
O governador Ibaneis Rocha (MDB) negou ter participado de qualquer negociação envolvendo a tentativa de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). Segundo o emedebista, não houve tratativas diretas com o controlador da instituição privada, Daniel Vorcaro, sobre operações relacionadas ao banco público. "Nunca tratei nada relacionado ao BRB com o Vorcaro. Todas as tratativas foram feitas pelo Paulo Henrique (Costa) — ex-presidente do BRB", afirmou ao Correio.
Ibaneis confirmou, no entanto, que manteve encontros com Vorcaro e chegou a ir à residência do banqueiro, mas sustentou que o tema não foi discutido nessas ocasiões. A versão do governador diverge do depoimento prestado por Vorcaro à Polícia Federal, no qual o empresário afirmou ter conversado com o chefe do Executivo distrital sobre a operação.
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Paulo Henrique Costa está sob investigação e foi afastado da presidência do BRB por decisão judicial, pelo período de 60 dias. Mas logo após a deflagração da Operação Compliance Zero, que levou à prisão de Vorcaro, em novembro, Ibaneis destituiu o presidente do banco do cargo.
Ontem, o PSB e o Cidadania protocolaram, na Câmara Legislativa (CLDF), um pedido de impeachment contra Ibaneis. A denúncia atribui ao governador a prática de crime de responsabilidade em razão de sua atuação — e, segundo os autores, de sua omissão — na tentativa de compra do Banco Master pelo BRB, operação barrada pelo Banco Central e que passou a ser alvo de investigações de órgãos de controle e da Polícia Federal.
Entre outros nomes, a representação é assinada por Cristovam Buarque, ex-governador e presidente da Comissão Provisória Regional do Cidadania-DF; Rodrigo Rollembeg (PSB-DF), deputado federal; e Ricardo Cappelli, membro do Diretório do PSB-DF. No documento, os partidos afirmam que a tentativa de aquisição representava "um risco sistêmico elevado ao patrimônio do Distrito Federal".
Os autores sustentam que os fatos narrados "extrapolam o campo do erro administrativo" e apontam para uma "gestão temerária e politicamente estimulada de recursos públicos". Ressaltam ainda que, à época, havia "alertas reiterados do mercado financeiro, da imprensa especializada e de órgãos de controle" sobre os riscos do negócio. "A operação foi amplamente criticada por envolver recursos públicos em uma instituição privada com sinais evidentes de fragilidade financeira", afirma a denúncia.
O líder do governo na CLDF, deputado Hermeto (MDB), afirmou que não vê ambiente político para o avanço de um pedido de impeachment contra o governador e minimizou as críticas feitas pela oposição que, segundo ele, "está no papel dela". Hermeto defendeu cautela diante das denúncias e ressaltou que é preciso aguardar o andamento das apurações. "Falam dos encontros, mas ainda não há como saber o teor do encontro. Se encontrar com alguém é crime?", questionou. O parlamentar informou, ainda, que está em viagem e deve aprofundar as discussões sobre o tema na segunda-feira.
Oposição
O presidente do PSB no Distrito Federal, Rodrigo Dias, afirmou que o pedido de impeachment do governador Ibaneis Rocha está sendo tratado como uma pauta suprapartidária e vem sendo articulado com outras legendas e parlamentares de oposição. Segundo ele, "essa não é uma pauta de um partido só, essa é uma pauta do cidadão do Distrito Federal". Rodrigo Dias disse que, antes mesmo do protocolo do pedido, houve conversas com diferentes partidos e que o diálogo deve continuar.
O ex-governador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) afirmou que o pedido de impeachment é resultado de um conjunto de fatos que, segundo ele, confirmam as denúncias feitas desde o início pelo PSB sobre a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB. "Ficou claro, após a operação da Polícia Federal, que o BRB desembolsou R$ 12,2 bilhões em uma operação de compra de títulos inexistentes, que serviu para tentar esconder a operação de aquisição do Banco Master", disse.
Ricardo Cappelli, da executiva regional do PSB, criticou as alternativas aventadas pelo governo para cobrir o rombo no BRB e classificou o cenário como "gravíssimo". Segundo ele, usar recursos do caixa do DF para cobrir o prejuízo "significaria tirar dinheiro da saúde, da educação e da segurança pública". Cappelli também rejeitou a possibilidade de criação de um fundo imobiliário com terrenos públicos ou a transferência de empresas estatais para o banco.
Cristovam Buarque adotou um tom mais duro ao comentar o caso e disse que as alternativas apresentadas pelo governo penalizam diretamente os brasilienses. Para o ex-governador, a sociedade não pode assistir passivamente ao que classificou como destruição da imagem do BRB. "Estamos aqui como cidadãos e cidadãs do Distrito Federal dizendo basta. A resposta institucional precisa ser o impeachment", declarou.
Outro pedido
O Partido Socialismo e Liberdade (PSol) também protocolou pedido de impeachment contra o governador por conta do caso Master/BRB. A denúncia sustenta que há indícios de falhas graves de governança, probidade administrativa e preservação do interesse público. Segundo o documento, o objetivo não é antecipar culpa, mas apurar se o chefe do Executivo "atuou - ou deixou de atuar - com o dever qualificado de zelo, probidade, impessoalidade e governança".
No texto, o partido afirma que a controvérsia pública envolve "a existência de interlocuções atribuídas ao governador com o controlador do Banco Master e, simultaneamente, versões públicas contrapostas quanto ao conteúdo e ao alcance desses contatos". Para o PSol, essa divergência já configura "ponto de elevada gravidade institucional".
O deputado distrital Fábio Felix (PSol) afirmou que o pedido representa uma mudança significativa na conjuntura política do Distrito Federal. Para o parlamentar, a forma como o projeto de lei que autorizou a compra do banco Master foi aprovado reforça a gravidade da situação. "Foi votado em tempo recorde aqui na Casa. Protocolado e aprovado no mesmo dia que foi lido, sem nenhuma discussão", lembrou. O deputado alertou para os impactos financeiros e institucionais do caso, defendendo que a Câmara não pode se omitir, pois há risco direto ao patrimônio público.
Polêmica
A polêmica que envolve o BRB e o Banco Master tornou-se um dos principais pontos de tensão no cenário político e financeiro do Distrito Federal após o banco controlado pelo GDF sinalizar interesse em adquirir partes do Master, instituição que enfrentava sérias dificuldades financeiras.
O projeto de lei encaminhado pelo Executivo distrital, que pedia autorização para aquisição de 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do capital social do Master, foi aprovado na CLDF com 14 votos favoráveis e sete contrários.
Após mais de cinco meses de avaliação técnica do pedido, protocolado em março de 2025, o Banco Central (BC) rejeitou a transação em setembro de 2025, sob o argumento de que irregularidades e falta de transparência nos ativos da instituição privada representavam graves incertezas para um banco estatal.
O episódio ganhou novos contornos em novembro de 2025, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, que investigou indícios de fraudes na emissão e negociação de carteiras de crédito envolvendo o Banco Master, resultando na prisão de executivos vinculados ao banco e no afastamento de dirigentes do BRB.
Trâmite do pedido de impeachment
- Qualquer cidadão, o Ministério Público ou deputado distrital pode apresentar pedido de impeachment contra o governador do DF, desde que haja indícios de crime de responsabilidade ou de infração político-administrativa.
- A representação é protocolada na Câmara Legislativa (CLDF) e analisada pela Mesa Diretora. Em seguida, o plenário decide, por maioria simples, se admite ou não a abertura do processo.
- Caso o plenário aprove a abertura do processo, o governador é afastado temporariamente do cargo por até 180 dias. Durante esse período, o vice-governador assume o comando do Executivo — atualmente, Celina Leão (PP).
- Após a admissibilidade, é formado um colegiado misto, nos moldes do impeachment do presidente da República, composto por cinco deputados distritais e cinco desembargadores.
- O processo é presidido pelo presidente do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), a quem cabe o voto de desempate, se necessário.
- O colegiado analisa o mérito da denúncia, garantindo ao governador o direito ao contraditório e à ampla defesa.
- Possibilidades:
- o governador perde o mandato e fica inelegível por oito anos;
- o governador é reconduzido ao cargo e retoma o exercício do mandato.

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