Entrevista | HENRIQUE LACERDA | INFECTOLOGISTA

'É preciso levar as vacinas à população', avalia infectologista

Ao CB.Saúde, especialista recomenda que os imunizantes cheguem às escolas e flexibilizar os horários dos postos de saúde. A baixa procura, segundo ele, se deve à falta de informações sobre os riscos de não receber as doses disponibilizadas

A baixa adesão da população às vacinas no Brasil e os mecanismos para reverter essa situação foram discutidos pelo infectologista do Hospital Brasília da Rede Dasa Henrique Lacerda, durante o programa CB.Saúde — uma parceria entre o Correio e a TV Brasília. Às jornalistas Sibele Negromonte e Mila Ferreira, o especialista enfatizou a importância das vacinas contra a dengue e contra a covid-19 que, com o tempo, têm sido menos procuradas pelas pessoas. Veja o conteúdo completo

Segundo Lacerda, de um modo geral, a procura por vacinas no Brasil diminuiu e esse fato pode acarretar o aumento do número de doenças com alta mortalidade e sequelas, como a poliomielite, por exemplo, que podem ser prevenidas com vacinação. Surtos de doenças de rápida transmissão não são descartados pelo infectologista, se a população não se vacinar. "Temos uma grande dificuldade em vacinar os pacientes não apenas devido ao negacionismo, mas também devido ao desconhecimento da gravidade das doenças infecciosas, a rápida transmissão, bem como a eficácia e efetividade dos imunizantes", destacou.

Lacerda comentou sobre a importância de implementar mecanismos para atrair as pessoas às unidades de saúde para a aplicação das doses. Para isso, na visão do infectologista, um planejamento estratégico seria essencial. "Essa ação não seria apenas do Programa Nacional de Imunização. Por que não buscar ativamente os pacientes que não tomaram a segunda dose da vacina contra a dengue em nossa região de saúde? Outro exemplo seria levar a vacina às escolas, flexibilizar os horários, abrir os postos de saúde em horários estendidos e funcionamento aos fins de semana", explicou. Ele também sugeriu a realização de reuniões com líderes comunitários e religiosos para discutir os benefícios das vacinas. "Levar especialistas, infectologistas e médicos de família para conversar sobre esses temas seria crucial", acrescentou.

O infectologista usou o exemplo da redução dos óbitos causados pela meningite, que tinha uma mortalidade de quase 100%, para falar dos benefícios das vacinas. "É uma doença infecciosa que pode ser prevenida por vacina, e ela está disponível no sistema público de saúde. Hoje também temos populações imunocomprometidas, como pessoas com HIV em tratamento quimioterápico, e elas precisam saber que têm o direito de tomar esses imunizantes para evitar formas graves de doenças. Apenas a vacina pode fornecer essa imunidade", enfatizou.

O médico ressaltou que pessoas imunossuprimidas têm direito a certos medicamentos nos Centros de Referência de Imunobiológicos Especiais (CRIEs) e a receber vacinas. "É importante consultar um médico, assistente ou infectologista para saber quais vacinas ainda são necessárias, pois essa é a maneira de garantir a imunidade, para que os pacientes tenham uma boa qualidade de vida na velhice, evitando o desenvolvimento de formas graves da doença e a mortalidade", enfatizou.

Covid-19

Lacerda alertou para a baixa adesão às vacinas contra a covid-19. Embora 80% da população tenha recebido duas doses, apenas 50% receberam três, e menos de 30% receberam a quarta dose. "É importante lembrar que pessoas imunossuprimidas — gestantes, pacientes transplantados de medula óssea, pessoas com HIV, entre outras — devem receber o imunizante a cada seis meses. As pessoas precisam entender que é um vírus mortal, como vimos durante a pandemia. Devemos procurar um médico para manter o cartão de vacinação atualizado", ressaltou.

O infectologista explicou que recentemente a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Saúde revisaram a literatura e sugeriram uma dose única contra o HPV, um dos causadores do câncer de útero. "Mesmo para pessoas que já têm lesões iniciais no colo do útero, a vacina pode prevenir formas graves da doença. A dose única facilita a adesão das pessoas, tornando mais fácil convencê-las a tomar o medicamento", concluiu.

*Estagiário sob a supervisão de Márcia Machado

 


Mais Lidas