Ser jornalista é viver entre dois mundos: o que acontece e o que se anuncia. É aprender a escrever com a urgência de quem corre contra o tempo e, ainda assim, tentar não perder a alma no meio do barulho. É lidar com o efêmero e o eterno, com a ficção e o fato, com a lágrima da novela e o sangue da rua. Todos os dias, somos forçados a escolher o que cabe na manchete — e o que o coração precisa suportar calado.
Na sexta-feira à noite, eu achava que o desafio era apenas encontrar o título perfeito para a matéria sobre o capítulo final da novela que parou o país. A redação fervia: televisores ligados, gente apostando quem havia matado Odete Roitman, e o fechamento das notícias do dia correndo seu fluxo natural. Eu preparava a capa do Aqui-DF do dia seguinte, tentando condensar o mistério de meses em poucas palavras. Do lado de fora, os brasilienses pareciam respirar junto com as telas, cada uma abrigando um telespectador em suspense.
Mas a vida real interrompeu a ficção: um adolescente de 16 anos foi morto embaixo do bloco onde morava, na entrequadra da 112/113 Sul, área nobre da cidade. Tentaram levar o celular, ele reagiu.
Enquanto a nação se chocava com a não-morte fictícia da vilã mais temida da televisão, um corpo real estava sem vida sobre o cimento. O som da televisão ainda ecoava na redação quando a tela do computador piscou com as primeiras imagens do crime: a fita de isolamento no Parque Maria Cláudia Del'Isolla — que foi batizado em memória a outra jovem vítima da crueldade humana —, o estarrecimento dos moradores e transeuntes da região aparentemente tranquila, os menores infratores sendo apreendidos logo em seguida.
Duas mortes na mesma noite. Uma com trilha sonora, outra com silêncio. Na ficção, a vilã ressuscita em grande estilo, com a voz marcante de Gal Costa ao fundo, sua memória eternizada em chamadas de capa, posts e memes nas redes sociais. Na vida, o menino de 16 anos — o nome dele era Isaac Augusto — não teria segunda chance, nem close final "nem vale a pena ver de novo". E sua tragédia se tornou a manchete do Correio do dia seguinte.
A ironia me atravessou feito uma bala: o país reagiu à morte fictícia de uma mulher que simbolizava a corrupção, a falta de escrúpulos e o sangue frio para tirar a vida de alguém, enquanto, a poucos quarteirões do centro do poder, uma tragédia verdadeira confirmava que os mesmos males seguem vivos, transmutados nas esquinas, nas praças, nas mãos ávidas de quem quer apenas tomar o que o outro tem. Dois retratos de um mesmo Brasil — violento, impune, viciado em espetáculo.
Participei do fechamento das duas manchetes na madrugada, uma sobre o assassinato que parou a ficção e outra sobre o crime que a realidade não conseguiu evitar, com o horror silencioso de uma cidade partida, onde um menino foi morto por um aparelho que cabe na palma da mão. E veio à tona o peso e a solidão desse ofício.
Eram altas horas quando saí da redação pensando que talvez nada mudou da primeira pergunta da noite — quem matou Odete Roitman? — à segunda — por que mataram Isaac? — e à terceira, que viria na sequência do episódio seguinte.
Ontem, estreou uma nova novela — que tem um jornalista do Distrito Federal como um dos autores — e um novo homicídio na capital do país também ganhou manchetes. E a obra de ficção levantou uma nova questão que segue valendo para a realidade: quanto vale uma vida? A resposta é que, no Brasil do vale tudo, a vida vale muito pouco...
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