Em março de 2020, uma armadilha fotográfica escondida na mata de Cachoeiras de Macacu, no interior fluminense, flagrou um filhote de anta andando atrás da mãe. Era o primeiro filhote da espécie nascido em vida livre no estado depois de mais de cem anos de ausência, segundo o Refauna, grupo de pesquisa que divulgou o registro em 27 de março daquele ano. As imagens vinham das câmeras da Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA).
Aquele filhote não apareceu por acaso. Ele só existiu porque pesquisadores tinham levado as primeiras antas para a reserva três anos antes, e porque uma família passou duas décadas devolvendo floresta a pastos degradados. Hoje a história das antas no Rio de Janeiro passa por essa fazenda: segundo a própria REGUA, em 2026 vivem cerca de 25 animais na reserva e no entorno, 25 anos depois da criação da ONG que cuida do lugar.
Uma fazenda comprada em 1907
A terra está com a família Locke há mais de um século. Hilmar Werner comprou a antiga Fazenda do Carmo em 1907, e ali se produziram madeira de lei e cachaça, conforme o histórico publicado pela REGUA. O bisneto dele, Nicholas Locke, preside a reserva hoje. A vice-presidente é a esposa, Raquel Locke.
A mudança de rumo começou em 2001, quando nasceu a Associação Reserva Ecológica de Guapiaçu, com a missão de proteger a Mata Atlântica da bacia do rio Guapiaçu, de acordo com a entidade. O primeiro projeto de reflorestamento saiu em 2006. Desde então, a reserva foi comprando propriedades vizinhas para recuperar áreas que tinham virado capim.
Dizer que a família plantou tudo sozinha seria injusto com quem pôs a mão na terra. O plantio é tocado pela ONG, com equipe própria e parceiros como o World Land Trust, do Reino Unido, a Petrobras, o WWF-Brasil e o Instituto Internacional para Sustentabilidade. Pelas contas atuais da REGUA, são mais de 1 milhão de mudas, de mais de 500 espécies, em 710 hectares restaurados, com um viveiro que produz até 100 mil mudas por ano. O número de 840 mil árvores, que ainda circula por aí, é do World Land Trust e data de fevereiro de 2025, quando a entidade britânica contava 607 hectares recuperados.
Plantar é a parte visível. Manter a muda viva contra o capim exótico que sufoca o que nasce é outra batalha, e pesquisadores fluminenses já testaram até folhas de papelão sobre o solo para conter gramíneas invasoras numa área de restauração em Seropédica.
As antas no Rio de Janeiro precisaram de carona

A anta (Tapirus terrestris) tinha desaparecido do território fluminense. O último registro no estado foi feito em 1914, no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, segundo o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que aponta caça e perda de habitat entre as causas do sumiço.
Floresta de pé, sozinha, não resolveu. Em 2017, segundo a REGUA, chegaram à reserva os três primeiros animais do programa de reintrodução do Refauna, coordenado pelo Laboratório de Ecologia e Manejo de Animais Silvestres do Instituto Federal do Rio de Janeiro, o LEMAS-IFRJ. Cada anta passa uma temporada numa área cercada de aclimatação antes de ganhar a mata, e o monitoramento segue depois, com câmeras espalhadas pela floresta.
O caminho teve perdas. Em julho de 2021, o coordenador do projeto, o professor Maron Galliez, do IFRJ, contabilizava 11 antas soltas, quatro mortes e dois filhotes nascidos na natureza. A meta que ele descrevia era chegar a “uma população viável, que não precisa da intervenção humana para se alimentar”.
Cinco anos depois, a conta da reserva está em cerca de 25 antas vivendo dentro e em volta da REGUA, incluindo filhotes de adultos reintroduzidos, segundo a própria entidade. O plano é que esses animais se espalhem para o Parque Estadual dos Três Picos e outras matas vizinhas, até formar uma população que dispense a ajuda humana.
Há um caso diferente que costuma ser misturado com este. Em janeiro de 2025, o Inea anunciou antas selvagens, sem nenhuma reintrodução, no Parque Estadual Cunhambebe, na Costa Verde: foram 108 registros em dez câmeras, entre eles uma fêmea com filhote. Ali, sim, os animais apareceram por conta própria. Não há relação com a família Locke.
Um jardineiro de quatro patas
A anta não é só um símbolo bonito para a foto. Ela come frutos, anda muito e deixa sementes pelo caminho, e Galliez destacava em 2021 que a espécie favorece a dispersão de sementes e ajuda a floresta a se regenerar. A REGUA mantém pesquisas justamente sobre essa capacidade e sobre como os animais soltos usam o território. Uma mata replantada à mão ganha, com ela, um jardineiro que trabalha de graça.
O modelo de soltura planejada, com aclimatação e câmera, vem sendo repetido com outros bichos no país, como na volta do periquito-cara-suja à Serra das Almas, na divisa do Ceará com o Piauí. A lógica é a mesma: devolver ao lugar a espécie que o próprio lugar já não conseguia chamar de volta.
O paralelo mineiro de Aimorés
Quem acompanha restauração florestal no Brasil pensa logo no Instituto Terra, em Aimorés (MG). Ele foi fundado em 1998 por Lélia Deluiz Wanick Salgado e Sebastião Salgado na antiga fazenda de gado da família, segundo o histórico publicado pelo próprio instituto. O fotógrafo morreu em 23 de maio de 2025, aos 81 anos, em Paris, conforme comunicou a Académie des beaux-arts, da qual era membro.
Os números de Aimorés têm data, e é assim que precisam ser lidos. Na linha do tempo do Instituto Terra, o marco de 2020 registra 2,3 milhões de árvores plantadas na área original de 709 hectares, a RPPN Fazenda Bulcão. O primeiro monitoramento de fauna, de 2007, já contava 172 espécies de aves de volta à mata, além de 33 de mamíferos, 15 de répteis e 15 de anfíbios. Em 2024, com a compra de terras vizinhas, a área total chegou a 2.346 hectares, informa a instituição.
As duas histórias começam parecidas: uma família herda pasto cansado e decide devolver floresta a ele. Elas se separam no que veio depois. Em Aimorés, o instituto registrou bichos que retornaram à mata replantada. Em Cachoeiras de Macacu, a anta teve de ser trazida, animal por animal, e acompanhado por câmera durante anos. Na REGUA, o próximo sinal de sucesso não virá de uma contagem de mudas, e sim do dia em que uma anta nascida ali atravessar sozinha para a serra vizinha.




