A 130 km de João Pessoa, no agreste da Paraíba, uma cidade a 551 metros de altitude combina duas identidades que parecem incompatíveis. Campina Grande abriga o maior São João do planeta e um dos principais polos tecnológicos do Nordeste, apelidado de Vale do Silício brasileiro pela revista Newsweek ainda em 2001.
30 dias de forró e uma quadrilha que entrou para o Guinness
O São João começou pequeno e virou colosso. A festa foi criada em 1983 e, em 1987, entrou no calendário oficial do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur). Hoje se estende por cerca de 30 dias ininterruptos em junho no Parque do Povo, com palcos de forró pé de serra, quadrilhas, cidade cenográfica e barracas de comida típica que atraem cerca de 2 milhões de visitantes por edição.
Os recordes explicam o título. Em 2013, Campina Grande entrou para o Livro dos Recordes com a maior quadrilha junina do mundo, reunindo mais de 700 casais em uma única dança no Parque do Povo. Em 2022, o RankBrasil confirmou a festa como a maior do gênero no país, marca que a Prefeitura de Campina Grande divulgou como consagração do título de Maior São João do Mundo.

O apelido de Vale do Silício veio da Newsweek em 2001
A vocação tecnológica é anterior ao boom de startups do país. Já em 2001, uma edição da revista americana Newsweek apontou a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) entre nove tecnopolos mundiais que representavam uma nova visão para a tecnologia. Em 2003, a mesma publicação reafirmou o apelido de Vale do Silício brasileiro.
O motor é a universidade. A UFCG nasceu oficialmente em 9 de abril de 2002, pela Lei nº 10.419, quando se desmembrou da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Suas raízes vêm ainda de 1953, com a fundação da Escola Politécnica da Paraíba. Hoje, está entre as 9% melhores instituições do mundo em ensino e pesquisa, e ocupa a segunda posição do Nordeste em ciência da computação e engenharia elétrica no Ranking Universitário Folha.
A Feira Central que virou Patrimônio Cultural do Brasil
Se o São João dura 30 dias, a Feira Central acontece o ano inteiro, de segunda a sábado. Espalhada por cerca de 75 mil m² em nove ruas paralelas e perpendiculares, a chamada Feira das Feiras é ponto de encontro entre o litoral e o sertão paraibano, comércio de tudo que se possa imaginar em couro, cerâmica, ervas, cordel, algodão e comida regional.
O reconhecimento veio em 27 de setembro de 2017, quando o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) registrou a Feira Central como Patrimônio Cultural do Brasil, inscrevendo-a no Livro de Registro dos Lugares. A decisão do Conselho Consultivo foi unânime, depois de um processo iniciado ainda em 2007 pela Prefeitura Municipal.

Do Ouro Branco à Rainha da Borborema
A economia local tem raízes surpreendentes. Antes da tecnologia, Campina Grande foi um dos maiores centros produtores de algodão do Brasil, o chamado Ouro Branco, e chegou a exportar o produto para Europa e Estados Unidos no início do século XX. A cidade foi elevada à categoria de município em 1864 e cresceu como entreposto comercial entre o agreste e o sertão nordestino.
Esse peso lhe rendeu o apelido de Rainha da Borborema, referência ao Planalto da Borborema em que está encravada, a 551 metros de altitude. A herança do algodão é preservada no Museu do Algodão, instalado em uma antiga estação ferroviária no centro. A altitude também explica outra particularidade: a cidade tem clima ameno, com noites frescas o ano inteiro, algo raro no interior do Nordeste.
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O São João do Metaverso e a criatividade paraibana
A pandemia forçou o mundo a se reinventar e Campina Grande criou uma resposta pioneira. Durante o período de restrições sanitárias, a cidade realizou o São João no Metaverso, uma versão virtual em três dimensões da festa junina, com apresentações de artistas, ambientes recriados do Parque do Povo e interação entre avatares de espectadores conectados de vários pontos do planeta.
A solução, elogiada nacionalmente, mostrou o casamento improvável entre tradição nordestina e tecnologia de ponta que hoje virou marca da cidade. Foi o mesmo espírito que anos antes fez da Uncisal, da UFCG e de outras instituições regionais berço de startups que hoje exportam software e soluções para clientes de várias partes do mundo.
Da Borborema para o mapa do país
Campina Grande é o raro exemplo de cidade brasileira que soube crescer sem abrir mão da própria identidade. Forró, quadrilha e cordel dividem espaço com startups, pesquisadores e centros de tecnologia sem que uma coisa apague a outra.
Você precisa passar um dia na Feira Central e uma noite no Parque do Povo para entender como uma cidade do agreste paraibano se tornou capital cultural e tecnológica ao mesmo tempo.



