
Foi na primeira década do século 20 que o artista e jornalista Henrique Gougon começou a desenhar a ideia de espalhar poesia pelo prédio da Biblioteca Demonstrativa de Brasília (BDB). À frente do grupo Ciranda do Mosaico, que na época se chamava Loucos de Pedra, Gougon escolheu oito poesias de autores da cidade para que o coletivo criasse os painéis de mosaicos instalados nas fachadas laterais da BDB. Com a reforma iniciada em 2014, as obras foram retiradas e somente em janeiro deste ano voltaram ao lugar original, restauradas e inteiramente recuperadas.
A história dos Painéis Poéticos começa em 2002, quando a instituição recebeu a doação de um tótem de mosaicos em homenagem a Juscelino Kubitschek, feita pelo próprio Gougon. A ação abriu as portas para o projeto de levar poesia em mosaico para as paredes do prédio. Em parceria com Maria da Conceição Moreira Salles, então diretora da BDB, o artista começou a idealizar os Painéis Poéticos, que seriam executados pelo coletivo, cujo nome mais tarde mudaria para Ciranda do mosaico. Em 2004, a biblioteca recebeu os primeiros paineis. O tótem de JK quase foi inteiramente demolido em 2007, mas sobreviveu a duras penas, assim como os painéis, que sofriam com a água constante dos aparelhos de ar condicionado e a falta de manutenção.
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Fátima Fernandes, à frente do Ciranda do Mosaico, conta que a situação se deteriorou bastante ao longo do tempo. "Os mosaicos ficaram hiperdanificados. Muitos enferrujaram, soltaram da moldura, ficaram furados. Estragaram mesmo. Fora as pessoas que passavam e puxavam as peças", conta. Com a reforma de 2014, os mosaicos foram tirados da fachada e guardados na própria biblioteca. "Mas a ferrugem não para, é uma coisa viva, e os painéis ficaram piores ainda. Empurra para cá, para lá, muitos estragaram. E quando terminou a reforma, estavam em péssimas condições, não tinha como colocá-los de volta." O coletivo começou então a articular a restauração dos painéis. "A gente começou a cutucar no ministério, na Biblioteca Demonstrativa de Brasília, e finalmente resolveram fazer essa restauração dos paineis. Foi muita luta para conseguir", conta Fátima.
Mais de uma década depois, os Painéis Poéticos estão de volta, agora revitalizados graças ao trabalho do Ciranda do Mosaico. No total, são 24 mosaicos organizados em conjuntos que abrigam versos de oito poetas da cidade e desenhos que fazem a poesia tomar formas. Nicolas Behr, Carlos Henrique, Angélica Torres Lima, Ana Maria Lopes, Cassiano Nunes, Chico Alvim, Reynaldo Jardim e Vera Americano foram os poetas convidados por Gougon para ter os versos imortalizados nos painéis. "Tem mais de 10 anos que os mosaicos estavam guardados, porque quando fizeram a reforma, tiraram os mosaicos da parede. E nós pensamos que aquilo não tinha mais jeito, que tivessem jogado fora, como tudo que acontece nessa área cultural", conta Ana Maria Lopes que, junto com Nicolas Behr, empreendeu um movimento para saber qual havia sido o destino dos mosaicos e em que situação se encontravam. "E sempre com a promessa que iriam recolocar e nunca recolocavam", conta a escritora, que hoje celebra a volta da poesia aos muros da W3.
Ana Maria conta que Gougon idealizou os painéis porque queria que a poesia tomasse Brasília inteira: calçadas, paredes, chão. "Gougon foi meu colega de universidade e ele falava que a gente tinha que tomar conta da cidade. Ele achava que a poesia tinha que estar em tudo e teve essa ideia magistral, porque ficam aqueles poemas ali para quem passa, é uma coisa lúdica. A ideia era espalhar poesia para todo lado, sempre foi a ideia dele", conta.
Angélica Torres Lima lembra que o próprio Gougon escolheu os versos do painel. "Sempre achei incrível o Gougon ter homenageado oito poetas, quando ele poderia ter escolhido quatro poetas e quatro romancistas para constarem nas paredes exteriores de uma biblioteca, que é a casa dos livros", repara Angélica. Ela enxerga nas obras uma metáfora visual de resistência, uma espécie de trincheira. "Uma defesa do gênero literário menos lido, o menos cultuado entre leitores, como um tributo à poesia, mais que aos poetas em si. Vejo assim porque, além de muito sensível, ele sempre foi um artista militante na cidade."

Diversão e Arte
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