VIOLÊNCIA

Filha de 2 anos de vítima de feminicídio em Sobradinho presenciou morte da mãe

A cabeleireira Fernanda Landim foi morta na madrugada de terça-feira (8/6) pelo companheiro, Angelo Gabryel. A filha do casal, uma menina de 2 anos, presenciou o crime. Assassinato ocorreu poucos dias depois de outro, também por motivo de gênero

Ana Isabel Mansur e Cibele Moreira
postado em 09/06/2021 06:00 / atualizado em 09/06/2021 08:41
Fernanda morava com Angelo Gabriel em Sobradinho 2. O casal havia alugado uma casa há um mês e estava junto desde 2016 -  (crédito: Redes sociais/Reprodução)
Fernanda morava com Angelo Gabriel em Sobradinho 2. O casal havia alugado uma casa há um mês e estava junto desde 2016 - (crédito: Redes sociais/Reprodução)

Em menos de dois dias, mais uma mulher foi assassinada por motivo de gênero no Distrito Federal. Fernanda Landim Almeida, 33 anos, foi esfaqueada pelo companheiro, identificado como Angelo Gabryel, 28, após uma discussão entre os dois. O crime ocorreu na madrugada de terça-feira (8/6), em Sobradinho 2. A cabeleireira, que recebeu um golpe de faca na região do abdômen, não resistiu ao ferimento e morreu no local. A filha do casal, uma menina de 2 anos, presenciou o homicídio. No domingo (5/6), Leidenaura Moreira, 37, foi morta da mesma maneira.

O caso é acompanhado pela 35ª Delegacia de Polícia (Sobradinho 2). Angelo Gabryel tem uma ficha criminal que inclui seis ocorrências por violência doméstica, agressão, injúria e ameaça contra Fernanda. Além da criança de 2 anos, ela deixa dois outros filhos, de relacionamentos anteriores: uma menina de 5 anos e um adolescente de 17. As duas mais novas moravam com a vítima, e o mais velho, com a avó materna. Após o crime, os três ficaram com a mãe de Fernanda.

Delegado-chefe da 35ª DP, Laércio Carvalho afirma que a vítima havia entrado com pedidos de medidas protetivas contra o companheiro. A Justiça concedeu duas, uma em 2019, outra no ano passado, após duas ocasiões em que houve desentendimentos entre os dois. No entanto, em 15 de maio, houve revogação do benefício a pedido de Fernanda. Depois disso, o casal se mudou com a filha para uma casa alugada, em Sobradinho 2. Em depoimento à polícia, vizinhos relataram que eram recorrentes brigas e desentendimentos entre os dois.

Ao confessar o crime, Angelo Gabryel disse que ele e a companheira haviam discutido por motivo de ciúme. Após a briga, ele saiu de casa e voltou por volta das 3h. O agressor pulou um muro de três metros de altura para entrar no lote, segundo a polícia. “O acusado conta que, quando voltou, ela estava com uma faca na mão. Depois de discussão e ameaças, ele tomou o item dela e desferiu o golpe fatal no abdômen (da vítima)”, relatou Laércio Carvalho. “Em seguida, ele gritou ‘Eu feri ela, eu feri ela’”, completou o delegado à frente do caso.

  • Angelo Gabryel, acusado de matar a cabeleireira Fernanda Landim Almeida, companheira dele
    Angelo Gabryel acumulava, ao menos, seis registros de agressão contra Fernanda, segundo a polícia Redes sociais/Reprodução

Relacionamento

Uma amiga de Fernanda que pediu para não ser identificada contou que Angelo Gabryel havia agredido a vítima em outros momentos. “Era um relacionamento bem conturbado. Várias vezes, avisei a ela para terminar com ele, porque acabaria nisso, mas não adiantou. Os dois brigavam sempre, e ele não a respeitava de forma alguma. Tantas vezes eu pedi que ela o largasse, mas ela não me escutou. Espero que a justiça seja feita. Entre nossos amigos, ninguém gostava dele”, detalha. Ela e Fernanda tinham uma amizade de 15 anos.

Outra amiga de Fernanda, que também não quis ter o nome divulgado, conta que ficou tomada por um sentimento de revolta. “Ela estava com muitos sonhos, muitos projetos, tinha muita vontade de vencer na vida. Fazia de tudo pelos filhos e era louca pela mais nova, que deu um gás na vida dela. Ela era muito apaixonada pelo Gabryel. Como as meninas estão falando, o amor louco por ele tirou a vida dela”, lamenta.

Após cometer o crime, o agressor largou a faca na sala, perto do corpo da vítima, e fugiu com a bainha da arma na cintura. O item, segundo a polícia, pode indicar que o objeto usado para matar Fernanda seria dele. Angelo Gabryel se escondeu em uma casa a cerca de 1 km de distância, mas os policiais militares conseguiram encontrá-lo e levá-lo para a 13ª Delegacia de Polícia (Sobradinho). O casal morava em um lote com várias residências há menos de um mês e, segundo as investigações, estava junto desde 2016. O agressor foi levado para a carceragem da Polícia Civil e deve responder pelo crime de feminicídio, com pena de até 30 anos de reclusão.

Onde pedir ajuda no Distrito Federal em caso de violência contra a mulher

Memória

25 de abril

Karla Roberta Fernandes Pereira, 38 anos, foi degolada pelo companheiro, Adenor Pacheco de Oliveira, 47. Um catador de latinhas encontrou o corpo da vítima em um matagal, em Santa Maria. Após assassiná-la, o agressor saiu para beber com os amigos e, pela tarde, compareceu à delegacia. Em depoimento, o acusado mentiu sobre os fatos e não soube responder perguntas dos investigadores. Após confessar o feminicídio, ele foi preso. Karla deixou três filhos menores de idade.

9 de maio

Larissa Nascimento, 22 anos, foi morta a pauladas pelo namorado, João Paulo Moura de Sousa, 23. Ela deixou um bebê de 8 meses, fruto do relacionamento com o acusado. Depois do crime, o agressor narrou uma versão mentirosa dos fatos nas redes sociais. João Paulo acumulava registros de crimes como roubo, furto, receptação e tentativa de homicídio, além de outras cinco ocorrências por violação da Lei Maria da Penha. No mês anterior, ele havia sido preso em flagrante por lesão corporal, injúria, ameaça e dano qualificado contra a companheira, mas foi solto, após audiência de custódia, com uso de tornozeleira eletrônica. Os vizinhos, que chamaram a polícia, ouviram Larissa ser assassinada e relataram que a jovem teve o rosto desfigurado.

22 de maio

O corpo de Karla Pucci, 47 anos, foi encontrado pelo filho dela, na funerária da qual ela era dona, no Paranoá. A empresária foi morta a pedradas e o principal suspeito era Valdemar Sobreiro Nogueira, 46, que mantinha um relacionamento de seis meses com a vítima. Depois de ele aparecer nas mídias sociais casado com outra mulher, Valdemar foi achado morto em um hotel de São Paulo, dois dias depois.

Ocorrências

32
Feminicídios no DF em 2019

17
Casos registrados em 2020 (-46,8%)

6
Feminicídios entre janeiro e abril de 2020

8
Casos registrados no mesmo período de 2021 (+33%)

19
Tentativas de feminicídio entre janeiro e abril de 2020

23
Tentativas de feminicídio entre janeiro e abril de 2021

Fonte: Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF)

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