"Antes do sintoma, existe uma estrutura". A avaliação é da psicóloga, psicanalista, doutora e pós-doutora em Psicologia Clínica Ana Luísa Coelho Moreira, durante o primeiro painel do Janeiro Branco: Diálogos sobre a saúde mental no Brasil.
A especialista defende a necessidade de ampliar o olhar sobre saúde mental para além do indivíduo, considerando fatores sociais, históricos e coletivos que atravessam a vida das pessoas. “Pensamos muitas vezes a questão do cuidado como cuidado individual, que as pessoas precisam se virar, procurar entender oque está passando consigo. E esquecemos muito dessa ideia do cuidado coletivo, da prática coletiva, que perpassa o nosso ambiente de trabalho, familiar e as nossas relações”, afirmou.
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Ana Luísa destacou que, na sociedade atual, o adoecimento costuma ser atribuído exclusivamente ao sujeito, como se fosse resultado de falhas pessoais. “É muito atribuído à pessoa individualmente: é você que não está dando conta, é você que não está entregando o que deveria, é você que não está conseguindo se cuidar”, disse.
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Para a psicóloga, ao buscar atendimento, as pessoas costumam relatar sinais pontuais, como palpitações ou ansiedade, sem perceber a estrutura social e relacional que sustenta esse adoecimento. “Às vezes a gente esquece dessa estrutura que perpassa a nossa vida, a nossa cultura, as nossas relações”, explicou.
Entre os fatores sociais que impactam diretamente a saúde mental, Ana Luísa citou desigualdades sociais, violência, exposição constante a conteúdos sensacionalistas e violências estruturais como capacitismo, sexismo e racismo. “São questões que já estão arraigadas na nossa sociedade, desde a infância, e que vão eclodindo nessa efemeridade que a gente vai vivendo. Isso provoca um grande sofrimento psíquico, principalmente nas relações que a gente desenvolve ao longo da vida”, afirmou.
Ela reforçou que nem todas as pessoas adoecem da mesma forma e que o contexto histórico, social, familiar e territorial precisa ser considerado. “A gente precisa pensar na interseccionalidade: gênero, raça, classe social, religião, território. Não dá para falar que todo mundo tem as mesmas 24 horas no dia”, afirmou.
Para finalizar, Ana Luísa elencou elementos essenciais para o cuidado em saúde mental: escuta ética, respeito ao tempo do sujeito, vínculo e investimento contínuo em políticas públicas. “Existe um tempo para o sofrimento e um tempo para a elaboração. A gente leva tempo para adoecer e também leva tempo para sair disso”, concluiu.
CB.Debate
Em alusão ao mês dedicado à conscientização sobre a importância da saúde mental, o Correio promove, nesta quinta-feira (29/1), o CB.Debate Janeiro Branco: diálogos sobre a saúde mental no Brasil. O evento está sendo transmitido ao vivo pelo canal do Youtube e, ao final de cada painel, o público on-line e presencial poderá fazer perguntas aos painelistas.
Além dos fatores de adoecimento mental e desafios na assistência, será discutida ainda a construção de espaços de escuta e cuidado. Entre os painelistas, autoridades, médicos e especialistas compõem o debate.
No Brasil, segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), entre 2024 e 2025, houve um aumento de 143% na quantidade de pessoas afastadas do trabalho por transtornos mentais, um cenário que pede atenção e responsabilidade por parte do governo e sociedade.
