A consultora de estilo e imagem Lorena Moraes é taxativa: os 60 podem ser os 60. Ou seja, é possível manter a essência — e comunicá-la — com a chegada da maturidade. "Uma mulher mais velha é um rio profundo e denso. Então, ela tem muita coisa para informar (...) A imagem é uma ferramenta muito poderosa, porque você diz sem dizer."
Convidada do 13º episódio do PodEnvelhecer, Lorena falou de cobranças sociais, etarismo, cuidados com a imagem masculina e um dilema comum entre as mulheres mais jovens. "Querem comunicar autoridade, elegância e estabilidade. E esses são signos de quê? De maturidade. Então, a gente precisa decidir, como sociedade, o que queremos." Confira os principais trechos da entrevista.
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Estilo se ensina ou a pessoa nasce com ele?
O estilo tem duas vertentes, que é a essência, algo que ninguém tira de você, características que você carrega e que não precisam ser apagadas. Mas tem elementos que a gente pode adicionar. Dizemos que, em relação ao estilo, a gente adiciona e sugere, mas não impõe, porque, senão, fica uma coisa simulada.
E como ficam as tendências?
A tendência é uma ferramenta que usamos para potencializar quem a gente já é. Eu falo adicionar ferramentas nesse sentido, de servir a você de acordo com o ambiente em que você vai transitar. Nem tudo que te serve, te cabe. O estilo, a tendência, a moda têm que trabalhar a seu favor, e não o contrário. Eu não gosto nem de usar esse termo, mas todo mundo fala que, hoje, os 60 são os novos 40, porque as mulheres estão envelhecendo de uma forma muito diferente.
Existem protocolos ou você pode ser livre para ser quem quiser em qualquer idade?
Os 60 podem ser os 60. E com dignidade, porque cada marca que eu carrego no rosto fala algo a respeito da minha história, da minha construção. Há esse estigma social de que envelhecer é uma coisa ruim. Eu sou uma mulher negra e a minha avó, que já é falecida, falava que só está vivo quem não morreu. É um manifesto de resistência de você continuar viva. Para uma mulher, num país como o nosso, que sofre uma série de questões em relação à mulher, à mulher idosa, à mulher em suas diversidades, e em que nem todas permanecem vivas como gostariam e como merecem, é um símbolo de poder chegar aos 60 anos e dizer: "Estou viva". Sobre os protocolos, a gente tem um senso de entendimento do que eu sinto como confortável para mim. Costumo dizer que a minha primeira audiência sou eu. Tem coisas que eu usava aos 20 anos, que hoje não uso (eu tenho 44 anos) porque não me sinto bem. E não porque alguém disse que eu não deveria usar. E tem também o senso de adequação. Cada ambiente requer que você esteja posicionada de uma forma, porque não é sobre se importar com o que o outro fala de você, mas se importar com o que eu estou comunicando.
Nesse caldeirão que você trouxe, entra outra questão, que também é uma perspectiva coletiva, o etarismo. Quando se envelhece, as proibições quanto ao estilo aumentam?
Sim. Eu sou grisalha desde os 14 anos e passei por duas transições, a do cabelo natural e, depois, para o cabelo grisalho. E eu ouvi muito essa questão do desleixo. Eu não posso ficar sem pintar o cabelo, porque vou parecer mais velha, cansada. A gente ainda tem muitos avanços para fazer, mas eu vejo que já se avançou muito. A maioria das mulheres jovens que me procuram querendo se posicionar na sua imagem, comumente, dizem que querem comunicar autoridade, elegância e estabilidade. E esses são signos de quê? De maturidade. Então, a gente precisa decidir, como sociedade, o que queremos. Ao mesmo tempo em que a gente impõe barreiras para pessoas mais velhas, também queremos a maturidade comunicada na imagem delas. Não é que as pessoas não aceitem, não gostem, é porque não temos essa clareza de pensamento do que significa.
Como você percebe essas exigências para as mulheres negras, que chegam aos 60, 70, geralmente com um acúmulo maior de opressões?
A gente parte do princípio de que a estética da mulher branca não é igual à estética da mulher negra. A mulher negra, na sua idade madura, também tem esses atravessamentos do que é permitido que ela vista socialmente. E, ainda bem, a gente tem agora exemplos. Eu sou servidora pública, trabalho no Ministério dos Direitos Humanos, e a minha ministra é uma mulher mais velha, a Macaé Evaristo. Conheci a dona Conceição Evaristo algumas semanas atrás. Então, a gente já consegue ver uma liberdade maior de se vestir, mas diferente de uma senhora branca. A gente ainda tem essa dificuldade do adequado, mas, aos poucos, tem conseguido ver avanço, sim, de uma liberdade de expressão maior, principalmente no uso de cores, sem parecer gritante demais, inadequada demais, que foi uma coisa que nos foi dita durante muito tempo. O principal ponto é entender que a estética da mulher negra madura é diferente da mulher branca madura. E que existe uma liberdade de construção de estilo, de acordo com as mulheres da sua família. Mulheres que são letradas, em geral, têm essa possibilidade, esse repertório de buscar referências de mulheres mais velhas para se inspirar e se vestir.
É, de fato, uma construção a partir da história de cada pessoa.
Eu costumo dizer que é um baú de tesouros. Uma mulher mais velha é um rio profundo e denso. Então, ela tem muita coisa para informar, comunicar. Muitas vezes, essa mulher foi silenciada e não teve essa possibilidade, até aquele momento, de dizer quem é. E a imagem é uma ferramenta muito poderosa, porque você diz sem dizer.
Temos muito forte no Brasil a cobrança para mudar a imagem. É a plástica, são as cirurgias, agora, as canetinhas emagrecedoras. Como é que você percebe isso?
Não tem nada de errado em mudar, desde que você não esteja buscando uma fuga para se distanciar de quem você é, por não gostar de quem você é. Isso parte muito da autoestima e de como você se reconhece na sua imagem. Tem pessoas que têm muito essa necessidade da mudança estética, e essa é uma coisa que precisa ser avaliada com cuidado. Cada traço do nosso rosto tem um porquê. É o nosso RG visual. Oitenta por cento da comunicação não verbal está no rosto, não está no que a gente veste. O rosto é percepção e o corpo é adequação.
E o homem com 60, 70, 80? Ele também comunica na forma como se apresenta?
Eles estão mais nessa busca de comunicar o conforto por meio da imagem, de não ser aquele senhorzinho, mas de ser um homem maduro. Tem estratégia de comunicação de imagem para homens, para que eles mostrem o homem maduro, que são, mas sem querer simular um garoto. E nem relaxado. Mostrando os sinais no seu corpo de que eles são homens maduros, mas de que são homens que ainda têm muita vida, muita coisa para comunicar, para compartilhar.
