Mal o ano começou e já temos uma trend que domina as redes sociais. Alguém em algum lugar fez a constatação bastante óbvia, mas igualmente chocante de que se passaram 10 anos desde 2016. E porque a ideia não surgiu em 2025, 2024 ou 2020, ou só mais à frente, em 2027 ou 2045? Essa resposta, caros amigos, também não tenho.
O que sei é que minha timeline está repleta de memórias, de amigos e de celebridades daquele ano que parece que vivemos ontem, mas que passou há um bom tempo. Geralmente compartilham imagens de momentos felizes e de grandes acontecimentos. Onde moravam, com quem estavam, as viagens, os casamentos, os nascimentos. Mas há espaço ainda para relembrar o luto e as perdas. A omissão daquilo que se viveu e prefere esquecer esteve presente também.
Não vi, porém, ninguém compartilhar imagens da cidade. Como era Brasília em 2016? A capital enfrentava uma grave crise hídrica. Aprendemos a verificar diariamente o volume dos reservatórios do Descoberto e de Santa Maria, apreensivos (no ano seguinte, iniciaríamos o racionamento de água que duraria quase 18 meses). Em contraposição, no mesmo ano, Samambaia chegou a ter mil desabrigados em razão das chuvas fortes. Apesar de tudo, os ipês seguiram florindo e o carnaval de rua se consolidou na cidade, arrastando um milhão de foliões.
Se hoje a polarização na política é tema cotidiano no noticiário e na rotina de cada um, em 2016 também era evidente e gritante. O gramado da Esplanada dos Ministérios ganhou um muro para separar manifestantes pró e contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Depois que Michel Temer assumiu, a pressão popular contra medidas de cortes de gastos implementadas pelo governo dele tomou conta de escolas, da Universidade de Brasília (UnB) e, por várias vezes, da Esplanada, novamente. Em um dos protestos, um grupo protagonizou atos de vandalismo lamentáveis, que marcaram o ano. Ao todo, as forças de segurança do DF registraram 149 manifestações pacíficas e duas em que ocorreram atos de violência.
Seria maravilhoso poder cravar que evoluímos no combate à violência de gênero, mas os crimes que calavam mulheres em 2016 são os mesmos contra os quais lutamos e levantamos as bandeiras pelo fim da impunidade e combate ao machismo. Naquele ano, pouco depois da implantação da lei que tipifica o feminicídio, a estudante Louise Maria da Silva Ribeiro, 20 anos, que cursava o quarto semestre de biologia na UnB, foi morta dentro do câmpus pelo ex-namorado. Gritávamos basta em 2016, e seguimos gritando em 2026. As vítimas das mais diversas violências somam milhares.
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A trend certamente não deve ter começado com qualquer objetivo pedagógico. Afinal, a vocação das redes sociais é entreter e dispersar a atenção. Mas o lugar do conforto não pode se tornar o da inércia. Podemos usar o viral para refletir sobre o que passou e sobre como queremos viver os próximos 10 anos. Se 2016 foi logo ali, é bom ficar de olho, pois 2036 chegará em breve também.
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