
O Distrito Federal registrou, na madrugada deste domingo (18/1), um crime que interrompeu de forma brutal a vida de uma adolescente de apenas 14 anos, em Planaltina. Foi o primeiro feminicídio de 2026. A menina foi encontrada morta dentro do próprio apartamento, com sinais de violência no pescoço e no rosto. O principal suspeito é o namorado da mãe da vítima, identificado como Marlon Carvalhedo da Rocha, de 28 anos. Segundo a Polícia Militar (PMDF), ele cumpria prisão domiciliar desde outubro e possui ao menos duas passagens por estupro, roubo de veículo, além de registros por uso e porte de drogas.
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A PMDF foi acionada, na manhã deste domingo, inicialmente para atender a uma ocorrência de possível homicídio no condomínio Total Ville 3. Ao chegarem ao local, policiais do 14º Batalhão constataram que a vítima já estava sem sinais vitais. De acordo com informações repassadas pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), a adolescente apresentava lesões no pescoço e no rosto, compatíveis com sinais de violência.
Segundo relato da mãe à polícia, na noite anterior ao crime, ela estava no apartamento com as duas filhas e o homem com quem mantinha um relacionamento recente. O grupo comemorava a aquisição do imóvel. A mulher levantou a suspeita de que o companheiro tenha colocado alguma substância em sua bebida, o que teria feito com que ela não despertasse durante a madrugada. Ainda conforme o depoimento, o homem teria pedido para que a outra criança, de 11 anos, dormisse em um cômodo separado.
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Na manhã seguinte, ao acordar e chamar pela adolescente, a mãe não obteve resposta. Ao entrar no quarto, encontrou a filha caída, com sangramento no nariz e o corpo gelado. O Samu foi acionado imediatamente e, após constatar o óbito, solicitou apoio da PMDF. A mulher informou ainda que, ao despertar, percebeu que o homem havia fugido do apartamento levando um notebook e dois celulares.
O suspeito foi localizado a cerca de dois quilômetros do local do crime, na região da Estância III, com o uso do GPS dos celulares furtados. "Na abordagem, ele apresentou resistência e foi necessário, para a integridade física dele e da guarnição, o algemamento e a condução para a delegacia", afirmou o segundo-tenente Hybsen Pereira Batista, oficial do 14º Batalhão.
Com o suspeito, os policiais encontraram perfumes e outros pertences levados da residência da vítima, além dos dois celulares e do notebook. De acordo com a PMDF, o homem manteve comportamento frio durante o trajeto para a delegacia, sem demonstrar arrependimento. À polícia, Marlon disse que tentou fazer uso de drogas no apartamento durante a madrugada e, após ser impedido pela adolescente, enforcou-a.
A Polícia Civil investiga o caso como feminicídio e trabalha com a linha de apuração de tentativa de estupro. Vestígios de luta encontrados no apartamento, a dinâmica relatada pela mãe e o histórico criminal do suspeito reforçam essa hipótese.
Outros detalhes apurados pelas autoridades indicam que o apartamento onde o crime ocorreu havia sido comprado na planta e entregue há cerca de três meses, ainda sem estrutura básica de moradia. Segundo um morador, que pediu para não ter o nome divulgado, "o imóvel não tinha nada, nem móveis nem iluminação, apenas alguns colchonetes no chão, garrafas de bebida e uma panela com um resto de comida".
A mãe da adolescente prestou depoimento na 16ª Delegacia de Polícia (Planaltina) e passou mal ao deixar a unidade, sendo amparada por familiares. A irmã da vítima ficou sob os cuidados de uma tia.
Folha corrida
Registros da PMDF mostram que Marlon acumulava um histórico de ocorrências graves ao longo dos últimos anos, envolvendo crimes sexuais, uso de drogas e roubo.
Em 2016, ele foi autuado por uso e porte de substância entorpecente. Três anos depois, em 24 de agosto de 2019, a PMDF voltou a ser acionada para atender a uma ocorrência de estupro de vulnerável. A vítima foi uma criança de 11 anos. O crime ocorreu durante um almoço em uma chácara. Segundo relato da mãe da vítima à polícia, o homem chegou ao local visivelmente embriagado e sob efeito de drogas. Em determinado momento, a mulher deixou as filhas — de 11 e 3 anos — sob a supervisão da mais velha, de 14, e foi descansar. Pouco depois, teve um pressentimento e passou a procurá-las.
Terceiros informaram que as meninas haviam ido até uma cachoeira acompanhadas pelo suspeito. Após cerca de uma hora de buscas, a mãe encontrou uma das filhas, que relatou que o homem havia levado a irmã, de 11 anos, à força. A vítima foi localizada em seguida e contou ter sofrido abuso sexual, além de ameaças de morte.
Em 23 de dezembro de 2023, a PMDF atendeu nova ocorrência de estupro envolvendo o mesmo homem, dessa vez, contra a própria mãe. Ele estava em saída temporária de Natal quando o crime foi registrado. Ao chegarem ao local, os policiais encontraram o autor contido pelo pai e pelo irmão.
Mais recentemente, em 13 de janeiro deste ano, o homem passou a ser investigado por suspeita de envolvimento em um roubo de veículo no Itapoã. Durante um patrulhamento, o automóvel foi localizado nas proximidades da Prainha do Lago Norte. O condutor desobedeceu às ordens de parada, colidiu contra árvores e fugiu a pé para uma área de mata, não sendo localizado naquele momento. Uma passageira que estava no veículo foi detida por desacato, e, durante a busca, os policiais encontraram uma carteira de identidade atribuída ao suspeito.
Até a veiculação desta reportagem, Marlon seguia detido na 16ª DP.
Saiba Mais
Palavra de especialista
Um crime
previsível
Por Larissa Guedes, advogada especialista em direitos das mulheres e mestra em Estado, governo e políticas públicas
Crimes como esse continuam acontecendo porque a violência de gênero contra mulheres e meninas no Brasil não é um episódio excepcional. Essa violência é estrutural, é previsível, é enraizada nas relações sociais e familiares. Os homens entendem que os nossos corpos pertencem a eles. Quando falamos de um padrasto que estupra e mata uma adolescente, isso é o resultado extremo de uma lógica que ainda tolera o controle, a dominação, a violência do corpo feminino, principalmente, quando esse corpo é de uma menina.
A violência intrafamiliar segue sendo invisibilizada e naturalizada. É um espaço que deveria ser de proteção, mas ainda é, para muitas mulheres e meninas, um lugar de grande risco. Essas desigualdades de poder dentro das famílias somam-se ao medo, à dependência financeira, à dependência emocional e à ausência de escuta. Isso produz silêncios prolongados. O crime não acontece só no dia do assassinato, ele se constrói por meio de abusos, ameaças, silenciamentos, sinais de alerta que não são identificados ou levados a sério.
Infelizmente, a atuação do Estado é sempre tardia, fragmentada. Falta articulação nas escolas, na área da saúde, na assistência social e no sistema de Justiça. As mulheres seguem sendo revitimizadas nesses espaços. Falta capacitação contínua das equipes para reconhecer violência sexual e psicológica, investimento, prioridade política para proteção à infância e proteção de gênero às mulheres.
O Brasil tem boas leis, mas a implementação é falha e desigual. Existem instrumentos institucionais que precisam funcionar de forma efetiva. Os canais de denúncia precisam ser acessíveis, os conselhos tutelares precisam ser fortalecidos, o sistema de Justiça precisa ter uma resposta mais rápida e uma rede de proteção que atue antes da morte. A gente não precisa morrer para tentar salvar a outra. Nenhuma mulher se protege sozinha dentro de uma estrutura de violência. A proteção real depende de políticas públicas permanentes e a responsabilização efetiva dos agressores.
Se continuarmos tratando casos como esse como exceções monstruosas e não como resultado de uma violência que é cotidiana, previsível e evitável, vamos continuar contabilizando mortes.
Salvar nossas vidas e dar dignidade para as mulheres precisa ser prioridade no Brasil.
Casos
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF), entre janeiro e junho de 2025, foram registrados 319 estupros de vulnerável no DF. Em 83% dos casos, as vítimas eram mulheres. Em 67%, os crimes ocorreram dentro de casa. A estatística não traz o recorte de casos envolvendo menores de 14 anos. Segundo o Código Penal Brasileiro, a conjunção carnal ou a prática de qualquer ato libidinoso com pessoa menor de 14 anos ou alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tenha o discernimento necessário para consentir, é considerado estupro de vulnerável. A pena prevista é de reclusão de oito a 15 anos, que pode ser aumentada em caso de lesão corporal grave ou morte da vítima. Na segunda hipótese, a pena pode subir para até 40 anos. Além disso, segundo o Painel de Monitoramento de Feminicídios da pasta, 28 mulheres foram mortas vítimas do crime em 2025 no DF. O número é maior do que o de 2024, quando foram registrados 22 feminicídios.
Onde pedir ajuda?
» Ligue 190: Polícia Militar (PMDF)
» Ligue 197: Polícia Civil (PCDF)
» Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher (Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres). Por esse canal, também podem ser feitas denúncias de forma anônima, 24 horas por dia, todos os dias.
Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher (Deam):
» Deam 1: EQS 204/205, Asa Sul (atende todo o DF, exceto Ceilândia)
» Deam 2: St. M QNM 2, Ceilândia (atende Ceilândia)

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