Violência

Morta numa emboscada: o feminicídio de Ana Cristina, esfaqueada pelo ex-genro

Ana Cristina Farias de Araújo, 51 anos, foi assassinada pelo ex-companheiro da filha. Marcos Fernando Domingos, 26, a esfaqueou, arrancando uma das mãos e dedos da vítima. Criminoso está preso. Caso é investigado como feminicídio

A brutalidade e a violência de Marcos Fernando Domingos, 26 anos, eram conhecidas: a ex-companheira e a mãe dela pediram à Justiça medidas protetivas contra ele por causa de ameaças de morte, agressões e injúrias, mas de nada adiantou. O algoz armou uma emboscada para atacar a ex-sogra Ana Cristina Farias de Araújo, 51. No caminho ao trabalho e sem chances de defesa, a empregada doméstica foi assassinada com golpes de facão pelo ex-genro. Em menos de seis horas depois do crime, policiais civis do DF prenderam o assassino. Segundo apurado pelo Correio, esse é o terceiro feminicídio este ano na capital do país. Em 2020, foram 25.

Por cinco meses, Marcos namorou a filha do meio de Ana, e chegaram a morar juntos, em São Sebastião. O relacionamento era totalmente reprovado pela mãe, e logo os primeiros problemas surgiram. Brigas, xingamentos e agressões físicas faziam parte da rotina do casal. No ano passado, após um desentendimento com o acusado, a jovem ficou com boa parte do corpo queimada. Aos familiares, ela não contou o que aconteceu, mas os parentes acreditam que o responsável pela violência tenha sido Marcos. A moça ficou internada no hospital entre a vida e a morte durante dois meses.

Quando decidiu colocar fim à relação, Marcos passou a ameaçar a jovem, a mãe dela e os parentes. A moça registrou um boletim de ocorrência por violência doméstica e familiar e solicitou medidas protetivas de urgência. O eletricista Douglas Farias, 31, filho mais velho de Ana, chegou a dar conselhos a Marcos. "Sempre falava para ele que se minha irmã não o quisesse mais, para ele seguir a vida, procurar novos caminhos. Eu o levava à igreja, comprava marmitas e tentava o ajudar ao máximo", contou, ao Correio.

O perfil violento de Marcos passou a impactar toda a família. Para conseguir atingir a ex, o agressor divulgou fotos de Douglas nas redes sociais o identificando como um estuprador. "Ele escrevia na internet, dizendo que eu abusava da minha própria irmã, para a população me linchar no meio da rua. Foi um terror", lembra.

Ameaças

Após o término do namoro, Marcos procurava Ana para saber informações da ex. Em depoimento prestado à polícia em janeiro deste ano, a empregada conta que começou a ser ameaçada de morte constantemente pelo agressor e que iria obrigá-la a dizer onde a filha estava. Em uma das ocasiões, Marcos disse que só iria descansar quando "arrancasse o pescoço" da jovem.

Ana também solicitou medidas protetivas contra Marcos, que foram determinadas pela Justiça. Na decisão, a juíza Lorena Alves Ocampos proibiu o agressor de se aproximar da ex-sogra, determinou o limite mínimo de distância em 500 metros e proibiu o contato dele com a mulher por qualquer meio de comunicação ou intermédio de terceiros.

Apesar da decisão judicial, na manhã de ontem, Ana marcou de se encontrar com Marcos na Rodoviária do Plano Piloto para buscar alguns documentos. Ela saiu de casa em São Sebastião e chegou ao local por volta de 8h30. A vítima pegou os papéis e entrou no ônibus para ir ao trabalho. No meio do caminho, ao olhar para trás, percebeu que Marcos estava sentado e ligou para a filha. "A filha implorou para que ela não descesse de forma alguma, mas Ana disse para a jovem ficar tranquila, que iria desembarcar próximo à delegacia", explicou a delegada-chefe da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), Ana Carolina Litran.

Ana, no entanto, acabou descendo no SIG, a cerca de 1,6km da Praça dos Três Poderes. Marcos desembarcou em seguida e a perseguiu. Os dois iniciaram uma discussão, e imagens do circuito interno de segurança registraram o momento exato em que o homem começa a desferir várias facadas contra a ex-sogra. Os ataques brutais foram testemunhados por motoristas que passavam pela via. A empregada recebeu três golpes na cabeça, um na axila e teve uma mão e dedos decepados.

"Fomos à delegacia uma vez, há três meses, para registrar ocorrência contra ele. Voltamos a procurar a DP, mas nada foi feito. Ele fez o inferno nas nossas vidas, porque minha irmã decidiu romper a relação", desabafou Douglas. Inconformado com a situação, o eletricista pede por Justiça. "O que minha mãe fez para merecer isso? Ela sempre dizia que iria nos defender até a morte. E foi isso que aconteceu. Morreu nos defendendo", lamentou o rapaz, em prantos.

Prisão

Menos de seis horas depois do crime, Marcos foi preso pelos investigadores da PCDF. Ele estava escondido em São Sebastião, na casa de uma outra ex, também vítima de violência doméstica cometida por ele. "Fizemos as diligências e conseguimos capturá-lo. Até o momento, não há evidências de que a mulher sabia de algo", frisou a delegada. O assassino foi indiciado por feminicídio, podendo pegar de 12 a 30 anos de prisão, e passará, hoje, por audiência de custódia.

Contra ele, havia, ainda, um mandado de prisão em aberto por descumprir medidas protetivas contra a ex. Segundo Mariana Nery, advogada especialista em direito da mulher, o aumento no número de feminicídios praticado por agressores que tinham uma medida protetiva ativa ocorre devido a negligência dos agentes públicos em levar a sério a violência doméstica e cumprir a lei. "A Lei (Maria da Penha) é perfeita e parece cobrir todos os pontos necessários para manter a mulher e seus familiares livres da violência doméstica, porém, na realidade, as coisas não funcionam assim. Muitas clientes vêm até mim com medo de denunciar seus agressores, pois sabem que eles podem matá-la e aqueles próximos a ela. Isso ocorre porque o poder público (promotores, policiais e juízes) não cumpre seu papel como deveria", destacou.

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