
O silêncio que precede o movimento no picadeiro ganha um novo contorno na quarta edição do Arranha-Céu: Festival de Circo Atual. Entre 4 e 8 de março, o Espaço Cultural Renato Russo, na 508 Sul, deixa de lado as grandes trupes para focar na potência do indivíduo. Sob o tema "Solos do picadeiro", o evento propõe um mergulho na intimidade do artista, provando que um único corpo é capaz de preencher toda a imensidão de uma lona — ou de um palco — com a mesma força de um elenco inteiro.
Essa escolha pelo formato mais enxuto não foi apenas uma adaptação logística, mas uma oportunidade de curadoria afetiva. Julia Henning, uma das organizadoras, explica que o olhar se voltou para espetáculos de diferentes cantos do Brasil que emocionaram a equipe nos últimos anos.
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"Vimos muitos solos potentes e ficamos com vontade de compartilhar esse encantamento com o público de Brasília. Cada artista convidado vira, também, um parceiro do festival", conta Julia, destacando que a programação abrange talentos de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e do Distrito Federal.
Para Beatrice Martins, também organizadora, o espetáculo solo transforma a energia da plateia. "Tudo passa por um único corpo em cena; é ele que sustenta o tempo, o risco, o silêncio e o olhar", observa.
Essa proximidade quebra a barreira entre quem faz e quem assiste, permitindo que o público sinta a respiração do artista. Beatrice ressalta que o objetivo é mostrar o circo como linguagem contemporânea. "O artista está só, mas nunca isolado: ele compartilha o olhar e convoca à troca com quem assiste".
Memória e subversão
Um dos exemplos mais lúdicos dessa troca é o espetáculo A Sanfonástica Mulher-Lona, de Lívia Mattos. Diferentemente dos palcos tradicionais, a artista carrega o próprio picadeiro no corpo, vestindo uma lona iluminada enquanto toca sanfona e caminha entre as pessoas.
É uma intervenção que exige proximidade máxima, funcionando como uma espécie de "menor espetáculo do mundo". Para vivenciar a obra, o espectador precisa estar ali, colado ao movimento, transformando o espaço público em um encontro de memórias e sons.
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No palco, a diversidade de temas mostra que o circo atual vai muito além da excelência em habilidades físicas. O festival traz espetáculos como Faminta, de Natasha Jascalevich, e Sobretudo, de Emerson Noise, que exploram desde a liberdade feminina até a poesia da solidão.
Já em Dita Cuja, a brasiliense radicada na Europa Luiza Adjuto utiliza a lira acrobática para brincar com estereótipos da feminilidade. Para ela, o circo é um meio de subverter a realidade. "O estereótipo se torna não uma mentira, mas uma verdade incompleta que a gente desconstrói em cena", pontua a artista.
Luiza, que começou sua trajetória na dança e hoje circula por picadeiros do mundo, vê no festival uma chance de apresentar um circo que desafia expectativas. "É importante mostrar para além do que o espectador espera. O fazer artístico do circo é itinerante, então é muito bom poder girar os diferentes fazeres artísticos", diz ela, que também ministrará uma oficina de lira acrobática focada na integração total do corpo. Sua proposta é que os participantes sintam a potência do voo, unindo técnica e subjetividade.
Liderança e criação
A presença feminina é o fio condutor que amarra toda a estrutura do Arranha-Céu, idealizado pelo coletivo brasiliense Instrumento de Ver, com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC-DF) e apoio da Secretaria de Cultura (Secec-DF). Com a culminação no Dia Internacional da Mulher, todas as atrações contam com direção feminina, refletindo um mercado onde as mulheres ocupam espaços de liderança e criação.
Julia Henning destaca que as temáticas não fogem de debates necessários, como a objetificação e os desafios da mulher na cultura. "Somos realizadoras pioneiras no DF e sabemos os desafios de manter um trabalho sólido sendo mulheres", afirma, reforçando que o cuidado com cada detalhe nasce desse olhar atento.
Além das apresentações, o festival estende seu picadeiro para oficinas na Vila Telebrasília, exibições de filmes e debates no Colóquio Pilotis. É um convite para quem quer redescobrir o circo por meio de novas lentes, unindo a lembrança afetiva das lonas itinerantes de infância à vanguarda das artes cênicas.
No Arranha-Céu, o lugar do circo é, antes de tudo, no corpo — e esse corpo convida Brasília para um encontro onde ninguém, de fato, está sozinho no picadeiro. Os ingressos e inscrições para as oficinas, disponíveis até o dia do evento ou até acabarem as vagas, podem ser conferidos no site do Coletivo Instrumento de Ver, clicando neste link.
Veja a programação completa:
A SANFONÁSTICA MULHER-LONA, com Lívia Mattos (Bahia): é o circo em si, metaforizado por sua autonomia e liberdade potente de se chegar onde quer, adentrando territórios e diluindo fronteiras. É, ao mesmo tempo, a charanga e o picadeiro de uma mulher só, que conta - por seu acordeão - os sons de seu caminhar imersa no universo poético do fantástico.
» Quando: 6/3, às 19h
» Onde: Espaço Cultural Renato Russo
Classificação Indicativa: Livre
Duração: 30 min
Entrada gratuita.
FAMINTA, com Natasha Jascalevich (Rio de Janeiro): homenagem à potência feminina e ao seu poder de criação, expressos por meio de múltiplas linguagens: teatro, dança, música e circo contemporâneo.
» Quando: 5/3, às 20h (interpretação em Libras) com e bate-papo após a apresentação, e 6/3, às 20h
» Onde: Teatro Galpão Hugo Rodas, Espaço Cultural Renato Russo
Classificação Indicativa: 14 anos
Duração: 50 minutos.
DITA CUJA, com Luiza Adjuto (Brasília/Noruega): transitando entre a ameaça, o risco da transformação e da mobilidade, o espetáculo leva para a cena a monstruosidade e a beleza da mulher como pistas para outras possibilidades de estar no mundo.
» Quando: 7/3, às 17h (interpretação em Libras) e com bate-papo após a apresentação, e 8/3, às 18h
» Onde: Teatro Galpão Hugo Rodas, Espaço Cultural Renato Russo
Classificação Indicativa: 14 anos
Duração: 60 minutos.
SOBRETUDO, com Cia Lar Doce Lar (São Paulo): transformando a solidão em cena e a ausência em poesia, o malabarista solitário convida o público a mergulhar na fragilidade da memória e a reconhecer a força da imaginação diante daquilo que se desfez.
» Quando: 7/3, às 20h, e 8/3, às 15h (Interpretação em Libras e Audiodescrição) e com bate-papo após a apresentação
» Onde: Teatro Galpão Hugo Rodas, Espaço Cultural Renato Russo
Classificação Indicativa: 8 anos
Duração: 45 min.
Oficinas
CRIAÇÃO E SEUS PASSOS, com Emerson Noise: o encontro propõe um espaço de investigação e experimentação, oferecendo ferramentas práticas que impulsionam os participantes no desenvolvimento de suas ideias, com exercícios e métodos para tornar o processo criativo mais acessível e estruturado.
» Quando: 6/3 (sexta-feira), das 14h às 18h
» Onde: Sala Marco Antônio Guimarães – Espaço Cultural Renato Russo
» A partir de 16 anos.
LIRA ACROBÁTICA, com Luiza Adjuto: focada em entendimento de postura e ativação do corpo na execução de exercícios dinâmicos. Apesar de ser voltada a todos os níveis, os participantes precisam de um contato prévio com o aparelho e fazer esquadros bem executados. Para participar, é preciso usar roupas confortáveis para prática de exercícios, de preferência que cubram bem o corpo, principalmente axila, parte de trás dos joelhos e região lombar.
» Quando: 14/3 (sábado), das 14h às 18h
» Onde: Espaço Cia Miragem - Vila Telebrasília
» A partir de 16 anos.
COLÓQUIO PILOTIS
Artistas, criadores de espetáculos e pesquisadores da cena se reúnem para falar sobre a escrita em suas muitas possibilidades circense: a criação da dramaturgia no circo, a escrita de textos no processo criativo, a escrita dos textos que vão para a cena e outras familiaridades e estranhamentos entre procedimentos de criação da literatura e da cena.
» Quando: 4/3, às 19h, on-line e gratuito.
Ingressos e inscrições: site do Coletivo Instrumento de Ver.

Revista do Correio
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