
Por Jorge Henrique Cartaxo
"L'homme de lettres est l'ennemi du monde". A frase eloquente de Charles Baudelaire — possivelmente o primeiro modernista do modernismo europeu —, encontrada em seu Diário Íntimo, em 1851, reflete o desconforto e a desarmonia do destemido poeta francês com a sociedade burguesa e materialista europeia do mundo industrial e urbano então em ascensão.
De certo modo, nos anos 1960/1970 do século passado, "o homem de letras é inimigo do mundo". Paz e amor, pop art, movimento hippie, liberação feminina, Black Power, Beatles, paz no Vietnã, estética pessoal em desalinho, cabelos longos e descuidados, drogas, sexo, rock and roll, espiritualismo oriental, amor à natureza, roupas multicoloridas. Tudo contra a nova "Belle Époque" do pós-guerra e seus valores, formalidades e comportamentos. Um novo protagonista entrava em cena: o jovem! Em maio de 1968, a emblemática Paris, de Voltaire, mas também de Sartre, explode em convulsão.
Brasília, que já havia realizado a primeira grande exposição de arte da cidade, em 1958, no Brasília Palace Hotel, organizada pelo peruano Felix Alejandro Barrenechea; o encerramento do Seminário Internacional sobre a Criação das Novas Cidades, também em 1958; em 1959, o grande Congresso Internacional de Críticos de Arte, organizado por Mário Pedrosa; a experiência luxuosa de Ferreira Gullar, como primeiro presidente da Fundação Cultura de Brasília, em 1961; e recebido as visitas de Frank Capra e André Malraux, entre outros, agora vivia à sombra dos governos militares. Em 1964, a UnB de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro e o Instituto Central de Artes (ICA) sofrem intervenção, seguida pela demissão e diáspora de uma plêiade de professores. Alcides Áquila da Rocha Miranda, Alfredo Ceschiatti, Athos Bulcão, Cláudio Santoro, Luiz Humberto Miranda, Nelson Pereira dos Santos, Paulo Emílio Salles Gomes e mais algumas dezenas deixaram a universidade.
Em 1968, com o AI-5, as tensões políticas e a violência inibiram e restringiram de forma mais intensa as atividades intelectuais e artísticas. Sem a UnB, sem um teatro para expressar sua criatividade — a Sala Martins Pena, no Teatro Nacional, era reservada para as agendas oficiais —, a juventude candanga e brasiliense inventava seus espaços de atividades musicais, teatrais e poéticas nas residências, no Elefante Branco, no Colégio Pré-Universitário, na Escola Parque, no Cine Brasília, na geodésica de Sérgio Prado, construída nos jardins da Escola Parque, na 308 Sul, e, quando possível, nos bares.
Em 1974, 10 anos depois do golpe militar, dois fatos sinalizaram o começo de um novo tempo, ainda distante. O general Ernesto Geisel, ao assumir a Presidência da República, em março de 1974, anunciou a famosa "abertura política, lenta, segura e gradual". Nas eleições legislativas de novembro daquele mesmo ano, o MDB — a oposição consentida naquele momento — venceu o pleito com expressiva maioria. Geisel nomeia o engenheiro Elmo Serejo governador de Brasília. Serejo convida o embaixador Wladimir Murtinho para a Secretaria de Educação e Cultura. Murtinho não era um candango qualquer: refinamento, civilização, elegância e cultura. Sinais dos tempos!
O ator João Antônio era assessor de teatro da Fundação Cultural de Brasília (criada por JK, em 1961, e, depois de 1964, Fundação Cultural do DF). Estávamos em 1973, e João sentia a tensão na cidade. Sempre que lhe era oportuno, solicitava ao diretor executivo da Fundação, Ruy Pereira da Silva, que um dos galpões da Novacap, localizados na W3 Sul (508), fosse cedido à Fundação para a realização de atividades culturais (teatro, dança, apresentações musicais, exposições etc.). No primeiro momento, foi criada uma galeria, inaugurada com uma exposição do renomado arquiteto japonês Kenzo Tange, amigo e interlocutor de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Meses depois, duas novas galerias foram inauguradas.
Em 1975, já secretário de Educação e Cultura, Wladimir Murtinho determina a reforma do galpão que ficava ao lado das galerias, transformando-o em um teatro. Nascia o Teatro Galpão, o Galpãozinho! Mauro Bondi, então estudante de arquitetura da UnB, planejou e conduziu as adaptações do local. Com a peça "O homem que enganou o diabo e ainda pediu troco", do jornalista Luiz Gutemberg, com direção de Laís Adene, o Galpãozinho foi inaugurado em 20 de junho de 1975. Com a ação e o trabalho desses personagens edificantes de nossa cidade, a cultura brasiliense teria nova amplitude e significados.
Entravam em cena Iara Pietrovski, Hugo Rodas, Augusto Pontes, Renato Vasconcelos, Cristina Borracha, Nicolas Behr, Humberto Pedrancini, Jota Pingo, Oswaldo Montenegro, Tereza Rollemberg, Alexandre Ribondi, Neio Lúcio, Renato Russo, Cássia Eller e tantos outros que terão seus trabalhos e contribuições para a cultura brasiliense aqui revisitados. Como disse o sempre marcante TT Catalão: "A Quadra 508 Sul é o marco-zero da cultura de Brasília".
Jorge Henrique Cartaxo é jornalista, mestre em História pela Universidade
Paris-Sorbonne, sócio-fundador
do Instituto Histórico do Tocantins,
sócio-correspondente do Instituto
Histórico de Goiás e diretor de
Relações Institucionais do IHG-DF

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