Quem passa pelas ruas centrais de Araraquara dificilmente imagina que, sob os pés, existem marcas deixadas há cerca de 135 milhões de anos. As calçadas feitas de arenito preservam pegadas fossilizadas de dinossauros, enquanto os antigos oitis criam um corredor verde em uma das vias mais conhecidas do interior paulista. Conhecida como Morada do Sol, a cidade fica a aproximadamente 270 km de São Paulo e reúne cerca de 252 mil moradores.
Como dinossauros foram parar nas calçadas de Araraquara?
Pesquisas da UFSCar apontam que Araraquara possui aproximadamente mil pegadas de dinossauros catalogadas. As marcas ficaram preservadas em pedras de arenito da Formação Botucatu, material retirado de pedreiras locais desde o século XIX e utilizado no calçamento de ruas e guias da cidade. Entre os fósseis identificados estão rastros de celurossauros, pequenos dinossauros que viveram entre os períodos Jurássico e Cretáceo.
A paisagem que existia ali há milhões de anos era completamente diferente da atual. A região era ocupada por um enorme deserto, onde áreas úmidas permitiram que as pegadas ficassem marcadas na areia antes de serem soterradas. Processos geológicos posteriores endureceram o material e conservaram os rastros. Hoje, o Boulevard dos Oitis, na Rua Voluntários da Pátria, conhecida como Rua 5, funciona como um museu a céu aberto, com placas que ajudam a identificar as pegadas e os animais associados a elas. A importância desse patrimônio fez com que as lajes fossilíferas passassem a ser protegidas por legislação municipal, que exige análise técnica antes de qualquer remoção.

O que existe por trás da fama de cidade boa para morar?
Os indicadores ajudam a explicar por que Araraquara aparece entre os municípios mais desenvolvidos do interior paulista. O IDHM de 0,815, classificado como muito alto pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acompanha uma evolução na expectativa de vida, que passou de 74 para quase 78 anos entre os censos de 2000 e 2010. A rede pública de saúde também atende a população regional, com investimentos em telemedicina e unidades de pronto atendimento.
A presença da Unesp, com cursos como odontologia e ciências farmacêuticas reconhecidos internacionalmente, acrescenta um perfil universitário à cidade e movimenta sua vida cultural. A economia também deixou de depender apenas da cana-de-açúcar e da laranja: Araraquara desenvolveu um polo de manutenção aeronáutica e abriga unidades de empresas como Cutrale e Heineken, ampliando as oportunidades para quem escolhe viver no município.
Por que a Morada do Sol ainda preserva um jeito de cidade do interior?
O próprio nome ajuda a entender a identidade de Araraquara. De origem tupi, “Aracoara” é associado a significados como “Toca das Araras” e “Morada do Sol”. A luminosidade intensa faz parte da paisagem cotidiana, enquanto as avenidas largas e arborizadas ajudam a manter um deslocamento mais tranquilo. O pôr do sol também ganhou fama entre moradores e visitantes como um dos mais bonitos do interior paulista.
A cidade ainda carrega uma história incomum no transporte coletivo. A Companhia Trólebus de Araraquara (CTA) começou a operar em 1959 e chegou a manter 118 km de linhas, transportando mais de 46 mil passageiros por dia no auge dos anos 1980. Araraquara foi a única cidade brasileira a ter toda a frota de transporte público formada por ônibus elétricos. O sistema acabou desativado em 2000, mas parte dessa história permanece preservada no Museu do Trólebus.
O vídeo é do canal Cidades do Interior, que conta com cerca de 14 mil inscritos, e apresenta os principais motivos pelos quais vale a pena morar ou visitar a cidade:
O que fazer no tempo livre sem sair da cidade?
A Morada do Sol oferece programas que vão de paleontologia a gastronomia de estrada, quase sempre a poucos minutos do centro.
- Boulevard dos Oitis (Rua 5): túnel verde formado por oitis centenários sobre calçamento de paralelepípedos de granito. Patrimônio tombado e cartão-postal da cidade.
- Museu de Arqueologia e Paleontologia (MAPA): acervo com 36 mil peças, incluindo pegadas fossilizadas e fósseis de diversas localidades e períodos geológicos.
- Parque do Basalto: antiga pedreira transformada em área de lazer com paredões de rocha vulcânica, cachoeira e trilhas ecológicas.
- Museu Ferroviário: instalado na antiga estação de trem, preserva locomotivas e vagões que contam a história do café sobre trilhos.
- Coxinhas Douradas de Bueno de Andrada: no distrito a 20 km do centro, a antiga estação ferroviária virou ponto de peregrinação gastronômica. Milhares de pessoas vão ao local todos os anos para comer as coxinhas mais famosas da região.

Quando o sol da Morada dá trégua?
O clima é quente a maior parte do ano, com verões chuvosos e invernos secos. As tardes de calor intenso pedem sombra, e o Boulevard dos Oitis se torna o refúgio natural do centro.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar ao centro geográfico de São Paulo?
Araraquara fica no km 270 da Rodovia Washington Luís (SP-310), a cerca de 3h30 de São Paulo e 90 km de Ribeirão Preto pela SP-255. A cidade conta com aeroporto regional (Bartholomeu de Gusmão) e rodoviária com linhas diretas para a capital e cidades vizinhas como São Carlos, a 45 km.
Uma cidade que cabe debaixo de um túnel de árvores
Araraquara é daqueles lugares onde o moderno convive com o pré-histórico sem estranhamento. Pegadas de 135 milhões de anos dividem a calçada com estudantes da Unesp, e o pôr do sol que batizou a cidade continua sendo o melhor programa gratuito do dia.
Se você procura uma cidade de porte médio no interior paulista com vida universitária, urbanismo bem cuidado e histórias que nenhum livro didático consegue resumir, vale caminhar pelo Boulevard dos Oitis e prestar atenção no chão.




