Cerca de 200 pessoas foram ao cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, na tarde dessa quarta-feira (4/3), para dar adeus à influenciadora Karla Thaynnara, 25 anos, e ao pai dela, o policial militar da reserva José Carlos Andrade Nogueira, 53. Os dois perderam a vida após um sinistro de trânsito na Epia, na última terça-feira.
Matheus Stevam, 31, era colega de trabalho de Karla na empresa 299 Imports, oficina especializada em motocicletas de Brasília. Ele comentou que fazia pouco tempo que a jovem tinha retornado à empresa. "Ela já tinha trabalhado conosco antes. Depois de um tempo fora, conseguimos contratá-la novamente", disse. Estevam afirma que Karla fazia de tudo para perseguir seus sonhos. "Ela sempre trabalhou para conquistar as próprias coisas. Era muito batalhadora", acrescentou.
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O gerente comercial da loja onde Karla trabalhava disse que a amiga era muito mais do que o que era mostrado nas redes sociais, onde ela tinha mais de 50 mil seguidores. "Às vezes, a pessoa pode ter uma impressão ao ver as fotos dela na moto, mas eu afirmo que ela amava muito as pessoas e era muito esforçada no trabalho", assegurou.
Ainda sem acreditar na partida da jovem, um amigo, que preferiu não ser identificado, comentou que conheceu Karla durante os passeios de moto que ela adorava tanto fazer. Ele definiu a motociclista como uma pessoa maravilhosa. "Karla era uma pessoa incrível. Muito legal de conviver e de conversar. Andava sempre de bom humor e tratava todo mundo com respeito", contou.
Karla era mãe de uma menina de sete anos. "Ela foi mãe e pai, na verdade. Nunca deixou faltar nada para a filha nesses quase oito anos. Foi uma honra conviver com ela todo esse tempo", comentou. Karla tinha acabado de realizar o sonho de comprar um apartamento para ela e para a filha. "Ela sempre falava comigo do apartamento, me mostrava fotos, era realmente o sonho. Infelizmente, não deu tempo de ela desfrutar esse sonho, espero que o apartamento seja um ambiente de acolhimento para a filha e para a mãe dela", lamentou Matheus Stevam.
Uma amiga da família comentou que José Carlos sempre será lembrado por ser uma boa pessoa. "Ele era muito divertido. Vou sempre lembrar dele com muito carinho", disse. Um amigo de trabalho do policial comentou que José Carlos sempre foi uma pessoa que zelava pelo bem-estar dos outros. "Ele era muito gentil e sempre pensava na família quando ia trabalhar. Era um pai de ouro", afirmou.
O secretário de Segurança Pública do DF, Sandro Avelar, foi ao enterro. Ele lamentou as perdas e conversou rapidamente com a família, na capela.
Como forma de homenagear a paixão que Karla tinha por motocicletas, amigos de estrada acompanharam o cortejo fazendo corta giro, prática comum dos motociclistas de acelerar o motor do veículo. Durante o sepultamento, os presentes cantaram músicas como Pais e Filhos, da banda Legião Urbana.
Via perigosa
Karla pilotava a moto quando bateu em um carro, caiu e foi atropleada por um caminhão que vinha logo atrás, nas proximidades do viaduto Ayrton Senna. Para a doutora em transportes pela Universidade de Brasília (UnB) Adriana Modesto, o local onde a vítima perdeu a vida precisa passar por intervenções urgentes que previnam mais tragédias. "Aquela é uma região com vários polos atrativos de viagens, como uma rodoviária interestadual e grandes atacados e feiras. Ou seja, é frequente a circulação de veículos pesados, como ônibus e carretas. E, no entanto, a Epia Sul também é via de acesso para várias regiões administrativas, motivando a circulação diária de muitas pessoas. Trata-se de um trecho bastante perigoso", avalia. Quando soube da morte da filha, o pai tirou a própria vida.
Os danos decorrentes de um sinistro de trânsito, segundo a especialista, vão desde prejuízos materiais até perdas imensuráveis. "Quando falamos de tragédias nas vias, sempre pensamos em homens jovens, usuários de motocicletas. Se usam esse meio para trabalhar, a situação torna-se ainda mais frágil. Afinal, se esse trabalhador sofre um acidente e fica com sequelas, também deixa de levar renda para casa", explica Adriana.
Nesse sentido, além dos fatores que garantem mais segurança no trânsito — intervenção na via, campanhas de conscientização, manutenção veicular e comportamento responsável — a eficiência dos serviços pós-sinistro faz toda diferença. "O tempo-resposta da ocorrência até o atendimento é fundamental para evitar mais danos à saúde. Além disso, seria imprescindível ter mais espaços especializados para receber pacientes com traumas", completa a pesquisadora.
Choque
Perder um familiar ou alguém próximo em um acidente de trânsito é considerado uma das formas mais traumáticas de vivenciar o luto, pois trata-se de uma morte inesperada, abrupta e violenta que rompe bruscamente a sensação de continuidade da vida. É o que afirma a psicóloga do grupo Mantevida Kênia Ramos de Souza, especialista em terapia familiar. "Diferente de perdas por doenças, não há tempo para despedidas ou preparo emocional, o que gera choque psicológico intenso, imagens mentais invasivas, desorganização emocional e um risco elevado de evolução para o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT)", detalha.
Segundo a psicóloga, o cérebro interpreta esse evento como uma ameaça extrema à segurança, intensificando a dor e o sofrimento devido ao caráter violento da perda, à sensação de injustiça e ao impacto sistêmico que afeta toda a família simultaneamente. Para tentar superar uma perda dessa magnitude, é fundamental entender que superar não significa esquecer, mas aprender a conviver com a ausência sem paralisia.
"O processo de elaboração exige que a pessoa se permita sentir a dor, chorando e expressando a perda em vez de negá-la, além de manter a memória do ente querido viva de forma saudável para ressignificar o vínculo. É essencial respeitar o tempo singular de cada luto e buscar apoio psicológico para organizar emoções como culpa e raiva", orienta Kênia.
O psicólogo Hartmunt Gunter, especialista em psicologia e em trânsito, reforça a importância da rede de apoio e dos serviços especializados para pessoas que enfrentam estresse intenso ou pensamentos autodestrutivos. Ele cita o Centro de Referência de Assistência Social (Cras), que oferece atendimento e orientação, como um dos caminhos possíveis para quem precisa de suporte. “Se a pessoa já tem uma certa propensão a perder a calma, está sob muito estresse e começa a ter ideação de que talvez a melhor coisa seja terminar tudo, esse é um lugar de referência para procurar atendimento”, finaliza.
