Você já ouviu falar de alguém que foi parar no pronto‑socorro com suspeita de embolia pulmonar e, na verdade, estava menstruada? A endometriose torácica é uma condição rara e subdiagnosticada que faz exatamente isso: provoca sintomas respiratórios cíclicos que mimetizam asma, embolia, pneumonia e até infarto. O tecido endometrial, aquele que normalmente reveste o útero por dentro, migra para o tórax e responde aos mesmos hormônios do ciclo menstrual, causando dor, falta de ar e, nos casos mais graves, pneumotórax.
O que é a endometriose torácica?
A endometriose é caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. Quando esse tecido se implanta no parênquima pulmonar, na pleura ou no diafragma, surge a chamada síndrome da endometriose torácica. Trata‑se de uma manifestação extrapélvica que afeta entre 3% e 6% das mulheres em idade reprodutiva, embora muitos especialistas acreditem que a prevalência real seja maior devido à dificuldade diagnóstica.

Por que a endometriose torácica é tão confundida com outros problemas respiratórios?
O principal fator de confusão é a natureza cíclica dos sintomas. Uma mulher que chega ao consultório com falta de ar e dor torácica dificilmente terá seu ciclo menstrual investigado como gatilho. Os sintomas aparecem de forma intermitente, coincidindo com a menstruação, e depois desaparecem, o que leva médicos a rotularem o quadro como asma alérgica, ansiedade, costocondrite ou até embolia pulmonar.
Além disso, exames como radiografia de tórax e tomografia computadorizada podem ser normais fora do período menstrual. As lesões endometrióticas torácicas são pequenas e muitas vezes só se tornam visíveis durante a videotoracoscopia, um procedimento invasivo que não faz parte da investigação inicial de sintomas respiratórios inespecíficos.
Quais são os sintomas que indicam a possibilidade de endometriose torácica?
O sinal mais característico é a relação temporal com a menstruação. Se os sintomas abaixo ocorrerem repetidamente no período perimenstrual, a endometriose torácica deve entrar no diagnóstico diferencial:
- Pneumotórax catamenial: falta de ar súbita e dor torácica em facada, geralmente no lado direito.
- Hemoptise catamenial: tosse com sangue durante a menstruação.
- Hemotórax catamenial: acúmulo de sangue na pleura, levando a dor e dificuldade respiratória.
- Dor escapular ou no ombro direito: frequentemente ignorada ou atribuída a problemas ortopédicos.
- Nódulos pulmonares: detectados em exames de imagem, podendo ser confundidos com tumores.
Mulheres com endometriose pélvica já diagnosticada e que apresentam sintomas torácicos devem ser investigadas com atenção redobrada. A presença de lesões diafragmáticas é comum e a cirurgia torácica videoassistida frequentemente revela implantes que não eram visíveis em exames de imagem convencionais.
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Como é feito o diagnóstico da endometriose torácica?
O diagnóstico começa por uma história clínica detalhada, com atenção ao ciclo menstrual e à temporalidade dos sintomas respiratórios. Sem esse passo inicial, a investigação dificilmente chegará à causa real. Exames de imagem como a ressonância magnética pélvica com cortes altos podem identificar lesões diafragmáticas, mas o padrão‑ouro continua sendo a videotoracoscopia (VATS) realizada durante a menstruação.
Uma ampla revisão de literatura publicada no Journal of Clinical Medicine reforça que a inspeção da superfície diafragmática deve ser rotina em toda mulher com pneumotórax recorrente, pois a omissão desse passo leva ao subdiagnóstico e a anos de tratamentos equivocados.
No vídeo a seguirm, o perfil do Renato Hosoume, com mais de 80 mil inscritos, fala um pouco sobre o assunto:
Quais são as opções de tratamento disponíveis?
O tratamento combina abordagens medicamentosas e cirúrgicas. A terapia hormonal com contraceptivos orais combinados, progestágenos ou análogos do GnRH pode suprimir a atividade do tecido endometrial ectópico e interromper os sintomas cíclicos. Em casos refratários ou com pneumotórax recorrente, a cirurgia torácica videoassistida permite a ressecção das lesões, pleurodese e reparo diafragmático.
O manejo multidisciplinar envolvendo ginecologista, cirurgião torácico e pneumologista é essencial para melhores desfechos. Mesmo após a cirurgia, a terapia hormonal de manutenção costuma ser recomendada, já que a taxa de recorrência pode chegar a 67% em algumas séries de casos sem a supressão medicamentosa.










