VOLUNTARIADO

Um olhar para a velhice

Voluntários dedicam tempo para dar atenção a quem mora em instituições para idosos, um acolhimento que ajuda a devolver dignidade, promover afeto e renovar esperanças

Bruno Amador (C): servir é uma fonte de felicidade e crescimento -  (crédito: Material cedido ao Correio)
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Bruno Amador (C): servir é uma fonte de felicidade e crescimento - (crédito: Material cedido ao Correio)

As Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) enfrentam desafios diários para manter o bem-estar do público atendido. Em vista dessa situação, doações e trabalho voluntário tornam-se essenciais para oferecer uma atenção aos mais velhos próxima ao ambiente acolhedor de uma família.

Nesse cenário, as instituições de atenção aos idosos passaram a ter uma caráter não mais protocolar na saúde, mas de verdadeiro acolhimento. Priscila Fernandes, 32, coordenadora do Lar dos Velhinhos Bezerra Menezes, na Quadra 14, Área Especial 1, Sobradinho, conta que o principal objetivo tem sido proporcionar um ambiente onde os moradores sintam-se em casa. Visão compartilhada por Wellington Cassimiro, 55, coordenador da Casa do Candango, na 603 Sul do Plano Piloto. "Temos voluntários que ajudam de várias formas. Além disso, ações como apresentações musicais, lanches e oficinas ajudam a alegrar os idosos", diz.

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Segundo Wellington, 92% do orçamento é destinado ao pagamento da equipe, restando apenas 8% para outras despesas. Por isso, o apoio da comunidade e o trabalho voluntário são indispensáveis. "O envolvimento deles faz uma diferença enorme na dinâmica do lar e na vida dos idosos", enfatiza.

Ana Francisca Pereira, 85, é uma testemunha do quão relevante é esse cuidado. Moradora do Lar Bezerra de Menezes, ela decidiu buscar o suporte da instituição, após enfrentar desafios no cuidado familiar. "Aqui fui descobrir que tem muitos velhinhos como eu", conta. Para ela, o trabalho dos voluntários é essencial e transformador, incentivando quem está em casa a dar o primeiro passo. "Só tenho a agradecer. Aqui, o idoso tem valor de verdade, diferente lá de fora, onde somos, muitas vezes, esquecidos."

Angelina Barbosa, 72, também levou uma história de superação e transformação ao Lar Bezerra de Menezes. Inicialmente, resistiu à ideia de viver em um asilo, temendo abandono e descaso. No entanto, após refletir, a idosa decidiu dar uma chance ao abrigo. Desde então, tornou-se uma grande entusiasta da estrutura e do cuidado oferecido pela casa. Ela também reconhece a importância dos voluntários, que trazem alegria e, principalmente, momentos de interação que preenchem a saudade da família distante. "Quando trazem uma criança, é tudo para mim. Sinto que me encho de energia. Esses momentos são o que tornam os nossos dias ainda mais especiais", afirma. 

Força do voluntariado

Essa atenção, no entanto, não faz a diferença só para quem a recebe, mas para quem a disponibiliza também. Bruno Amador, 46, presidente da Sociedade Espírita Servir, é voluntário e carrega consigo uma história de dedicação ao voluntariado que começou na adolescência, há 30 anos. Para ele, o trabalho exige comprometimento e resiliência, mas deixa uma mensagem de incentivo a quem pensa em se tornar voluntário. "O tempo não se alarga, e o maior desafio é conciliar nossas obrigações com o compromisso de servir. Mas, quando descobrimos a alegria em ser útil, percebemos que isso nos fortalece e nos traz paz interior", explica. 

Gilberto Pereira de Souza, é outro que se dedica ao voluntariado há mais de 10 anos no Lar dos Velhinhos Bezerra de Menezes, relata a satisfação de contribuir com seu tempo. "É um olhar de gratidão e amor para comigo. Aprendi que ser solidário nos faz feliz. Quem não vive para servir, não serve para viver", reflete. Ele ainda explica que o abrigo conta com poucos voluntários e precisa de doações para continuar funcionando. 

Rede de apoio

O Distrito Federal conta com uma rede pública de acolhimento que atende 363 idosos em instituições sem fins lucrativos. Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes), existem cinco organizações da sociedade civil (OSCs) que atuam em parceria com o governo, além de três instituições públicas administradas por servidores. "Essas vagas são direcionadas para idosos em vulnerabilidade social, reguladas pelo Governo do Distrito Federal", informou a Sedes.

O Serviço de Acolhimento Institucional para Pessoas Idosas (Saipi) é uma das principais iniciativas para atender pessoas com mais de 60 anos em situação de abandono, violência, negligência ou fragilidade familiar. "A permanência no acolhimento ocorre pelo tempo necessário para a superação da vulnerabilidade, sem imposição de prazo mínimo ou máximo", explicou a secretaria, em nota. Em 2024, a Sedes publicou um edital para ampliar em até duas mil vagas o acolhimento para adultos e famílias, com previsão de novos editais ainda este ano, sem data especificada.

Além disso, o governo do DF realiza ações preventivas para evitar o abandono de idosos, como atendimentos nos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas) e Centros de Convivência (Cecons). "Nos Cras e Creas, atuamos para evitar o rompimento de vínculos familiares, seja por sobrecarga ou conflitos. Atualmente, o DF conta com 14 Creas, dois inaugurados em 2024", detalhou a secretaria.

As instituições parceiras recebem repasses mensais da Sedes para custear recursos humanos e despesas complementares. No entanto, os desafios financeiros persistem, reforçando a importância de campanhas de voluntariado e doações. "A sociedade pode buscar informações no portal Voluntariado em Ação da Sejus (QR Code), além de contribuir diretamente com as instituições parceiras", recomendou a Sedes.

Transformação

Anteriormente conhecidas como asilos, as Instituições de Longa Permanência para Idosos passaram por uma transformação significativa nas últimas décadas. Antes vistas como "depósitos de pessoas", esses espaços, hoje, oferecem acolhimento, tratamento especializado e estrutura multiprofissional. Além de tratamento, oferecem acolhimento, funcionando como "casas-lar". 

A médica geriatra Aline Laginestra, que atua na área há mais de 20 anos, explica que os idosos eram colocados lá por falta de opção, negligência, falta de cuidado, insuficiência familiar, abandono. "Muitas vezes, trata-se de uma família que vive em espaços limitados, sem condições financeiras ou físicas de cuidar do idoso", explicou. 

Segundo Leiliane Carvalho, assistente social, existem três principais fatores para a institucionalização de idosos. “O primeiro eu diria que são idosos que optam por procurar uma instituição para ter um cuidado especializado. O outro, seria o perfil das pessoas que não possuem vínculo familiar. E, por fim, aquelas que não conseguem desenvolver as atividades de vida diárias sozinhas e não possuem condições financeiras suficientes”, destaca.

No entanto, mesmo em instituições bem estruturadas, a ausência de visitas familiares pode impactar a qualidade de vida dos idosos. “A continuidade do contato familiar é essencial, e iniciativas comunitárias, como visitas de grupos religiosos ou escoteiros, também desempenham um papel importante. Além de promover eventos, passeios e doações que fortaleçam essa convivência”, completa Leiliane.

*Estagiária sob a supervisão de Márcia Machado

 

 

  • Priscila Fernandes (D) com as moradoras do Lar Bezerra de Menezes Ana Francisca Pereira (C) e Angelina Pereira Barbosa
    Priscila Fernandes (D) com as moradoras do Lar Bezerra de Menezes Ana Francisca Pereira (C) e Angelina Pereira Barbosa Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  Na foto, Priscila Fernandes ( Coordenadora do lara) com  as idosas Ana Francisca Pereira (cadeira de rodas) e Angelina Pereira Barbosa, do Lar Bezerra de Menezes
    Na foto, Priscila Fernandes ( Coordenadora do lara) com as idosas Ana Francisca Pereira (cadeira de rodas) e Angelina Pereira Barbosa, do Lar Bezerra de Menezes Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  Na foto, Priscila Fernandes ( Coordenadora do lara) com  as idosas Ana Francisca Pereira (cadeira de rodas) e Angelina Pereira Barbosa, do Lar Bezerra de Menezes
    Na foto, Priscila Fernandes ( Coordenadora do lara) com as idosas Ana Francisca Pereira (cadeira de rodas) e Angelina Pereira Barbosa, do Lar Bezerra de Menezes Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  Na foto, Priscila Fernandes ( Coordenadora do lara) com  as idosas Ana Francisca Pereira (cadeira de rodas) e Angelina Pereira Barbosa, do Lar Bezerra de Menezes
    Na foto, Priscila Fernandes ( Coordenadora do lara) com as idosas Ana Francisca Pereira (cadeira de rodas) e Angelina Pereira Barbosa, do Lar Bezerra de Menezes Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Para Gilberto Pereira, voluntariar é um ato de amor e gratidão
    Para Gilberto Pereira, voluntariar é um ato de amor e gratidão Foto: Material cedido ao Correio
  • Aponte a câmera para o QR Code para buscar informações no portal Voluntariado em Ação da Sejus DF
    Aponte a câmera para o QR Code para buscar informações no portal Voluntariado em Ação da Sejus DF Foto: Reprodução
Giovanna Sfalsin*
Carlos Silva
postado em 29/01/2025 05:31