de madeira aparente, geralmente guajuvira e angico, encaixadas sem pregos e preenchidas com tijolos ou uma mistura de barro e palha. É a arquitetura mais fotografada de Ivoti e a razão pela qual a Prefeitura designa o local como principal ponto turístico do município.

Por que Dom Pedro II mandou construir uma ponte em Ivoti?
Para dar vazão ao escoamento da produção colonial rumo a Porto Alegre. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a construção da Ponte do Imperador começou em 1855, foi concluída em 1864 e recebeu esse nome em homenagem a Dom Pedro II, que destinou 30 contos de réis para a obra. É uma ponte em cantaria de pedra grês, com três arcos plenos para a passagem do Arroio Feitoria.
De acordo com a Prefeitura Municipal de Ivoti, a ponte tem 148 metros de comprimento e largura que varia de 7,7 a 17,2 metros, foi construída em pedra grés empilhada e encaixada, com cimento usado apenas nas três colunas que ficam dentro da água. Foi tombada pelo IPHAN em 1986 e ainda hoje permite a passagem de veículos, ligando o Centro ao Núcleo de Casas Enxaimel.
Quais atrações não podem ficar de fora do roteiro?
O centro de Ivoti pode ser percorrido a pé, e os núcleos rurais ficam a poucos minutos de carro. Segundo o portal oficial da Prefeitura de Ivoti, os pontos abaixo são os principais atrativos abertos diariamente à visitação:
- Núcleo de Casas Enxaimel: sete casas restauradas no bairro Feitoria Nova, com acesso pela Rua Tuiuti, próximas à Ponte do Imperador.
- Ponte do Imperador: obra de cantaria de pedra tombada pelo IPHAN, um dos cartões-postais do Vale do Sinos.
- Museu Cláudio Oscar Becker: instalado desde 1995 em uma das casas enxaimel, reconstitui a vida doméstica dos colonos com móveis e utensílios do início do século XX.
- Casa Amarela: construção de 1907 em estilo eclético, restaurada em 2007 com recursos do Consulado Alemão após incêndio.
- Praça Concórdia: praça mais antiga da cidade, inaugurada em 1959, na Avenida Presidente Lucena.
- Pórtico de Ivoti: obra de dois pilares e torre de 16 metros com relógio de mármore, na entrada da cidade pela BR-116.
- Igreja São Pedro Apóstolo: templo católico do centro histórico, com vista aberta da cidade a partir do adro.
- Rota Enxaimel: cinco itinerários autoguiados inaugurados em 2021, entre 5 e 20 km, feitos a pé, de bicicleta ou de carro.
Como a colônia japonesa entrou nesta cidade alemã?
Chegou em 1966. Segundo a Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul, Ivoti recebeu a primeira leva de imigrantes japoneses no Vale das Palmeiras, que contribuiu para diversificar a produção agrícola e a evolução cultural do município. Essas famílias formaram a maior colônia japonesa do estado, hoje concentrada no bairro Palmares.
A herança dupla explica um município onde é comum ouvir conversas em dialeto alemão nas ruas e, no último domingo do mês, encontrar peixe fresco preparado ao estilo japonês nas feiras da colônia. É a combinação que rendeu à cidade o apelido de metade alemã, metade japonesa, sem que uma cultura tenha se sobreposto à outra.

O que provar na gastronomia local?
A cena gastronômica cruza receitas alemãs, italianas e japonesas com produtos coloniais da própria região. Alguns pratos e destinos que valem a parada:
- Marreco recheado: prato típico da imigração alemã no Vale dos Sinos, com farofa de miúdos e acompanhado de repolho roxo.
- Cuca alemã: pão doce com farofa açucarada por cima, vendido nas confeitarias do centro histórico.
- Sushi e temaki: preparados com peixe fresco na feira mensal da colônia japonesa, no bairro Palmares.
- Cachaça artesanal: a cidade sedia o Festival da Cachaça em agosto, referência regional do produto.
- Feira Colonial mensal: no segundo domingo de cada mês, reúne produtos artesanais, coloniais e gastronomia tradicional.
Quais festas ditam o calendário do turismo?
A cidade concentra sua agenda cultural em torno das heranças alemã e japonesa. Segundo a Câmara Municipal de Ivoti, o roteiro turístico foi elaborado para o visitante absorver a história local e reconhecer os empreendimentos tradicionais.
- Kolonistenfest (Festa do Colono): em julho, homenageia os imigrantes alemães e japoneses.
- Festival da Cachaça e Feira do Livro: em agosto, reúne produtores locais e programação literária.
- Feira das Flores: em outubro, celebra o apelido de Cidade das Flores.
- Natal do Coração: em dezembro, com iluminação temática no centro histórico.
- Feira da Colônia Japonesa: no último domingo de cada mês, no bairro Palmares.
Como chegar à Cidade das Flores?
Ivoti fica a cerca de 55 km de Porto Alegre, com acesso pela BR-116 em um trajeto de aproximadamente uma hora. Segundo a Secretaria de Turismo do RS, é uma das 14 cidades que compõem a Rota Romântica, roteiro turístico oficial que segue até São Francisco de Paula, passando por Nova Petrópolis, Gramado e Canela.
Quem chega de avião pode desembarcar no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, a cerca de 46 km, ou no Aeroporto Regional Hugo Cantergiani, em Caxias do Sul, a aproximadamente 63 km. A melhor forma de circular pela cidade e pelos núcleos rurais é de carro.
A parada obrigatória antes da serra
Ivoti reúne o que Rota Romântica costuma prometer nas cidades mais famosas do alto da serra, mas em menor escala e com uma combinação cultural que nenhum outro município da região oferece: casas enxaimel restauradas, ponte imperial tombada e a maior colônia japonesa do estado convivendo com a herança alemã de quase duzentos anos.
Você precisa parar em Ivoti antes de subir a serra e reservar pelo menos um dia inteiro para atravessar a Ponte do Imperador, caminhar pelo Núcleo de Casas Enxaimel e provar o marreco recheado no fim da tarde.




