Henrique Vasconcelos gastou R$ 120 mil na reforma do apartamento que comprou para morar com a família e decidiu trocar todo o piso antes da mudança. Poucas semanas depois, a vizinha do andar inferior começou a reclamar de passos e móveis que, segundo ela, passaram a ser ouvidos com muito mais intensidade.
As reclamações começaram depois da troca do piso
Henrique, de 41 anos, havia contratado uma empresa para retirar o revestimento antigo da sala, dos quartos e do corredor. O projeto fazia parte de uma reforma completa, que também incluía marcenaria, pintura, iluminação e alterações na cozinha.
Quando a obra terminou e os primeiros móveis foram levados para o imóvel, Sandra Menezes, moradora do apartamento imediatamente abaixo, procurou a portaria. Ela contou que começou a perceber com mais facilidade o barulho de passos, cadeiras sendo movimentadas e pequenos impactos no piso.
Henrique inicialmente acreditou que as reclamações fossem consequência da mudança e da circulação maior de prestadores. Sandra, porém, afirmou que a diferença continuava perceptível mesmo em situações comuns e disse que o ruído de impacto era menor antes da reforma.
Condomínio pede laudo sobre o que existe abaixo do revestimento
Depois de receber novas reclamações, o síndico Eduardo Nascimento solicitou ao proprietário informações sobre a execução do piso. O condomínio queria saber principalmente se alguma camada acústica existente anteriormente havia sido retirada durante a demolição e não reinstalada.
Henrique respondeu que contratou profissionais para executar o serviço e que não havia pedido a retirada de nenhum sistema de isolamento. O problema era que ele também não sabia dizer exatamente como era o contrapiso antes da obra ou quais materiais estavam instalados sob o revestimento antigo.
Leia também: Morador troca vários eletrodomésticos após quedas frequentes de energia, mas defeito estava dentro da própria casa
Trocar o acabamento não é a única questão acústica envolvida
O som de passos, objetos caindo e móveis sendo arrastados é transmitido de maneira diferente de uma conversa ou de uma televisão ligada. Esse tipo de incômodo está associado ao ruído de impacto e pode depender do conjunto formado pela laje, contrapiso, eventuais materiais resilientes e revestimento final.
Por isso, descobrir se o novo piso é porcelanato, madeira ou outro material não resolve sozinho a discussão. A série ABNT NBR 15575, voltada ao desempenho de edificações habitacionais, inclui requisitos relacionados aos sistemas de pisos e ao desempenho acústico. A avaliação concreta, porém, depende das características da construção e do sistema instalado.
No caso fictício de Henrique, o engenheiro contratado para acompanhar a questão explicou que seria necessário analisar documentos da reforma e, se fosse tecnicamente indicado, realizar verificações específicas. O objetivo seria identificar se houve uma mudança relevante na composição do piso e evitar atribuir a causa apenas à percepção de um dos moradores.

Empresa da reforma precisa explicar como executou o serviço
Henrique então procurou Maurício Lopes, responsável pela equipe que havia feito a retirada do piso antigo. Ele pediu registros da execução, relação dos materiais utilizados e informações sobre as camadas removidas durante a preparação do contrapiso.
A documentação passou a ter importância porque uma eventual correção poderia exigir a retirada de parte do revestimento recém-instalado. Para Henrique, o receio era descobrir que uma obra já incluída nos R$ 120 mil da reforma precisaria ser parcialmente refeita para recuperar uma condição acústica anterior.
Reformas em apartamentos exigem documentação técnica
A situação também levou o condomínio a revisar o material entregue antes do início dos trabalhos. A ABNT NBR 16280 trata do sistema de gestão de reformas em edificações e é uma das referências usadas para organizar procedimentos, responsabilidades e documentação relacionada a intervenções em prédios.
Além disso, o Código Civil determina que o condômino não deve utilizar sua unidade de maneira prejudicial ao sossego e segurança dos demais moradores. Isso não significa que toda reclamação de barulho comprove automaticamente uma irregularidade, mas reforça a necessidade de apurar tecnicamente o problema quando há conflito.
O que Henrique precisa fazer antes de mexer novamente no piso
Antes de autorizar qualquer quebra, Henrique deve reunir o projeto da reforma, notas e contratos dos prestadores, especificações dos materiais, registros fotográficos e documentos entregues ao condomínio. Um profissional habilitado poderá avaliar se existem elementos suficientes para identificar a composição executada e se é necessário fazer medições ou inspeções adicionais.
Se ficar comprovado que uma solução acústica foi retirada ou executada de forma inadequada, será preciso definir tecnicamente a correção e depois discutir quem deve assumir o custo. Se o piso estiver conforme o projeto e não aparecer falha comprovada, a reclamação ainda poderá exigir investigação sobre outras fontes de transmissão sonora. Para Henrique, o passo mais seguro agora é obter um diagnóstico técnico antes de transformar a disputa entre vizinhos em uma segunda reforma.




