Presidente da Associação Brasileira de Mulheres das Carreiras Jurídicas-DF, Thais Riedel foi a convidada do Podcast do Correio da última sexta-feira. Durante a conversa com os jornalistas Ronayre Nunes e Ana Maria Campos, a advogada abordou como serviços de inteligência artificial reproduzem discursos machistas e debateu falou sobre os desafios da mulher no mercado tecnológico. Além disso, a professora e especialista em direito previdenciário detalhou os gargalos do INSS, propondo a criação de um código previdenciário.
O direito está no DNA de Thais. Vinda de uma família tradicional da advocacia — com representantes como Ulisses Riedel —, a influência foi fundamental para ela seguir a carreira jurídica. "Eu venho de uma família de juristas, do lado paterno e materno. Desde pequenina eu convivia com esse assunto", contou. Segundo Thais, a família segue um dilema de 'jurista e idealista', que enxerga a prática profissional como uma ferramenta para mudar a realidade. O início da carreira dela foi marcado pelo direito trabalhista, no escritório da família. Mesmo gostando do assunto, preferiu o direito previdenciário. "Essa área é muito social, você consegue ajudar muitas pessoas. E ele trata de todas as situações que envolvem riscos para as pessoas", acrescentou.
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Thais elogiou o modelo de Seguridade Social do Brasil, instituído pela Constituição de 1988, que, segundo ela, foi inspirado no europeu, e coloca sob o mesmo guarda-chuva: saúde, assistência e previdência social. "Porque são três áreas que vão lidar com a proteção do risco, então, com saúde, a minha população trabalha. Trabalhando, ela contribui, porque amanhã ela pode não ter saúde, então ela vai ter uma renda de um seguro público, e a assistência para aqueles que não conseguiram estar protegidos pela previdência", detalha.
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Mesmo com o orçamento para a Seguridade Social — composto pela contribuição do trabalhador, loteria, importação, lucro, PIS, Cofins e outros — Thais exemplifica que o sistema é como se fosse uma panela que tem que dar conta de três pratos. "A Constituição fala que é para tributar o trabalhador, os segurados. Era para ter uma diversificação para ter outras fontes de arrecadação", explicou. Segundo a advogada, o mecanismo de Desvinculação de Receitas da União (DRU) repassa 30% do orçamento que deveria ir para saúde, assistência e previdência para outras finalidades.
A advogada propõe a criação de um código previdenciário nacional para resolver a "colcha de retalhos". "Há muitas leis que precisam ser consolidadas para facilitar o entendimento da população. Eu vejo essa dificuldade até em sala de aula", explicou.
Previdência
"O INSS é o maior litigante (que pleiteia direitos ou contesta demandas) do país", definiu Thais Riedel. A advogada e professora comentou que o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) possui muitas falhas administrativas que precisam ser resolvidas. "Isso é muito ruim, são demandas que poderiam ser resolvidas administrativamente, até porque são repetitivas", disse.
Segundo a jornalista Ana Maria Campos, muitas pessoas reclamam ao caderno Direito & Justiça sobre o longo tempo de espera para ser atendido pelo telefone 135, chegando a esperar 80 minutos e, quando chega a hora do atendimento, a ligação cai. A advogada afirmou que as filas, que antes poderiam ser encontradas nas portas de agências do INSS, agora se encontram na internet. Thais apontou que a transição acelerada do órgão para o meio digital, embora positiva em alguns aspectos, criou essas filas e retirou o olhar humano essencial na triagem dos pedidos.
A razão para isso, segundo ela, foi a queda na contratação de servidores e o aumento do investimento na tecnologia. "Eu posso estar em Brasília e um servidor do Ceará está analisando o meu processo. Por um lado, isso é bom, entretanto, eu preciso ter um humano, de forma presencial, para analisar o processo", afirmou. Para a advogada, a população pode enfrentar dificuldades sem a devida assistência de um servidor em tratativas como documentação e o modo correto de seguir com a entrada da aposentadoria, por exemplo.
Mercado digital
"Eu nunca tinha parado para pensar, mas a IA é machista", afirmou Thais Reidel. A advogada explicou que serviços de inteligência artificial se debruçam em um repositório que, em sua maioria, foi escrito por um olhar masculino, o que, segundo ela, "sempre resultará em obras enviesadas". Para Thaís, isso é resultado da pouca presença feminina na área. "Quando olhamos o percentual das mulheres que trabalham com IA, vemos que ocupam apenas 16%. Precisamos trazer mulheres para o mundo da tecnologia", afirmou.
Thais comentou que teve a percepção de que a IA reproduz informações com olhar masculino após participar de uma conferência que abordou inteligência artificial e gênero. "Então, algo que é para ser neutro, acaba sendo feito unicamente com a visão masculina", disse. A advogada afirma que há discussões sobre o assunto. "Ainda temos muito que aprimorar", concluiu.
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