O Dia Internacional da Mulher no Centro Cultural TCU foi voltado a pintoras que marcaram a história da arte nacional. Com programação que homenageava nomes como Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Djanira, uma roda de conversa discutiu como essas mulheres foram centrais em movimentos artísticos, mesmo que a história tenha tentado apagar a participação fundamental delas na arte brasileira.
Para isso, a professora de história da arte no Instituto de Artes da UnB, Maria do Carmo, e a artista visual, gestora, pesquisadora e curadora, Fran Favero, apresentaram obras e histórias de pintoras com base na exposição de Tarsila do Amaral que está aberta ao público no Centro Cultural TCU. A mediação foi realizada por Juliana Insua, formada em Teoria, Crítica e História da Arte e em Artes Visuais pela Universidade de Brasília.
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A exposição Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral, apresenta 63 obras da artista e explora o modernismo. As obras vieram de diferentes acervos como o Museu de Arte de São Paulo, da Pinacoteca e de colecionadores de arte. A visitação é gratuita e os quadros estarão expostos até 10 de maio, das 9h às 18h, no Centro Cultural TCU.
Elisa Bruno, diretora do Centro Cultural TCU, comenta que Tarsila do Amaral, apesar de atualmente ser vista como uma das grandes pintoras do país, também passou por dificuldades como mulher. "Mesmo Tarsila tendo estudado fora do país, mesmo tendo todos os recursos que tinha, ela é delegada ainda a segundo plano como criadora", comenta Elisa, ressaltando que a pintora não participou da Semana de Arte Moderna de 1922, grande evento da época.
Mesmo assim, a exposição no local está sempre lotada de jovens e adoradores da artista. "As pessoas têm esse apego com ela, tanto que a galeria não para. A visita está sempre cheia de estudantes que tiveram o primeiro contato com ela pelos livros didáticos e reconhecem a importância dela pelo período e pela estética. Ela é realmente uma das maiores pintoras do Brasil", destaca Elisa.
Realizar esse bate-papo no Dia Internacional da Mulher adiciona uma sensibilidade ainda maior. "É uma forma de homenagear a mulher a partir de uma figura que foi tão emblemática para o modernismo e para toda a história brasileira da arte e da cultura. Foi uma mulher que marcou um tempo com formas, com cores, com todo esse movimento da antropofagia", afirma a diretora do Instituto Serzedello Corrêa, Ana Cristina Novaes, responsável pelo Centro Cultural TCU.
As diretoras comentam que o momento traz reflexão para aqueles que frequentaram a roda de conversa. "Tarsila tem uma comunicação interessante, porque ela é inovação e o que é genuinamente brasileiro ao mesmo tempo. Faz todo sentido trazer essas conversas nesse cenário de números tão altos de violência contra a mulher no país", afirma Elisa Bruno. Ana Cristina complementa que discutir o papel da mulher contribui para a formação cidadã e o evento também é uma forma de democratizar o acesso à arte e à cultura.
Juliana Insua, graduada em teoria, crítica e história da arte e em artes visuais pela Universidade de Brasília (UnB), comenta que além de Tarsila, o evento celebra as mulheres na arte brasileira. "Além da importância de Tarsila, estamos apresentando outras mulheres como Zina Aita, Anita Malfatti e Regina Graz. A gente não pode se esquecer que a exposição foi realizada por mulheres e isso é um ponto muito simbólico, porque quando a gente apresenta uma mulher no olhar de outras mulheres, fica de fato muito especial", elogia Juliana.
No evento, foi abordada a trajetória de mulheres na arte desde o século XIX. "Foi uma conversa muito rica e é um momento importante para a gente ver que eventos como esse dão muito certo e não devem ser valorizados só no Dia da Mulher. A gente não pode se esquecer, também, que esse tipo de celebração tem que ser corriqueira, e não pontual. Espero que as pessoas curtam a exposição e que tenham mais partilhas como essa de hoje", destaca. A professora Maria do Carmo acredita que o evento abre espaço para discussões sobre as condições das mulheres no século XXI, além de trazer sensação de empoderamento, reconhecer e valorizar as mulheres.
Fran Favero, artista visual, gestora, pesquisadora e curadora, destaca que foi um dia muito importante. "É um dia de luta, é um dia de conversa muito relevante. Estar aqui e pensar nessa grande mulher artista como um mote de uma conversa sobre muitas outras mulheres. A Tarsila foi um fio-condutor para a gente conversar sobre tantas outras coisas que tem a ver com esse universo das mulheres", ressalta. "Serve para gente falar sobre resistência, feminismo e isso dentro de uma espaço institucional, com essa validação institucional, traz outra camada de importância para o que foi realizado", comenta a artista.
Envolvidas na educação, Maria do Carmo e Fran Favero destacam que é relevante rever como a história das mulheres é ensinada. "É preciso olhar além do material que chega, olhar para suas instituições de maneira crítica, não de maneira passiva, e tentar criar situações em que essa valorização seja maior. Quem é artista precisa trazer esse referencial histórico das mulheres dentro das suas produções, abraçar esse legado e honrar, ainda que de maneira crítica, porque contrariar é também falar sobre", afirma Fran.
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