Uma TV de tubo Sony Wega de 29 polegadas, na cor prata, está anunciada por R$ 1.500 no Enjoei. O vendedor escreve que “o aparelho está funcionando, conforme demonstrado nas imagens” e informa que ele acompanha o gabinete original da marca. Na mesma plataforma, uma Samsung de tubo de 21 polegadas, descrita como em bom estado e com antena e cabos, está anunciada por R$ 150. Os dois anúncios estavam publicados na consulta feita pelo CB Radar na quarta, dia 7 de outubro de 2026.
Os valores são o que pede quem anuncia, não registros de venda nem avaliações de mercado. Ainda assim, a distância de dez vezes entre os dois aparelhos diz algo sobre como a TV de tubo, que já foi o centro da sala brasileira, circula hoje entre anúncios de usados e de colecionador.
De 4% a 87% das casas em quarenta anos
A presença da televisão nos lares do país está medida nos Censos do IBGE. Um estudo do IBGE sobre os domicílios brasileiros entre 1960 e 2000, publicado em 2004 na série Textos para Discussão da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, reúne os números na Tabela 15. Em 1960, só 4,46% dos domicílios tinham televisão, cerca de 600 mil casas. A fatia subiu para 24,11% em 1970 e para 56,10% em 1980, quando 14,1 milhões de domicílios tinham o aparelho.
O salto continuou nas décadas seguintes. Pelo mesmo levantamento, eram 27,7 milhões de domicílios com TV em 1991 (79,58%) e 38,9 milhões em 2000, ou 87% das casas do país. Segundo o texto do IBGE, no começo do período prevaleciam os aparelhos em preto e branco, e no ano 2000 os coloridos já eram ampla maioria. Os Censos de 1980 e 1991 chegaram a separar as duas categorias.
O que a tabela não diz é o tipo de tela. O Censo perguntava se havia televisão em casa, e não como ela era construída, por isso os 87% de 2000 medem a presença do aparelho, não a da tecnologia de tubo em particular. O mesmo estudo registra que, no ano 2000, 35,3% dos domicílios tinham videocassete, aparelho que o estudo trata quase como uma extensão da própria televisão.
A cena da família reunida diante da tela já rendeu outros textos no CB Radar, como o que lembra a época em que a televisão juntava todo mundo na sala.
TV de tubo no Enjoei: preços de anúncio em 7 de outubro

Na mesma consulta, o CB Radar abriu os dados públicos de cada anúncio, que indicam se o produto está publicado. Os quatro aparelhos abaixo estavam no ar, todos marcados como usados:
- Sony Wega de 29 polegadas, prata: R$ 1.500. A página exibia um desconto de 3%, que levava o pedido para R$ 1.455.
- Grundig de 14 polegadas, “tubo CRT”, com controle remoto: R$ 1.200, com desconto de 14% exibido na página, para R$ 1.030.
- Panasonic de 14 polegadas, modelo TC-14D1, que o vendedor chama de “relíquia dos anos 80” e diz funcionar perfeitamente: R$ 250.
- Samsung de 21 polegadas, preta, com entrada para games, antena e cabos: R$ 150.
A lista não revela quanto um comprador aceitou pagar por nenhum desses aparelhos. Cada valor é a pedida inicial do dono, sujeita a desconto, a negociação entre as partes ou a retirada do anúncio sem negócio fechado. A idade dos aparelhos também fica por conta dos vendedores, e o texto não conseguiu confirmá-la em fonte independente.
Marca, tamanho e descrição pesam no pedido
Lidos lado a lado, os quatro anúncios não seguem uma regra simples de polegadas. A Grundig de 14 polegadas pede oito vezes o valor da Samsung de 21 e quatro quintos do pedido da Sony de 29. A Panasonic, do mesmo tamanho da Grundig, pede R$ 250. O tamanho da tela, portanto, explica pouco do que se vê nos preços.
O que aparece com mais frequência nos anúncios de valor alto é o cuidado na descrição: marca e linha identificadas, a cor, o estado de conservação, a promessa de funcionamento demonstrada em fotos e os acessórios originais, como gabinete e controle remoto. Os textos também falam do uso que imaginam para o aparelho. A Grundig é apresentada como “ideal para quem busca um toque retrô ou para colecionadores”; a Panasonic, como ideal para colecionadores ou para jogar videogames antigos; a Samsung destaca a entrada para games. São argumentos de quem anuncia, e nenhuma pesquisa consultada mede se essa é de fato a razão da procura.
O mercado de objetos antigos tem atraído compradores de perfis variados, como mostra o texto sobre pratos antigos de vidro que colecionadores aprenderam a identificar. No caso das televisões, porém, os anúncios desta consulta não trazem certificado, laudo técnico ou avaliação de especialista, só a palavra do vendedor.
O exemplar comum e o cuidado com o tubo
Com quase 39 milhões de domicílios com televisão em 2000, segundo o IBGE, o aparelho comum está longe de ser raridade. A Samsung de R$ 150 e a Panasonic de R$ 250 são o retrato mais frequente desse universo: televisores funcionando, de marcas conhecidas, oferecidos por valores de centenas de reais. A Sony de R$ 1.500 é a exceção da amostra, e uma exceção que, por ora, só existe como pedido. Preço de vitrine diz quanto alguém gostaria de receber, não quanto o objeto vale.
Há ainda um cuidado que vale para qualquer TV de tubo guardada em casa ou anunciada. Esses aparelhos trabalham com alta tensão, e o tubo de imagem pode manter carga elétrica mesmo depois de desligado da tomada. Abrir o gabinete, mexer nos componentes internos ou tentar um conserto por conta própria expõe a risco de choque. Qualquer reparo ou avaliação interna é trabalho para técnico especializado em eletrônica.
Também não há base, nas fontes consultadas, para dizer que a TV de tubo valorizou como categoria. O que os anúncios do Enjoei mostram, na data da consulta, é uma faixa larga de pedidos, de R$ 150 a R$ 1.500, para aparelhos que, segundo o Censo do IBGE, já estiveram em 87% das casas brasileiras no ano 2000.




