Considerado raro, mas extremamente agressivo, o câncer de pâncreas ainda representa um dos maiores desafios da oncologia, uma vez que evolui de forma silenciosa e, na maioria dos casos, o diagnóstico ocorre em estágios avançados. O oncologista clínico Arilto Silva, especialista em tumores do aparelho digestivo do Grupo Oncoclínicas, explicou no CB.Saúde — parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília — de ontem, em conversa com as jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte, que o câncer de pâncreas acometeu figuras públicas, como a atriz Titina Medeiros e o ex-ministro da Defesa Raul Jungmann. O especialista destacou formas de prevenção, sintomas e tratamento. A seguir, trechos da entrevista.
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É um câncer que está acometendo jovens e que é muito letal?
Em certo grau, sim. De maneira geral, quando falamos sobre tumores malignos, de qualquer parte do corpo, o câncer de pâncreas corresponde a cerca de 1% de todos os tumores. Ou seja, ele não é frequente, mas é extremamente agressivo. Temos, aproximadamente, 10 mil novos casos por ano no Brasil. Considerando toda a população, é um número relevante, mas não se trata de um tumor preponderante. É incomum e muito agressivo. Às vezes, o paciente tem pouco tempo após o diagnóstico. Por isso, como sempre reforçamos, o diagnóstico precoce, com a doença ainda pequena, é a melhor forma de alcançar a cura.
Essa dificuldade está relacionada ao fato de o pâncreas ser um órgão de difícil acesso?
Exatamente. Existe uma dificuldade histórica. Apesar de todos os avanços da medicina, infelizmente, não conseguimos diagnosticar precocemente a maioria dos casos, por diversas razões sociais e culturais. De forma geral, o câncer de pâncreas evolui silenciosamente. O paciente apresenta poucos sintomas no início. Quando a doença cresce, os sinais começam a aparecer. Os sintomas iniciais incluem indisposição, perda de apetite e alterações digestivas. Como a doença ocorre, em grande parte, em pessoas mais velhas, esses sinais acabam sendo confundidos com mudanças hormonais ou do próprio ciclo de vida. Com o crescimento do tumor, ele pode obstruir pequenos canais, surgindo sintomas mais importantes, como náuseas, vômitos e icterícia, que é o amarelamento da pele e dos olhos. Quando há perda de peso significativa, geralmente é nesse momento que o paciente procura um médico.
O diagnóstico é difícil, mas existe alguma forma de monitoramento?
Sim. Falamos muito de campanhas como o Outubro Rosa e o Novembro Azul porque cânceres de mama e próstata são mais prevalentes. O câncer de pâncreas não tem indicação para rastreamento de rotina em check-ups. Ainda assim, conseguimos identificar tumores pequenos, que são potencialmente curáveis, por meio de exames como ultrassonografia abdominal e tomografia. Caso haja alguma alteração, investigamos melhor com a ressonância magnética, que é o exame mais indicado para avaliar o tecido pancreático. Existe também um exame de sangue chamado CA 19-9, que é um marcador tumoral. Ele nem sempre se altera quando o tumor existe, mas quando está elevado e o câncer é confirmado, passa a ser útil para acompanhar a atividade da doença ao longo do tratamento.
O mapeamento genético ajuda? Existe relação hereditária?
O genoma humano foi decifrado em 2001. Desde então, passamos a ter acesso às informações do DNA, mas levamos anos para aprender a interpretá-las corretamente. Hoje sabemos que cerca de 10% dos cânceres de pâncreas têm origem hereditária. Todo tumor, necessariamente, envolve uma mutação genética, mas isso não significa que ela tenha sido herdada dos pais. São conceitos diferentes. A mutação pode surgir ao longo da vida, em uma célula saudável, e dar origem ao câncer.
Quais hábitos ajudam na prevenção do câncer de pâncreas?
A maioria dos casos, cerca de 90%, não é hereditária. Fatores ambientais podem influenciar, como exposição a produtos químicos. Há também fatores relacionados ao estilo de vida, como o consumo de álcool e o tabagismo. O cigarro é um fator de risco importante para o câncer de pâncreas, assim como o álcool. Mesmo em pequenas quantidades, o álcool já representa risco. O consumo abusivo pode levar à pancreatite crônica, uma inflamação que persiste por meses ou anos e está fortemente associada ao desenvolvimento do câncer.
O tratamento é cirúrgico?
Quando falamos em cura, o tratamento é cirúrgico. Se a doença é pequena e está em uma localização anatômica favorável, a cirurgia é a melhor forma de alcançar a cura. A quimioterapia entra como tratamento complementar. Porém, se o tumor está em uma região que impede a cirurgia inicial, não faz sentido operar sem conseguir retirar toda a doença. Nesses casos, utilizamos quimioterapia e, eventualmente, radioterapia, com o objetivo de reduzir o tumor. Ainda assim, quando a cirurgia não é possível, a quimioterapia passa a ser o tratamento principal.
Há chances de cura?
Sim. O câncer é classificado em quatro estágios. Os estágios um e dois são iniciais, o três é intermediário e o quatro é avançado. Nos casos iniciais, as chances de cura podem chegar a 70%.
