Ao registrar o enteado por puro afeto, Carlos não imaginava que passaria a dever a pensão alimentícia do padrasto de forma definitiva ao lado do genitor de sangue. Anos depois, a cobrança financeira veio à tona durante o divórcio da família. A história é fictícia, mas ilustra como o reconhecimento socioafetivo produz obrigações completas na Justiça brasileira.
Como nasceu a decisão de Carlos de registrar o enteado?
Quando começou a conviver com o pequeno Lucas, então com quatro anos, Carlos assumiu voluntariamente todas as tarefas paternas. O carinho diário transformou a convivência em uma relação de verdadeiro pai e filho, repleta de dedicação sincera.
Para incluir o garoto no convênio médico e oficializar o vínculo no cartório, ele formalizou a inclusão de seu nome na certidão. Ele confiava que as decisões do Supremo Tribunal Federal viam o ato apenas como uma homenagem familiar.

O que aconteceu quando a união chegou ao fim?
Quase dez anos depois, o casamento de Carlos terminou e a guarda do jovem ficou com a mãe. Para surpresa do empresário, a ação de alimentos exigiu dele o pagamento mensal de pensão alimentícia integral para o adolescente.
Ele acreditava que o genitor biológico, que sempre pagou um valor mensal, permaneceria como o único devedor. Ao procurar orientação, descobriu que o registro em cartório criou uma obrigação jurídica definitiva que não se desfaz com o fim do relacionamento.
O que a legislação e os tribunais dizem sobre a multiparentalidade?
A resposta para o impasse de Carlos foi fixada no julgamento do Tema 622 de repercussão geral. O tribunal definiu que a paternidade socioafetiva não retira a responsabilidade do pai biológico e autoriza a cumulação dos alimentos.
Além disso, o artigo 227 da Constituição Federal proíbe qualquer distinção entre filhos biológicos e adotivos. Ao assumir a filiação civil, o padrasto passa a ter os mesmos deveres legais atribuídos ao genitor de sangue.

Quais são os critérios para a divisão dos alimentos entre os dois pais?
A fixação dos valores segue as regras gerais de alimentos descritas no Código Civil brasileiro. O juiz avalia a necessidade do jovem e a renda de cada pai, estabelecendo uma proporção equilibrada entre os responsáveis.
Os critérios analisados na fixação da quantia envolvem os seguintes pontos:
- Capacidade financeira de cada genitor para suportar os custos sem prejuízo próprio.
- Necessidades reais do filho para moradia, educação, saúde e lazer.
- Proporcionalidade da cota calculada individualmente para o pai biológico e o padrasto registral.
As normas familiares existem para punir quem acolhe uma criança?
As regras da multiparentalidade não foram criadas para desestimular o afeto. Elas existem para garantir a proteção integral da criança, impedindo que jovens fiquem desamparados caso os adultos decidam romper os laços amorosos no futuro.
No direito brasileiro, a paternidade não pode ser exercida pela metade. Quem escolhe registrar assume o bônus do convívio e o ônus do sustento, assegurando que o interesse do menor prevaleça sobre qualquer conflito entre os adultos.
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O que muda quando comparamos a atitude de Carlos com o caminho legal?
A diferença entre a postura de Carlos e as exigências da lei não está na boa intenção, mas no desconhecimento sobre a extensão dos efeitos patrimoniais decorrentes da filiação registral.
A comparação entre a suposição do morador e o que a Justiça determina fica evidente na tabela:
| Etapa | O que Carlos fez | O que a Justiça determina |
|---|---|---|
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Registro
Inclusão em certidão
|
Registrou sem avaliar deveres |
Gera vínculo de filiação pleno |
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Responsabilidade
Divisão do sustento
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Presumiu encargo exclusivo do pai |
Permite cobrança de ambos os pais |
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Desconstituição
Tentativa de cancelamento
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Tentou revogar após o divórcio |
Mantém o registro irrevogável |
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Alimentos
Definição da pensão
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Negou obrigação financeira |
Fixa valor proporcional aos ganhos |
O que se aprende com a história de Carlos?
A história de Carlos é fictícia, mas retrata uma surpresa que atinge famílias em todo o país. O carinho dele não era o problema. O erro foi desconhecer que a filiação socioafetiva produz vínculos definitivos e inseparáveis da obrigação alimentar.
Quem realmente quer reconhecer a filiação socioafetiva precisa seguir esse roteiro: buscar assistência jurídica prévia, compreender a irrevogabilidade do registro e formalizar a declaração perante o cartório com total ciência dos deveres. É um caminho mais burocrático do que um impulso afetivo. Mas protege a dignidade de todos.




