A frase atribuída a Simone de Beauvoir — “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos” — aponta para uma ideia incômoda: sistemas de dominação não dependem apenas da força de quem ocupa posições de poder. Eles também podem se manter quando pessoas submetidas a esses sistemas reproduzem regras, valores e comportamentos que ajudam a sustentá-los.
A frase é associada à reflexão ética de Beauvoir
A formulação é amplamente atribuída a Beauvoir e costuma ser relacionada a A Ética da Ambiguidade, publicada originalmente em 1947. Nesse livro, a filósofa discute liberdade, responsabilidade e as relações entre pessoas que tentam afirmar a própria existência em um mundo compartilhado com outras liberdades.
A Stanford Encyclopedia of Philosophy destaca que Beauvoir pensa a opressão como uma situação concreta, marcada por condições materiais e sociais que limitam possibilidades de ação. A questão não é apenas identificar quem domina, mas compreender como determinada estrutura consegue continuar funcionando.

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Cumplicidade não significa culpar quem sofre a opressão
A frase pode ser interpretada de maneira equivocada se for usada para transferir a responsabilidade do opressor para quem está em posição vulnerável. Beauvoir não reduz a opressão a uma simples escolha individual: as pessoas agem dentro de condições econômicas, culturais e sociais que podem restringir fortemente suas alternativas.
A própria análise de Beauvoir sobre a condição das mulheres mostra que alguém pode participar da reprodução de um sistema sem ter criado as regras desse sistema. Dependência econômica, medo de sanções, busca por reconhecimento e ausência de outras possibilidades ajudam a explicar por que uma pessoa pode aceitar ou reproduzir padrões que também a prejudicam.
O Segundo Sexo ajuda a entender essa lógica
Em O Segundo Sexo, publicado em 1949, Beauvoir analisa como as mulheres foram historicamente colocadas na posição de “Outro” em relação aos homens. Para ela, essa condição não é resultado de uma suposta inferioridade natural, mas de relações sociais, instituições, costumes e expectativas construídas historicamente.
A análise da Stanford explica que Beauvoir também observa como algumas mulheres podem acabar assumindo os próprios papéis impostos pela sociedade, inclusive porque esses papéis oferecem reconhecimento ou alguma segurança dentro de uma estrutura desigual. Isso ajuda a compreender o sentido de participação na própria reprodução do sistema sem transformar a vítima em responsável principal.
Normas sociais ficam mais fortes quando passam a parecer naturais
Um sistema de dominação não precisa recorrer constantemente à força quando seus valores começam a ser tratados como evidentes. Pessoas podem repetir frases, costumes e expectativas simplesmente porque aprenderam desde cedo que determinadas hierarquias são normais ou inevitáveis.
É nesse ponto que a ideia de cumplicidade ganha força filosófica. Quando alguém vigia o comportamento de outras pessoas, reforça estereótipos ou reproduz uma regra injusta porque “sempre foi assim”, contribui para que aquela norma permaneça ativa. A dominação se torna mais resistente quando consegue produzir adesão, hábito e conformidade além da coerção direta.

Reconhecer essa dinâmica também abre espaço para mudança
Se normas sociais são reproduzidas por comportamentos cotidianos, elas também podem ser questionadas por pessoas que passam a enxergá-las de outra maneira. Beauvoir atribui grande importância à possibilidade de assumir a própria liberdade e reconhecer a liberdade das outras pessoas como parte de uma vida ética.
Em seu perfil sobre Beauvoir, a Internet Encyclopedia of Philosophy mostra como liberdade e responsabilidade aparecem juntas em seu pensamento. Não basta desejar autonomia apenas para si: a liberdade se torna mais consistente quando existem condições para que outros também possam agir como sujeitos.
A força da frase está em mostrar como o poder também se reproduz por dentro
A mensagem não é que pessoas oprimidas sejam culpadas por sua própria situação. O ponto é perceber que sistemas de poder podem penetrar tão profundamente na vida cotidiana que acabam sendo reproduzidos também por quem sofre suas consequências, muitas vezes por necessidade, hábito ou falta de alternativas.
Lida nesse contexto, a frase de Simone de Beauvoir funciona como um convite para observar não apenas quem estabelece uma regra injusta, mas também os mecanismos sociais que fazem essa regra parecer aceitável. Compreender esses mecanismos permite distinguir responsabilidade, coerção e adaptação e ajuda a explicar por que algumas estruturas permanecem fortes mesmo quando prejudicam parte das pessoas que vivem dentro delas.




