Empreendedorismo

Pandemia impulsiona empreendedorismo digital de pequenos e grandes no Brasil

Quase 90% das empresas do país aceleram seus projetos de transformação digital em 2020; cerca de 50% começaram seus empreendimentos há menos de um ano

Thays Martins
postado em 12/08/2021 16:16 / atualizado em 08/09/2021 13:15
 (crédito: Informação e Comunicação Tecnológica: Freio nos estudos e licitação para implementação da tecnologia 5G no país e estudos de nanotecnologia aplicada. (Fonte: Conexis Brasil Digital))
(crédito: Informação e Comunicação Tecnológica: Freio nos estudos e licitação para implementação da tecnologia 5G no país e estudos de nanotecnologia aplicada. (Fonte: Conexis Brasil Digital))

A empresa de eventos Red Streaming, da empresária Ana Luísa Tomé, ia super bem no mercado, com tendência de crescimento, mas o que ela não poderia prever é que, em março de 2020, uma pandemia obrigaria o país a se retrair e suspender todos os eventos presenciais. Mas, a empresária de 35 anos se reinventou e a Red Streaming foi a primeira empresa do país a oferecer eventos on-line.

“Primeiro a gente chorou. Quando a pandemia começou eu estava na Europa e fomos ver as bandas de lá fazendo lives. Quando voltei fiz a quarentena e depois já estava fazendo live”, lembra.

Hoje, a empresa de Ana Luísa se especializou em fazer eventos corporativos on-line e híbridos. “Com a pandemia nós fomos aprendendo. No começo foi muito difícil, mas agora é gratificante. O que a gente mais fez foi observar a nossa volta. A pandemia afetou todo mundo, independente de ter contraído o vírus ou não”, avalia. A empreendedora acredita que o formato veio para ficar. “Esse passo que demos para frente não vamos dar para trás. O formato on-line é mais barato e permite que as empresas façam eventos para públicos maiores”, explica.

  • Ana Luísa Tomé teve que adaptar a empresa de eventos para o digital
    Ana Luísa Tomé teve que adaptar a empresa de eventos para o digital Filipe Miranda/ divulgação
  • espaço Red Streaming para eventos
    espaço Red Streaming para eventos Filipe Miranda/ divulgação
  • espaço Red Streaming para eventos
    espaço Red Streaming para eventos Filipe Miranda/ divulgação

Ana Luísa não foi a única a migrar para o digital. Assim como a empresa dela, 87,5% das empresas brasileiras aceleraram seus projetos de transformação digital em 2020, segundo o Índice de Transformação Digital Dell Technologies 2020. E, de acordo com os especialistas, este é um caminho sem volta. “Todos conseguiram ver o poder do digital, mais especificamente na venda. No pós-pandemia vamos ter vários canais e o digital é um canal de visibilidade, o alcance é muito maior”, explica o professor Leonardo Carvalho, coordenador dos MBA’s em Gerenciamento Ágil de Projetos e Gestão de Negócios na Faculdade Newton Paiva.

Novas empresas

A pandemia forçou não só as empresas que já existiam a se adaptar, mas também impulsionou o surgimento de várias outras. De acordo com a pesquisa Panorama de Negócios Digitais Brasil 2020, promovida pela Spark Hero, 54% dos empreendedores digitais começaram seus negócios há menos de um ano.

No ano passado, o crescimento foi tão grande que fez o levantamento apontar 2020 como o ano do empreendedorismo digital. “Toda vez que a gente tem uma grande crise, as pessoas tendem a perder os empregos formais, o comércio fechou, vários setores da economia tiveram uma diminuição e a retomada econômica se dá pelos empreendedores. Antigamente as pessoas iam para a rua vender, hoje a internet propicia um alcance maior mesmo em uma situação de mobilidade reduzida”, explica Thiago Nascimento, coordenador do Mestrado Profissional em Gestão Estratégica de Organizações, do Centro Universitário IESB. 

Agatha Santos Camelo, tem apostado na venda de artesanatos pela internet
Agatha Santos Camelo, tem apostado na venda de artesanatos pela internet (foto: arquivo pessoal )

 

Este foi exatamente o caso de Agatha Santos Camelo, 20 anos, que viu no Instagram uma possibilidade de vender seus artesanatos. "Achei o meio mais acessível pra poder divulgar o meu trabalho, principalmente agora que as feirinhas de artesanato estão mais paradas, as pessoas costumam ver mais as redes sociais. Eu comecei a fazer arte há muito tempo, mas peguei firme nesse período de pandemia mesmo. Não é algo que comecei a fazer só pra me dar uma renda extra nesse momento, mas algo que eu acredito como direcionamento de vida mesmo”, explica. Ágatha usa o Instagram para vender porcelana fria, esculturas de Orixás, incensários, cinzeiros, quadros, brincos, colares, além de grafite e algumas pinturas comerciais.


Esta é exatamente a maior vantagem desse tipo de empreendedorismo, segundo Leonardo. O mais importante, para ele, é que esta é uma ótima forma de iniciar um negócio, por ser muito mais barata. "Abriu portas para muitas pessoas. É um formato acessível para todos aqueles que não têm poder de investimento. Ele está disponível para todos aqueles que têm uma boa ideia", afirma. Além disso, Thiago ressalta que há lugar para todo mundo no ambiente digital. "A internet está à disposição. Tem muito espaço e nunca é tarde para começar", afirma.


Em outra direção, a Petit Jardin, loja de plantas de Brasília, também teve que investir no digital para sobreviver durante a pandemia - e deu certo. “O primeiro desafio foi entender o que iríamos fazer. Fechamos a loja e a gente tinha um site, mas ele não funcionava, então começamos a publicar no Instagram. E tivemos que começar a fazer fotos melhores para que as pessoas recebessem o produto similar ao que compraram pela foto”, relata Fabiana Ungaretti, 36 anos. Outro desafio na mudança foi controlar o estoque de forma melhor. “Tivemos que organizar melhor, porque na loja física era mais fácil fazer o controle e pela internet acabamos vendendo produtos duplicados. Erramos muito, mas com o tempo fomos entendendo”, conta.


Ela explica que o plano é continuar vendendo on-line mesmo com o funcionamento da loja física. “Tem muita gente que não está saindo de casa e é uma forma de compra que vai ficar. As pessoas estão cada vez mais comprando pela internet. São duas frentes e uma não anula a outra”, explica. Na equipe, formada por três mulheres, cada uma tema tem uma função para que o negócio funcione. As fotos, são todas feitas pelo celular em uma ambiente com bastante luz natural. 

Andrea Campeche, Aline Cibele da Silva e Erika Oliveira, da loja de plantas Petit Jardin
Andrea Campeche, Aline Cibele da Silva e Erika Oliveira, da loja de plantas Petit Jardin (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)


Segundo Thiago, são exatamente essas pessoas que estão fazendo de tudo para não parar durante a pandemia e se reinventando que estão fazendo a economia voltar a crescer e vão ajudar na tão desejada retomada econômica. “O empreendedor é o agente dessa mudança, ele vai contribuir para o desenvolvimento econômico e social. O empreendedorismo compreende e aproveita oportunidades, pode ser algo novo, mas pode ser uma releitura. Ele vai propiciar e alavancar a retomada econômica”, destaca.

Desafios não são poucos

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma em cada cinco empresas que são abertas fecham antes mesmo de completar um ano. O cenário não é diferente em meio ao digital. Os desafios para novos empreendedores são muitos, mas é preciso perseverar para manter o negócio na ativa. “É preciso entender qual é o público dele, não dar para vender para todo mundo e existe muitos gurus na internet que dizem "faz assim que dar certo" e não é assim, é conseguir falar a linguagem para o seu público, que o retorno vem”, explica Leonardo.


O outro desafio é enfrentar a concorrência gigantesca que existe na internet. "O mercado é global. Hoje o Alibaba entrega em quinze dias, tem lugares que conseguem fazer entrega na mesma semana, é uma estrutura de logística muito grande", destaca. Além disso, a pessoa precisa ter espírito empreendedor. "O empreendedor não consegue fazer tudo sozinho. Ele precisa buscar conhecimento, precisa ser criativo, persistente e extremamente dedicado e muito resiliente", destaca Thiago.

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Não só as pequenas

A pandemia também forçou grandes empresas a saírem da zona de conforto e investirem no digital. De acordo com Leonardo, a pandemia serviu para acelerar um processo que já vinha acontecendo. “Não foram só as pequenas empresas que foram para o digital, as grandes empresas acabaram tendo que se movimentar e conseguiram ver o poder do digital”, destaca.


Mas ele destaca que a mudança para o digital é necessária para todo mundo. "Tem alguns mercados que tem particularidades, mas mesmo esses estão achando formas de irem para o digital. Você vê o mercado de luxo que antes não se imaginaria comprar um anel sem olhar ele no dedo, e hoje elas oferecem um serviço de realidade aumentada em que se simula como fica na mão da pessoa. Até na área de serviços isso aconteceu, psicólogos e arquitetos conseguiram achar formar. Até mesmo a educação", ressalta.


E a pandemia propiciou o surgimento de vários formatos inovadores. Foi nesse período, que a publicitária Monique Lima, 34 anos, abriu a Mimo Live Sales. A proposta da empresa é vender produtos de diferentes segmentos por meio de lives. Marcas como Dolce & Gabbana, Grey Goose e L’Occitane já fazem parte da empreitada. “O brasileiro é perfeito para o live commerce e não tinha chegado aqui ainda. As pessoas estão abertas. Passamos a valorizar tudo na porta da nossa casa”, explica sobre o sucesso do negócio. E a empresa já visa se expandir. “A gente está em plena ascensão. Em breve gostaríamos de expandir. Eu sempre trabalhei no físico, mas no digital as coisas vão se desenrolando muito mais rápido”, afirma.


Para o futuro, Thiago avalia que cada vez mais este será o caminho encontrado pelas empresas. "Esse mercado tem muito a crescer. As pessoas viram que isso é possível. São novos serviços e produtos sendo oferecidos sem você precisar ir em lugar algum. A demanda deve aumentar bastante", afirma.

Confira um glossário do empreendedorismo digital 

 

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